Por BENEDITO TADEU CÉSAR*
A candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência em 2026, antes tratada com ceticismo por analistas, tende a se tornar irreversível e eleitoralmente viável. Sagrado pelo pai como sucessor político, Flávio herda um capital de votos que nenhum outro nome da direita consegue mobilizar. A ideia de que sua candidatura murcharia com o tempo mostrou-se precipitada. Ao contrário: à medida que o nome circula e se articula, o bolsonarismo se recompõe e se reorganiza em torno de sua figura.
O papel do centro e o vácuo de liderança
Sem força real no Executivo federal desde o desgaste do PSDB pós-Aécio Neves, o centro político tem sido ocupado por legendas como o PSD de Gilberto Kassab. Apesar de se declarar “nem de esquerda, nem de direita, nem de centro”, o PSD posiciona-se, na prática, como um partido de oportunidades — perfil comum ao centro em democracias mundo afora e que os faz hoje adernar à direita.
Com Lula fora do jogo em 2030 e sem um herdeiro político claro, cresce entre analistas e lideranças partidárias a percepção de que o centro precisa ocupar espaço com antecedência. A estratégia mais inteligente poderia ser lançar um nome competitivo já em 2026 — como Ratinho Júnior — com o objetivo de garantir uma base sólida para negociar apoio no segundo turno, caso a candidatura de centro não avance e a de Lula tenha boas chances de vitória.
Um dilema com poucas garantias
O centro político se vê diante da necessidade de uma decisão estratégica em 2026, com potencial para moldar o equilíbrio de forças até 2030: apoiar Flávio Bolsonaro e buscar espaço em um eventual governo, ou lançar candidatura própria, mesmo sem chances claras de vitória.
A opção de não disputar a presidência diretamente parece hoje a mais confortável e a mais provável, mas é também a mais arriscada. Uma adesão formal ao bolsonarismo pode render participação relevante no governo, como ocorreu entre 2019 e 2022. Mas o tiro pode sair pela culatra.
Historicamente, os Bolsonaro têm se mostrado aliados pouco confiáveis. Diversos nomes que os apoiaram em momentos cruciais foram, depois, descartados assim que deixaram de ser úteis ao projeto familiar. Essa dinâmica levanta dúvidas sobre qualquer expectativa de estabilidade ou lealdade em uma eventual coalizão de governo.
O apoio a Bolsonaro em 2022 poderia ter levado a centro-direita a uma candidatura própria em 2026, após o desgaste de Jair com a prisão e o fracasso da estratégia de Eduardo para salvá-lo da condenação – era este o objetivo da candidatura de Tarcísio de Freitas, agora aparentemente abortada. A família Bolsonaro, com a candidatura de Flávio, voltou a colocar a centro-direita na posição de coadjuvante.
Um novo apoio à família Bolsonaro e um eventual fracasso de governo com Flávio na liderança podem arrastar junto a centro-direita, selando sua associação definitiva a um projeto marcado por autoritarismo e ineficiência. Por outro lado, um governo minimamente funcional pode consolidar o bolsonarismo no poder e abrir caminho para um segundo mandato da família em 2030, afastando por mais tempo qualquer chance real de reconfiguração política fora dos polos atuais.
Cálculo político e poder a longo prazo
Uma candidatura própria em 2026, ainda que não vitoriosa, permitiria ao centro negociar apoio no segundo turno com peso real, especialmente junto a Lula. Isso poderia se traduzir em espaço relevante no governo, controle de ministérios estratégicos, articulação no Congresso e protagonismo nos principais estados.
Com isso, o centro ganharia musculatura para as eleições municipais de 2028, com chance de ampliar seu domínio sobre prefeituras e câmaras municipais, fortalecendo uma base capilarizada e autônoma. O movimento abriria o caminho para 2030 com uma candidatura própria forte e menos dependente de alianças de última hora.
O dilema, portanto, é: apoiar Flávio Bolsonaro e correr o risco de ser engolido por um projeto de poder alheio ou bancar uma candidatura própria agora, ainda que sem chances de vitória imediata, mirando o poder real a médio prazo?
A decisão precisa ser tomada logo. Ela poderá definir o lugar do centro na política brasileira pelos próximos dez anos.
*Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED Rede Estação Democracia.
Ilustração da capa: Ratinho Jr., Tarcísio de Freitas e Gilberto Cassab dominados por Flávio Bolsonaro – Imagem gerada por IA ChatGPT.




