Por RUDOLFO LAGO*, do Correio da Manhã
Quem acompanha aqui o Correio Político, talvez tenha se surpreendido menos. Há uma semana, na coluna da última segunda-feira (24), já apontávamos que alguns procuradores apontavam fragilidades na ação contra o ex-presidente Jair Bolsonaro no caso da falsificação do certificado de vacinação contra a covid-19. E que Bolsonaro poderia até, segundo as informações, inocentado nesse caso e também, talvez, no das joias (embora, no caso das joias, há outros agravantes apontados pelas fontes ouvidas que podem complicar a sua situação). A coluna não cravava o arquivamento, mas, diante da fragilidade apontada, era uma hipótese provável. Isso enfraquece a denúncia do golpe? Muito provavelmente, não.
Joias
No caso das joias, lembrando o que foi dito também, a utilização do aparelho de Estado e de seus servidores para vender os presentes recebidos é um possível agravante, ainda que se conclua que a propriedade das joias era de Bolsonaro e ele podia vendê-las.
Ordem
Se no caso da vacina não havia prova da ordem de Bolsonaro, isso não acontece nas joias. Efetivamente, a venda envolveu servidores públicos, como o tenente-coronel Mauro Cid e seu pai, o general Lourena Cid. Espaços públicos, como o escritório da Apex em Nova York.
Foco no essencial, e não no acessório
Gonet defende prisão domiciliar da pichadora | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Ainda sobre as joias, outros servidores. Como o ex-ministro de Minas e Energia Bento Albuquerque, que teria sido dublê de muambeiro ao entrar no país com os presentes sem declarar. A questão, porém, do arquivamento no caso da vacina aponta para uma outra tendência. Sem poder negar muito a enxurrada de documentos encontrados sobre a trama do golpe, os aliados de Bolsonaro tratam de se concentrar em questões acessórias que poderiam enfraquecer a acusação. Não centradas nos mandantes. Que reforçam o discurso de que o Supremo Tribunal Federal (STF) tornou-se um tribunal de exceção e o tudo um jogo de cartas marcadas.
Discurso
Como também já comentamos aqui, cada vitória parcial que Bolsonaro eventualmente tenha no campo jurídico atrapalha a sua estratégia no campo político. Fica difícil tentar transformar o STF em tribunal de exceção se eventualmente os argumentos da defesa vencerem.
Provas
No caso da vacina, reforça-se o que se repete no julgamento: a delação é meio de obtenção de prova, não a prova em si. Mauro Cid mentiu no caso da vacina e isso o desqualifica? É exatamente por isso que tudo o que ele diz precisa ser corroborado com provas.
Golpe
Se essa corroboração não houve quanto à vacina, houve com relação à denúncia de tentativa de golpe. Diversos documentos: planos escritos, anotações em agendas, conversas no Whatsapp, agentes localizados em pontos estratégicos para monitorar alvos.
Penas
E chega-se a outro ponto acessório: os condenados menores. Gonet recomendou a prisão domiciliar da pichadora Débora Santos. E, nos bastidores, o STF começa a discutir se não há mesmo penas excessivas. O que pode esvaziar o discurso político dos aliados de Bolsonaro.
*Rudolfo Lago é jornalista do Correio da Manhã / Brasília, foi editor do site Congresso em Foco e é diretor da Consultoria Imagem e Credibilidade
Publicado originalmente no Correio da Manhã.
Foto de capa:Nada havia além da delação de Mauro Cid Lula Marques/ Agência Brasil