Por LUIZ CÉSAR SILVA*
A ascensão da China como uma das principais potências econômicas, tecnológicas e geopolíticas do século XXI constitui uma das transformações mais profundas da economia política internacional contemporânea. Em poucas décadas, o país deixou de ocupar uma posição periférica no sistema capitalista global para se tornar um dos principais polos de dinamismo, reconfigurando cadeias produtivas, fluxos comerciais, estratégias tecnológicas e equilíbrios de poder. Essa trajetória não representa apenas um caso singular de crescimento acelerado, mas um desafio estrutural aos paradigmas dominantes de desenvolvimento consolidados no pós-Segunda Guerra Mundial, particularmente aqueles associados ao liberalismo econômico e à hegemonia normativa do Ocidente.
Desde o final da Guerra Fria, o discurso hegemônico sobre desenvolvimento foi moldado pelas prescrições do Consenso de Washington. Esse conjunto de recomendações, institucionalizado por organismos multilaterais e governos das economias centrais (desenvolvidas), sustentava que a liberalização comercial e financeira, a redução do papel do Estado, a privatização e a consolidação da democracia liberal seriam condições universais e suficientes para promover o crescimento econômico, a estabilidade macroeconômica e o progresso social. Com o passar do tempo, tornou-se evidente que o liberalismo de Washington não apenas falhou em promover desenvolvimento sustentável nas economias periféricas, mas também produziu efeitos adversos persistentes, como a desindustrialização precoce, o aumento da desigualdade social, a fragilização do Estado e a recorrência de crises financeiras. O problema básico é que tal narrativa do liberalismo desconsidera as especificidades históricas, institucionais, produtivas e culturais dos países.
A experiência chinesa surge, nesse contexto, como uma ruptura paradigmática. Ao rejeitar a adoção acrítica das fórmulas neoliberais, o país construiu uma trajetória própria de desenvolvimento, baseada na articulação entre Estado forte, mercado regulado, planejamento de longo prazo e soberania nacional. Essa combinação singular deu origem a um modelo frequentemente descrito como “socialismo com características chinesas”, que desafia tanto as ortodoxias liberais quanto as interpretações tradicionais do socialismo.
Mais do que um arranjo econômico específico, o modelo chinês expressa uma concepção alternativa de desenvolvimento, entendida como um processo histórico, político e institucional, e não como a simples aplicação de um receituário universal. Ao fazê-lo, a China contribuiu para a emergência de uma nova geopolítica do desenvolvimento, na qual o monopólio intelectual do Ocidente é contestado e múltiplas trajetórias passam a ser reconhecidas como legítimas. Essa mudança tem implicações profundas para os países do Sul Global, que encontram na experiência chinesa não um modelo a ser copiado mecanicamente, mas um precedente histórico que reafirma a importância da autonomia estratégica, da capacidade estatal e da adaptação institucional.
A construção do modelo chinês remonta às reformas iniciadas no final da década de 1970, sob a liderança de Deng Xiaoping. Ao romper com o isolamento econômico e com a rigidez ideológica do período maoísta, Deng introduziu uma abordagem pragmática orientada por resultados concretos. O objetivo central não era a adesão a um dogma teórico específico, mas a modernização das forças produtivas, a elevação do nível de vida da população e o fortalecimento do Estado chinês. As reformas chinesas foram marcadas por um processo gradual e experimental, em contraste com as terapias de choque adotadas em diversos países da Europa Oriental e da América Latina. Em vez de desmontar abruptamente o sistema de planejamento central, a China instituiu mecanismos híbridos, nos quais coexistiam preços administrados e preços de mercado. Essa estratégia permitiu reduzir os custos sociais da transição, preservar a estabilidade política e criar incentivos progressivos à eficiência econômica. Ao mesmo tempo, o Estado manteve o controle sobre setores estratégicos, como energia, finanças, telecomunicações e infraestrutura, assegurando sua capacidade de coordenação macroeconômica e de direcionamento do desenvolvimento.
