Capitão Bolsonaro e a carta da capitania hereditária

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A carta de Bolsonaro - Foto composição Feita por IA  ChatGPT a partir de imagens das redes sociais.

Por BENEDITO TADEU CÉSAR*

Jair Bolsonaro decidiu recorrer à caligrafia como instrumento de poder. Uma carta escrita à mão — aparentemente anacrônica como um pergaminho em plena era digital — para confirmar a indicação do filho Flávio Bolsonaro à Presidência da República, lida pelo próprio herdeiro minutos antes da cirurgia do patriarca. A cena, com direito a hospital, drama e aura messiânica, mistura teatro religioso, novela familiar e cálculo político frio.

Nada ali é improviso. A carta não foi escrita para convencer eleitores indecisos. Foi escrita para organizar o campo bolsonarista, disciplinar aliados e, sobretudo, reafirmar quem manda no espólio político do clã.

A carta: quando a política vira testamento

O simbolismo é direto. Jair, inelegível e politicamente emparedado, escreve como quem redige um testamento. Não governa, mas designa. Não disputa, mas unge. A carta não traz programa, não articula alianças, não resolve contradições. Cumpre outra função: sinalizar que, mesmo fora do jogo formal, o comando permanece em casa.

A leitura pública, às vésperas de uma cirurgia, não é detalhe: transforma o gesto político em rito de passagem. O pai sofre, o filho herda. O bolsonarismo entrega-se a uma cena de sucessão quase monárquica — com direito a comoção e silêncio reverente.

Família antes do movimento

Ao sacramentar Flávio, Jair resolveu uma disputa interna e abriu outra. Michele Bolsonaro, que vinha sendo tratada como possível alternativa eleitoral, especialmente pelo apoio consolidado entre evangélicos, foi empurrada para a periferia do projeto. O recado foi claro: popularidade própria não compensa risco político. Melhor um filho previsível do que uma aliada com autonomia.

O bolsonarismo reafirmou sua lógica interna: família, sim — desde que de sangue. Ao sacramentar o sobrenome antes do movimento, limita conscientemente sua capacidade de ampliar alianças.

O enterro simbólico de Tarcísio

Antes da carta, parte relevante da Faria Lima, do Centrão e da direita institucional apostava em Tarcísio de Freitas como candidato viável, competitivo e menos rejeitado. A indicação de Flávio não apenas esvazia essa construção como deixa claro que o projeto Bolsonaro não admite sucessores sem sobrenome.

Tarcísio segue útil como aliado, cabo eleitoral e fiador de “responsabilidade fiscal”. Mas está politicamente contido. Crescer demais virou risco. O bolsonarismo não tolera herdeiros que não sejam biológicos.

A eleição como instrumento

Aqui está o ponto central que a carta revela sem dizer: a candidatura de Flávio não é apenas — talvez nem principalmente — sobre ganhar a Presidência. Ela serve para algo mais pragmático e potencialmente mais perigoso: organizar o voto bolsonarista para a conquista de bancadas majoritárias na Câmara e no Senado.

Com uma candidatura presidencial própria, o clã mantém o controle da narrativa, mobiliza a militância e puxa votos para deputados e senadores leais. O objetivo estratégico é cristalino: criar condições políticas para aprovar uma anistia ampla a Jair Bolsonaro. E, se o Supremo Tribunal Federal considerar essa anistia inconstitucional, abrir-se-ia outro flanco: pedidos de impeachment de ministros, agora embalados por uma maioria parlamentar ideologicamente coesa.

Não é delírio. É cálculo.

Perder para não deixar ninguém ganhar

Mesmo que Flávio seja derrotado no Planalto — cenário hoje mais provável —, o plano ainda funcionaria em outra dimensão. A candidatura presidencial impede o surgimento de lideranças competitivas à direita e à extrema direita fora do clã. Bloqueia outsiders, desestimula projetos autônomos e mantém o bolsonarismo fechado em torno do sobrenome.

Perder a eleição, nesse caso, não significa perder poder. Significa impedir que outros o conquistem.

Perder agora para disputar depois

Mesmo derrotado em 2026, Flávio Bolsonaro não sai dessa disputa menor do que entrou. Ao contrário: a candidatura presidencial funciona como um processo de cacifação política com horizonte mais longo. Em 2030, Lula não estará no tabuleiro eleitoral, e o campo progressista terá de enfrentar uma sucessão aberta. É para esse cenário que Flávio já começa a se posicionar.

