Da Redação*
A sessão extraordinária do Supremo Tribunal Federal marcada para as 10h desta terça-feira, 15 de setembro, deveria colocar Alexandre de Moraes no centro do plenário. Na véspera do julgamento, porém, uma operação da Polícia Federal introduziu um personagem capaz de deslocar parte dos holofotes para André Mendonça.
O deputado federal e pastor evangélico da Assembleia de Deus Cezinha de Madureira (PL-SP), aliado próximo de Mendonça, foi alvo nesta segunda-feira da terceira fase da Operação Transparência. Autorizada pelo ministro Flávio Dino, a ação investiga suspeitas de tráfico de influência, corrupção e lavagem de dinheiro. Segundo a PF, Cezinha e pessoas de seu entorno teriam negociado pagamentos elevados em troca da promessa de acesso e influência sobre ministros de tribunais superiores. A investigação cita contatos envolvendo ministros do STF, entre eles André Mendonça. Até agora, a própria Polícia Federal afirma não ter encontrado indícios de que magistrados tenham participado das negociações.
A ressalva é importante. Mas não elimina o problema político e institucional que surgiu para Mendonça.
Cezinha não é um parlamentar qualquer na trajetória do ministro. Foi um dos principais articuladores de sua indicação ao Supremo, em 2021, quando Jair Bolsonaro procurava cumprir a promessa de colocar na Corte um ministro “terrivelmente evangélico”. Anos depois, foi o mesmo Cezinha quem abriu a porta para Daniel Vorcaro chegar até Mendonça.
Em março de 2025, Vorcaro avisou ao deputado que estava chegando para uma reunião. Cezinha respondeu: “Ministro já está te esperando”. O encontro aconteceu não no STF, mas no Instituto Iter, instituição privada fundada por Mendonça, em São Paulo. O ministro sustenta que a conversa tratou de uma questão jurídica relacionada a precatórios e que posteriormente votou contra o interesse defendido pelo banqueiro.
O que mudou nesta segunda-feira é a identidade do intermediário.
O homem que abria portas
A investigação autorizada por Dino descreve um método. Segundo a PF, advogadas encaminhavam peças, memoriais e informações processuais a Cezinha; o deputado respondia que havia falado, despachado ou pedido providências aos ministros; paralelamente, eram firmados contratos prevendo honorários elevados, inclusive pagamentos vinculados ao resultado das causas.
Em um dos episódios mencionados pela investigação, os valores chegavam a R$ 1 milhão, com previsão de R$ 2 milhões em caso de sucesso. A PF investiga se Cezinha utilizava sua posição parlamentar e sua proximidade com integrantes dos tribunais para vender a terceiros a expectativa de influência sobre decisões judiciais.
A defesa do deputado nega irregularidades e afirma que os fatos serão esclarecidos no processo.
Não há, até agora, evidência de que Mendonça tenha recebido dinheiro ou participado de qualquer negociação ilícita. O problema é outro: o homem que levou Vorcaro até ele está sendo investigado justamente pela suspeita de transformar sua capacidade de chegar a ministros em ativo negociável.
Isso muda inevitavelmente a leitura do encontro no Iter.
A pergunta passa a ser não apenas por que Mendonça recebeu Vorcaro fora do STF e sem registro público, mas em que circunstâncias Cezinha promoveu essa aproximação e se ela guarda alguma relação com o método de intermediação que a PF agora investiga.
Mendonça chega diferente ao plenário
A revelação ocorre no pior momento possível para André Mendonça.
Foi ele quem tornou públicas as mensagens encontradas pela PF no celular de Vorcaro que indicariam uma relação próxima entre o ex-controlador do Master e Alexandre de Moraes. A divulgação abriu uma crise sem precedentes no Supremo e transformou Mendonça e Moraes nos polos de uma disputa que já ultrapassou os limites do processo.
Nesta terça-feira, Mendonça será o primeiro ministro a falar depois da abertura da sessão pelo presidente Edson Fachin. Caberá a ele apresentar o relatório. Depois falará a Procuradoria-Geral da República e começarão os votos. O STF ainda não confirmou se Moraes participará do julgamento.
Mendonça, porém, já não chega ao plenário apenas como o ministro que revelou as mensagens de Moraes.
Chega também como o ministro que recebeu Vorcaro num encontro reservado intermediado por um deputado agora investigado por suspeita de comercializar influência junto aos tribunais.
Não é uma diferença pequena.
O celular inteiro entra no jogo
A situação se tornou ainda mais delicada porque o controle sobre as informações extraídas do celular de Vorcaro deixou de estar concentrado na investigação conduzida por Mendonça.
Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes cobraram acesso ao conjunto dos dados. Gilmar argumentou que, sem conhecer a íntegra do material, os demais ministros ficariam reduzidos a espectadores da seleção realizada pelo relator e pela Polícia Federal. A PF informou ser possível fornecer cópias idênticas sem comprometer a cadeia de custódia.