Um dos pilares centrais da trajetória chinesa foi a utilização estratégica do mercado como instrumento, e não como fim em si mesmo. Diferentemente do liberalismo econômico, que atribui ao mercado o papel de principal coordenador da atividade econômica, o modelo chinês subordina os mecanismos de mercado a objetivos nacionais definidos politicamente. O comércio exterior, o investimento estrangeiro direto e a integração às cadeias globais de valor foram utilizados de forma seletiva, com o objetivo de acelerar a aprendizagem tecnológica, ampliar a capacidade produtiva interna e fortalecer empresas nacionais. Essa inserção internacional controlada permitiu à China evitar a armadilha da dependência, típica de economias periféricas fortemente abertas e financeiramente vulneráveis.
A política industrial ativa constitui outro elemento distintivo do modelo chinês. Desde os anos 1980, o Estado chinês adotou estratégias explícitas de promoção de setores considerados prioritários para o desenvolvimento de longo prazo. Essas políticas incluíram subsídios direcionados, crédito estatal, proteção temporária contra a concorrência externa, exigências de conteúdo local e metas rigorosas de desempenho. Ao contrário do protecionismo defensivo observado em muitos países, a proteção chinesa esteve associada a mecanismos de disciplina competitiva, nos quais empresas que não alcançavam os resultados esperados eram reestruturadas ou excluídas. Esse arranjo permitiu a construção de capacidades industriais e tecnológicas robustas, culminando na ascensão chinesa em setores de alta intensidade tecnológica.
A partir dos anos 2000, especialmente após a crise financeira global de 2008, a China intensificou seus investimentos em inovação, ciência e tecnologia. O foco deslocou-se gradualmente de um modelo baseado em mão de obra barata e exportações de baixo valor agregado para uma estratégia orientada à sofisticação produtiva e ao domínio tecnológico. Programas como o “Made in China 2025” expressam essa ambição, ao estabelecer metas claras para a liderança em áreas como robótica, inteligência artificial, semicondutores, biotecnologia e energias renováveis. O Estado atuou como articulador de um ecossistema de inovação que integra universidades, centros de pesquisa, empresas estatais e privadas, além do sistema financeiro público.
O investimento massivo em infraestrutura física e logística foi igualmente decisivo para o sucesso chinês. Em poucas décadas, o país construiu a maior rede de ferrovias de alta velocidade do mundo, modernizou portos, aeroportos e rodovias e expandiu de forma acelerada suas redes de energia e telecomunicações. Esses investimentos reduziram custos de transação, integraram mercados regionais e criaram as bases materiais para a industrialização e a urbanização em larga escala. Mais do que ganhos econômicos imediatos, a infraestrutura desempenhou um papel estratégico na integração territorial e na coesão nacional, reforçando a presença do Estado em regiões periféricas e sensíveis. Outro componente fundamental do modelo chinês foi a formação acelerada de capital humano. A expansão do sistema educacional, com ênfase em ciência, tecnologia, engenharia e matemática, esteve articulada às necessidades da transformação produtiva. Universidades foram reestruturadas, centros técnicos foram criados e programas de capacitação em larga escala foram implementados para atender às demandas da nova economia industrial e tecnológica. A política de atração de talentos da diáspora chinesa, formados em universidades ocidentais, contribuiu adicionalmente para o fortalecimento do sistema nacional de inovação.
O planejamento de longo prazo, materializado nos Planos Quinquenais, constitui um dos traços mais característicos da governança econômica chinesa. Esses planos não se limitam a declarações genéricas de intenção, mas estabelecem metas quantitativas e qualitativas, orientam a alocação de recursos financeiros e servem como instrumentos de coordenação entre diferentes níveis de governo. Embora sejam adaptativos e sujeitos a revisões, os planos refletem uma visão estratégica de desenvolvimento que contrasta com o curto-prazo predominante em economias liberais. Essa capacidade de pensar o futuro em horizontes de décadas tem sido crucial para a consolidação das ambições chinesas no cenário global.