A exposição nacional, a consolidação como “herdeiro oficial” e a manutenção do controle do bolsonarismo organizado criam um ativo político que transcende o resultado imediato. Flávio pode perder agora, mas sai reconhecido como o nome inevitável do campo — o que lhe permite atravessar o próximo ciclo eleitoral como favorito interno, com musculatura partidária, base parlamentar e narrativa de “perseguição” reciclável.

Nesse sentido, a insistência na candidatura não é teimosia nem improviso. É investimento. Um investimento em tempo político, na ausência futura de Lula e na expectativa de desgaste natural do atual governo. A eleição de 2026, para o clã, é menos sobre chegar ao Planalto e mais sobre não sair do jogo.

Pesquisas: crescimento com teto baixo

Os números confirmam o dilema. Flávio cresce desde o anúncio e deve ganhar novo impulso simbólico após a carta, mas esbarra em rejeição elevada fora da base bolsonarista. O nome Bolsonaro ainda mobiliza afetos intensos — a favor e contra —, mas tem dificuldade estrutural de conquistar eleitores moderados.

O crescimento é suficiente para garantir palanque nacional e votos proporcionais. Insuficiente, até aqui, para ameaçar seriamente a liderança de Lula.

Lula e a vantagem do mundo real

Lula, como incumbente, mantém vantagem estrutural: máquina pública, alianças amplas e liderança nas pesquisas. Qualquer candidato da direita que chegue ao segundo turno tende a catalisar votos anti-Lula, mas isso ainda não se mostrou suficiente para virar maioria.

O paradoxo é evidente: o bolsonarismo aposta numa candidatura presidencial frágil para fortalecer um projeto de poder mais duradouro no Congresso.

Conclusão: a carta como mapa do autoritarismo possível

A carta manuscrita de Jair Bolsonaro não é nostalgia nem impulso emocional. É um documento estratégico. Ela aponta para um bolsonarismo que aceita, se necessário, perder a Presidência agora para preservar o controle familiar do projeto, blindar juridicamente o patriarca, tensionar as instituições a partir do Congresso e preparar o terreno para a próxima disputa.

Flávio pode não vencer em 2026. Mas, se o plano funcionar, chegará a 2030 como herdeiro incontestável de um campo político organizado, com bancadas fortes, narrativa consolidada e a ausência de Lula como variável decisiva. No bolsonarismo, o curto prazo serve ao longo prazo. E a carta, mais do que um gesto simbólico, é um roteiro para a permanência no poder. Às vezes, perder uma eleição é apenas parte do caminho para tentar ganhar a seguinte.

PS – Artigo atualizado no dia 25/12/2025, às 15h50, para incorporar observação feita por José Orlando Schaffer sobre o projeto bolsonarista para 2030.

*Benedito Tadeu César é cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Especialista em partidos políticos e análise eleitoral, democracia, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED.


Ilustração da capa: A carta de Bolsonaro – Foto composição Feita por IA ChatGPT a partir de imagens das redes sociais.


Leia a íntegra da carta abaixo.

“Carta aos Brasileiros

“Ao longo da minha vida, tenho enfrentado duras batalhas, pagando um preço alto, com minha saúde e minha família, para defender aquilo que acredito ser o melhor para o nosso Brasil.

“Diante desse cenário de injustiça, e com o compromisso de não permitir que a vontade popular seja silenciada, tomo a decisão de indicar o Flávio Bolsonaro como pré-candidato à Presidência da República em 2026.

“Entrego o que há de mais importante na vida de um pai: o próprio filho, para a missão de resgatar o nosso Brasil. Trata-se de uma decisão consciente, legítima e amparada no desejo de preservar a representação daqueles que confiaram em mim.

“Ele é a continuidade do caminho da prosperidade que iniciei muito antes de ser presidente, pois acredito que precisamos retomar a responsabilidade de conduzir o Brasil com justiça, firmeza e lealdade aos anseios do povo brasileiro.

“Que Deus o abençoe e o capacite na liderança dessa corrente de milhões de brasileiros que honram a Deus, a pátria, a família e a liberdade. “Brasília, 25 de dezembro de 2025.

“Jair Messias Bolsonaro”

Carta de Jair Bolsonaro – Fonte: Redes Sociais.

Sobre o autor

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Benedito Tadeu César
Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), jornalista e direitor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED - Rede Estação Democracia.

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Respostas de 2

  1. Gostei muito da análise, se a Família Bolsonaro pensa mesmo assim e possui disciplina para levar este plano adiante demonstra muita maturidade política,mas ações da família são meio atabalhoada, eles contam com uma lealdade fanática que pode se diluir ao longo do tempo, e não se fala do que a centro esquerda e esquerda e até a centro direita planejam para seus próprios futuros.

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Benedito Tadeu César

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