Há ainda outro movimento importante. A PGR defendeu nesta segunda-feira a retirada do sigilo de um processo sobre a rede de pagamentos de Vorcaro, alegando que é necessário conhecer a “totalidade dos fatores” envolvidos no julgamento. O Ministério Público revelou inclusive que não sabia da existência desse procedimento porque ele não aparecia em seu sistema.
O celular de Vorcaro, portanto, está deixando de funcionar como fonte de acusações selecionadas contra determinada autoridade para se transformar num mapa muito mais amplo das relações construídas pelo banqueiro.
E nesse mapa aparecem Moraes, Mendonça, outros integrantes do Judiciário, políticos, empresários e intermediários.
Cezinha pode ser uma peça importante para entender como algumas dessas portas eram abertas.
A guerra dentro do Supremo
A operação desta segunda-feira também agravou a guerra aberta dentro da Corte.
Mendonça interpreta a ação contra Cezinha como uma tentativa de intimidá-lo. Nos bastidores, atribui o movimento ao grupo próximo a Moraes. Kassio Nunes Marques também demonstrou preocupação com a operação.
O problema dessa interpretação é que a investigação de Cezinha não nasceu nesta semana. Ela deriva da apuração sobre emendas parlamentares iniciada anteriormente e foi autorizada por Flávio Dino. Além disso, Dino não acolheu tudo o que havia sido solicitado pela investigação: recusou, por exemplo, busca no gabinete parlamentar de Cezinha.
A reação de Mendonça produz ainda uma consequência paradoxal. Quanto mais o ministro considera a operação contra Cezinha um ataque dirigido contra ele próprio, mais chama atenção para a proximidade existente entre os dois.
E o confronto já possui antecedentes graves. Na semana passada, Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada. Dino reagiu determinando a reintegração. Fachin interveio e suspendeu as duas decisões, restabelecendo os dirigentes em seus cargos enquanto tenta retirar a crise do terreno das decisões individuais e devolvê-la ao colegiado.
O que pode acontecer nesta terça-feira
Formalmente, o Supremo deverá decidir se existem elementos suficientes para abrir investigação sobre a conduta de Alexandre de Moraes em suas relações com Vorcaro.
Politicamente, o julgamento ficou maior.
A operação contra Cezinha fortalece o argumento dos ministros que defendem conhecer a íntegra do material antes de tomar uma decisão definitiva. Também aumenta o espaço para pedido de vista, novas diligências ou alguma solução que permita investigar as diferentes relações de Vorcaro com integrantes do tribunal, em vez de examinar exclusivamente Moraes.
Há ministros que já consideram possível até mesmo o adiamento da sessão diante do volume de informações novas que chegaram à Corte.
Isso não significa que as suspeitas envolvendo Moraes tenham desaparecido. As mensagens encontradas no aparelho de Vorcaro precisam ser esclarecidas, inclusive as referências ao contrato milionário do Banco Master com o escritório de sua mulher e às tentativas do banqueiro de obter informações quando estava sob investigação.
Mas tornou-se muito mais difícil sustentar que apenas uma parte das relações de Vorcaro merece ser investigada.
O próprio Mendonça terá outro encontro marcado com o plenário. Fachin marcou para 23 de setembro a análise do pedido de investigação formulado contra ele por Moraes, que acusa o colega de irregularidades na condução das investigações do caso Master.
Amanhã, portanto, o STF não estará decidindo apenas o destino imediato de uma investigação sobre Alexandre de Moraes.
Estará tentando responder a uma crise que já alcançou a Polícia Federal, dividiu ministros, expôs relações pouco transparentes entre autoridades e Daniel Vorcaro e agora colocou sob investigação o parlamentar que abriu para o banqueiro uma das portas do próprio Supremo.
A pergunta que a Operação Transparência deixou sobre a mesa é simples e incômoda: quando Cezinha levou Vorcaro até André Mendonça, estava apenas aproximando duas pessoas ou estava fazendo aquilo que a Polícia Federal agora suspeita que fazia para outros interessados — transformar proximidade política em acesso privilegiado aos tribunais?
A investigação ainda terá de responder.
Mas André Mendonça entrará no plenário nesta terça-feira sabendo que essa pergunta também estará na sala.
Pela Redação: Benedito Tadeu César
Ilustração da capa: Cezinha de Madureira, ao centro, intermediou o encontro entre André Mendonça e Daniel Vorcaro e agora é investigado pela PF por suspeita de negociar influência junto a tribunais superiores. O caso aumenta a pressão sobre Mendonça às vésperas da sessão extraordinária do STF. Crédito: Ilustração produzida por inteligência artificial para a Rede Estação Democracia.