A estabilidade política e a coesão social desempenham um papel central na estratégia de desenvolvimento da China. O monopólio político exercido pelo Partido Comunista Chinês permitiu a implementação de reformas profundas sem rupturas institucionais significativas. Embora esse arranjo levante debates normativos sobre democracia e direitos civis, do ponto de vista do desenvolvimento econômico, ele assegurou continuidade, previsibilidade e capacidade de coordenação. O regime combinou controle político rígido com pragmatismo econômico, utilizando o crescimento e a melhoria das condições de vida como fontes de legitimidade social.
Em contraste, o modelo liberal tradicional, ao ser aplicado de forma homogênea nos países periféricos, revelou limitações estruturais. A abertura irrestrita ao comércio e aos fluxos financeiros, sem a construção prévia de capacidades produtivas internas, resultou em dependência externa, vulnerabilidade cambial e desindustrialização. A redução do papel do Estado comprometeu a capacidade de planejamento e de promoção do desenvolvimento, enquanto a liberalização financeira ampliou a exposição a crises recorrentes. Além disso, o aumento da desigualdade social e a fragilização das instituições minaram a coesão social e a legitimidade política em diversos países.
A comparação entre o modelo chinês e o liberal evidencia diferenças fundamentais na concepção do desenvolvimento. Enquanto o liberalismo enfatiza a eficiência alocativa do mercado e a neutralidade do Estado, a experiência chinesa destaca a importância da coordenação estratégica, da política industrial e da soberania nacional. O mercado é reconhecido como instrumento útil, mas subordinado a objetivos coletivos definidos politicamente. O sucesso é medido não apenas por indicadores macroeconômicos tradicionais, mas também pela redução da pobreza, pela transformação estrutural e pela capacidade de inovação.
Nesse sentido, a emergência da China contribui para a redefinição da geopolítica do desenvolvimento. Ao demonstrar que é possível alcançar crescimento acelerado, sofisticação tecnológica e redução da pobreza fora do paradigma liberal, o país amplia o repertório de alternativas disponíveis para o Sul Global. Essa mudança enfraquece a pretensão universalista do modelo ocidental e legitima a busca por trajetórias de desenvolvimento baseadas em contextos nacionais específicos.
A proposta chinesa de “desenvolvimento com características nacionais” sintetiza essa perspectiva. O desenvolvimento deixa de ser concebido como um processo linear e universal, passando a ser entendido como uma construção histórica situada. Autonomia estratégica, soberania econômica e adaptação institucional tornam-se princípios centrais. Essa abordagem não implica rejeição do mercado ou da globalização, mas sua subordinação a um projeto nacional de longo prazo. Para países periféricos marcados por instabilidade política, fragilidade institucional e dependência externa, essa concepção oferece importantes lições.
As implicações dessa transformação são amplas. No plano econômico, questiona-se a ideia de que a liberalização irrestrita seja condição necessária para o crescimento. No plano político, desafia-se a associação automática entre desenvolvimento e democracia liberal. No plano geopolítico, emerge um mundo mais plural, no qual diferentes modelos coexistem e competem por legitimidade. A China, ao articular poder econômico, tecnológico e político, consolida-se como um polo alternativo de referência para países que buscam maior autonomia no sistema internacional.
As considerações finais apontam para a necessidade de repensar o desenvolvimento no século XXI. A experiência chinesa demonstra que não há um único caminho para o progresso e que a construção de capacidades estatais, a valorização do planejamento e a afirmação da soberania são elementos centrais para trajetórias bem-sucedidas. Para o Sul Global, o principal ensinamento não reside na reprodução mecânica do modelo chinês, mas na recuperação da capacidade de formular projetos nacionais próprios, baseados em suas realidades históricas e potencialidades internas.
