Caso Marielle: O fracasso do sistema de justiça

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Em suma, poucas vezes um crime apresentou tal número de evidências. O que ocorreu, então, para essa passada de pano geral?

Depois de anos de investigações, o julgamento do assassino de Marielle se baseia em uma delação premiada de Ronnie Lessa, o vizinho de Jair Bolsonaro.

É um embuste, do qual participaram o Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro, a Polícia Civil do Rio e a Polícia Federal. É de um primarismo tão eloquente, que suscita a questão que interessa: quem está por trás desse jogo, a ponto de exigir tanta simulação?

A lógica da acusação é precária.

O assassino apontou os irmãos Brazão como mandantes.

Mas tinha que se providenciar uma relação de causalidade.

Veio a história, então, de que Marielle era contra a aprovação da regulamentação de terrenos que interessavam à família.

Mas a Câmara aprovou. Então qual a razão de terem comandado o assasinato.

Não tem a menor lógica. Era óbvio que a morte de uma vereadora, mulher e combativa, traria os olhos do país e do mundo para o episódio. Não é preciso de nenhum tirocínio agudo para se chegar a essa conclusão. A troco de quê os Brazão iriam transformar uma disputa local em caso nacional?

Vamos aos fatos objetivos:

  1. O porteiro do Vivendas da Barra disse que o motorista que entrou, para pegar Ronnie Lessa, pediu para ligar na casa de Jair Bolsonaro. O Jornal Nacional deu a matéria. Do exterior, Jair gravou um vídeo dizendo que, naquele dia estava em Brasilia.
  2. Mostramos aqui, no GGN, que o sistema de telefonia do condomínio permitia transferência de ligação para telefone celular. Logo, o álibi de Bolsonaro era furado.
  3. Carlos Bolsonaro sistentou que passou todo o dia da morte de Marielle na Câmara de Vereadores. Mostramos, aqui, um vídeo dele, com o sistema de telefonia do condomínio, clicando nas diversas chamadas, para tentar mostrar que não havia nenhuma para a casa do pai. Acabou mostrando uma chamada para a sua casa. “Seu Carlos, é seu Uber”, disse o porteiro. Horas? 17 horas, justamente a hora que terminou a reunião de Ronnie Lessa que, naquele mesmo momento, saiu para executar Marielle.
  4. Mostramos aqui que, logo após o assassinato, o interventor do Rio de Janeiro, general Braga Neto, afirman do que já tinham chegado aos mandantes, mas nada falaria para não atrapalhar as investigações. Depois, nada mais disse.
  5. No final do ano, o general Villas Boas celebrou o pacto entre Braga Neto e Bolsonaro, pelo qual Braga Neto assumiu a chefia da Casa Civil. E ainda afirmou que o país foi salvo por três pessoas: Bolsonaro, Sérgio Moro e Braga Neto.

Em suma, poucas vezes um crime apresentou tal número de evidências. O que ocorreu, então, para essa passada de pano geral?

O Ministério Público Estadual do Rio, ao menos a equipe que investigava o caso, demonstrou desde o começo simpatia pelo bolsonarismo. A ponto de não apenas ignorar o fato de Carlos Bolsonaro ter se apossado de uma prova – o sistema de telefonia do condomínio – como sustentar que foi feita uma perícia, em meio dia, para assegurar que nada foi alterado no equipamento. Perícias nesse tipo de equipamento não duram menos de dois dias.

A PF foi acionada pelo então Ministro Sérgio Moro exclusivamente para intimidar o porteiro do prédio. E nunca mais se ouviu falar dele, mostrando o fracasso do jornalismo carioca. A Polícia Civil do Rio foi acusada, desde o início, de desviar o foco das investigações.

Depois disso, houve a morte de Adriano da Nóbrega, uma autêntica queima de arquivo, de Gustavo Bebianno.

Em suma, o caso Marielle significa a falência de todo o sistema de investigação do país, da Polícia Federal ao MPE do Rio e ao MPF.

Leia também: Quaquá está certo: os Brazão são bode expiatório de Carlos Bolsonaro, por Luís Nassif .


Foto da capa: Marielle Franco-wikimedia-commons-

Publicado originalmente no GGN

Sobre o autor

Luis Nassif
Luis Nassif
Luís Nassif é jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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