Em uma eleição que novamente repetirá o padrão de concentração de aproximadamente 70% dos votos em apenas duas candidaturas, é difícil encontrar um fato novo, algo que destoe da polarização ideológica constituída no país desde 2018. Se esse elemento novo existir, e se alguém for capaz de trazer novidade ao pleito, essa pessoa será Renan Santos. Obviamente, dizer isso não significa elogiá-lo, tampouco endossar o mérito de suas propostas. Mas é inegável que, fora o esperado embate entre Lula e Bolsonaro, é o candidato do Missão quem mais consegue atrair holofotes, oxigenando uma disputa que se mostra enfadonha e pouco mobilizadora. Renan parece ser o único capaz de elaborar narrativas de futuro, colocando-se como representante de um movimento social, enquanto Lula mobiliza a própria biografia como principal trunfo eleitoral e Flávio se apresenta como herdeiro de um clã.
A principal estratégia de Renan Santos parece ser explorar obviedades na chave do absurdo, ocupando o vazio discursivo deixado pela esquerda e a frustração provocada pelo fracasso da direita bolsonarista quando teve a chance de governar. Por exemplo: não podemos normalizar o fato de que 41% da população brasileira viva em territórios dominados pelo crime organizado, o equivalente a cerca de 69 milhões de pessoas. Isso não significa que o presidente da República esteja autorizado a pregar um “banho de sangue”, como o próprio Renan costuma prometer. Mas, se a democracia falha em resolver o drama da segurança pública, é de se esperar que a radicalização do populismo penal se torne eleitoralmente atraente. O candidato do Missão parece conhecer a dimensão prática do problema, como demonstrou na sabatina ao Jornal Nacional, quando evocou o desespero de famílias com filhas assediadas por criminosos. Trata-se de uma realidade subestimada pela esquerda, que costuma tratar os agressores com termos condescendentes, definindo-os como “juventude negra e periférica vítima de um genocídio de Estado”. Parece-me evidente que quem recebe as forças policiais com tiros de fuzil assume o risco de morrer, já que o monopólio da força cabe ao poder público. É também elementar que o Estado deve recuperar esses territórios, algo impossível de se alcançar negociando com o crime. Por ter abdicado dessas premissas básicas devido a convicções ideológicas sem lastro na realidade, a esquerda encontra enorme dificuldade em conquistar a confiança da população. Com toda a sua retórica militarista, a direita bolsonarista também não foi capaz de resolver o problema. É, justamente, nessa sobreposição de frustrações que Renan Santos pretende crescer.
A candidatura de Renan Santos combina uma agenda econômica neoliberal com a defesa do Estado de bem-estar social. Não há esforço para buscar coerência ideológica, tampouco a preocupação de amparar suas propostas na Constituição. O objetivo central é misturar repertórios e ativar a economia da atenção, provocando no eleitorado a sensação de que “o que esse cara diz faz algum sentido”. É claro que isso não será o bastante para vencer, sendo provável que sequer alcance os dois dígitos nas intenções de voto. No entanto, a estratégia gera acúmulo político, e Renan é jovem. Trata-se, sem dúvida, de um personagem que não pode ser ignorado por quem acompanha o cenário político brasileiro.
Renan Santos não é um estreante na crônica política brasileira. Sua primeira aparição pública ocorreu no final de 2014, logo após a reeleição de Dilma Rousseff. Junto a outros jovens militantes, como Kim Kataguiri e Rubinho Nunes, ele fundou o Movimento Brasil Livre (MBL), grupo que ganhou destaque na organização das manifestações de rua que desestabilizaram o segundo mandato de Dilma, pavimentando o caminho para o impeachment da então mandatária. O protagonismo do MBL foi conquistado na disputa direta com outras organizações de matriz semelhante, como o Vem Pra Rua (VPR) e o Revoltados Online.
Na época, os principais veículos da imprensa brasileira acolheram com algum entusiasmo a organização liderada por Renan Santos, adotando o simpático rótulo de “nova direita” para batizar o grupo. Por exemplo, em texto publicado na Folha de S. Paulo em outubro de 2014, a jornalista Patrícia Campos Mello definiu Renan e seus aliados como “moços arrumadinhos, muitos usando gravata-borboleta, que compartilham o preceito ideológico fundamental segundo o qual o único papel do governo é proteger nossas liberdades”. A cobertura de outros jornais e revistas seguiu linha parecida. No registro da grande mídia, a “nova direita” não apenas se mostrava compatível com a democracia, mas parecia vocacionada a renovar a política nacional, combatendo a corrupção e recolocando o país nos trilhos da austeridade fiscal, que teria sido abandonada pelo desenvolvimentismo do governo Dilma. Assim, os meios de comunicação cujos editoriais há tempos criticavam as administrações petistas apostaram, justamente, no surgimento de uma “nova direita” com letramento digital e capacidade de mobilização popular suficientes para encerrar o ciclo de vitórias do PT nas eleições presidenciais. Renan Santos era o líder desse grupo político, que despertava expectativas tão positivas.
Hoje, doze anos depois, o cenário é completamente diferente. Jair Bolsonaro tornou-se a liderança inconteste na direita brasileira, tendo construído um movimento de massa que carrega seu nome e se mostra impressionantemente resiliente, a ponto de permanecer eleitoralmente competitivo mesmo depois do desaparecimento do patriarca. O bolsonarismo modulou uma grade discursiva que transformou a guerra cultural e o populismo penal em temas incontornáveis para qualquer um que almeje disputar o seu fiel eleitorado, como Renan Santos está tentando fazer neste exato momento. Portanto, Renan está lidando com assuntos que não pertenciam a seu repertório quando despontou como líder e fundador do MBL. A boa vontade da grande imprensa, obviamente, não existe mais. O termo “nova direita” desapareceu do noticiário político. Renan deixou, então, de ser a “nova direita”, pois a própria “nova direita” morreu quando ainda engatinhava, sepultada pelo próprio Jair Bolsonaro, que desestabilizou a linguagem política da crise democrática brasileira, demandando a mobilização de outros conceitos políticos, como “extrema direita”.
Assim, bem diferente do que já foi e com muito menos apoio do que já teve, Renan Santos chega à sua primeira corrida presidencial, buscando sua própria identidade política. Por enquanto, é apenas mais um candidato a herdeiro do bolsonarismo. No futuro próximo, talvez consiga se tornar algo a mais. A ver.
Foto de capa: Renan Ramalho/Gazeta do Povo