A ascensão chinesa inaugura uma nova etapa do debate sobre desenvolvimento, na qual o monopólio intelectual do Ocidente é relativizado e a diversidade de caminhos é reconhecida. Trata-se de um convite à reinvenção estratégica, à reconstrução da capacidade estatal e à afirmação do direito de cada nação escolher seu próprio caminho de progresso. Nesse sentido, a China não oferece um modelo acabado, mas um precedente histórico que amplia horizontes e redefine possibilidades.
A experiência chinesa de desenvolvimento nas últimas quatro décadas não apenas desestruturou o antigo consenso neoliberal que orientou as reformas econômicas globais, mas também promoveu uma nova reconfiguração das bases conceituais do próprio debate sobre o que significa desenvolver-se no século XXI. O país demonstrou que há espaço para trajetórias alternativas, construídas a partir de prioridades nacionais, capacidades estatais robustas e estratégias de longo prazo. Esse trajeto evidencia que o crescimento econômico sustentável e inclusivo não é uma consequência automática da liberalização dos mercados, mas sim o resultado de uma estratégia definida e coerente de desenvolvimento, alicerçada na articulação entre Estado, mercado e sociedade, orientada por objetivos nacionais. Tal estratégia requer instituições sólidas, planejamento econômico coordenado, capacidade de adaptação institucional e, principalmente, a afirmação da soberania política diante das pressões liberais de desregulação do sistema internacional. A China mostra que o sucesso econômico não está condicionado à adoção de modelos uniformes, mas à capacidade de construir soluções compatíveis com os desafios e potencialidades internas de cada nação.
Para os países do Sul Global, as lições que surgem da trajetória chinesa recaem essencialmente em não reproduzir fórmulas rígidas importadas, mas em reconhecer e entender que o desenvolvimento exige autonomia de pensamento, políticas públicas integradas e liderança política com visão estratégica. Nesse aspecto, cada país tem suas especificidades no caminho de desenvolvimento em que se encontra. A narrativa única da modernização liberal perde força diante de evidências que mostram a eficácia de modelos centrados em planejamento adaptativo, valorização do capital humano, coordenação entre Estado e setor produtivo e construção de consensos nacionais em torno de objetivos comuns. Dito de outro modo, o desenvolvimento deixa de ser um projeto imposto de fora, copiado e imposto como verdade absoluta e passa a ser um processo determinado de construção institucional, cultural e econômica, a partir das necessidades e potencialidades internas.
Deste modo, ao invés de reproduzir as prescrições do mainstream econômico, os países periféricos são convocados a revisitar suas experiências históricas, mobilizar suas capacidades institucionais e elaborar estratégias próprias de inserção no sistema internacional. A valorização da soberania, da estabilidade interna e da autonomia produtiva, tal como demonstrada pela China, revela-se como um eixo estruturante para a superação das limitações impostas pelo modelo liberal. Essa mudança de concepção não implica, de forma alguma, negar o mercado ou a globalização, mas sim subordinar-se a um projeto nacional de desenvolvimento que priorize o bem-estar coletivo, a coesão social e a sustentabilidade de longo prazo. A China oferece não um modelo a ser copiado, mas um convite à reinvenção, um convite para que cada país reencontre sua estratégia, reconstrua sua capacidade estatal e afirme seu direito de escolher seus próprios caminhos de progresso.
*Luiz César Silva é pós-doutorando em Economia pela Universidade do Porto; Doutor em Administração Pública pela Universidade do Minho (Portugal), Mestre em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro – Escola de Governo – FJP, Especialista em Controladoria e Finanças pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e Economista pela Universidade Católica de Petrópolis – UCP. É Professor de Administração e Gestão Pública no Instituto Politécnico de Bragança, Escola de Administração Pública, Comunicação e Turismo de Mirandela (EsACT-IPB). Lecionou no Departamento de Relações Internacionais e Administração Pública da Universidade do Minho. Atualmente, é membro do Comitê Científico da revista “Public Administration Research: Canadian Centre for Science and Education”.
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