Caminhadas praianas

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Caminho na praia de Cidreira. Talvez essa atividade seja mais importante do que se banhar nas suas águas. Dois filósofos estudaram profundamente as caminhadas. O primeiro é Frédéric Gros, em seu Caminhar, uma filosofia (Ubu, 2021) afirma que a caminhada não apenas algo entre um ponto de partida e outro de chegada, mas também um meio de produção de sentidos, como mostra a experiência de infindáveis caminhantes da história, como Rousseau, que fazia caminhadas de uma cidade a outra, as marchas de Rimbaud e Gandhi, que demonstram que percorrer um trajeto, narrar suas idas e vindas, e escrever sobre o pensamento que ocorre em uma delas transforma uma atividade banal em um caminho para a descoberta da leveza do viver.

O segundo é Francesco Careri, em seu Walkscapes: o caminhar como prática estética (Gustavo Gili, 2002), que elevou o ato de caminhar à categoria de arte. Andar na praia é um instrumento cognitivo e criativo, você se transforma e olha o espaço de outra maneira. É uma coisa simbólica, mas também física e vice-versa. Ele também escreveu Caminhar e parar (Gustavo Gili, 2017),onde Careri introduz a experiência da pausa, do deter-se, no ato de caminhar. É como eu e minha esposa caminhamos: saímos para caminhar da altura do Posto das Dunas, e vamos até o centro de Cidreira. Aí paramos. Observamos o mar. Respiramos, tomamos um gole de água. Tanto caminhando como parado em algum ponto da caminhada, estamos explorando o universo da ética e da estética do caminhar. Caminho na praia, logo existo. No capítulo que dá título ao livro, Careri estabelece o que, para mim, vincula seu pensamento à minha praia, Cidreira. O trecho, apesar de extenso, vale a pena:

O caminhar é uma deriva

“Muitas palavras que até hoje se encontram nos relatos referentes ao território percorrido ao caminhar provêm da metáfora do mar e do navegar. As deambulações sem fim ou paradeiro dos surrealistas parisienses ocorriam em um líquido amniótico que escondia o recalcado da cidade, um mar subconsciente que a nova ciência chamada psicogeografia interpretou como a parte obscura da mente humana. Era o nascimento daquela prática que havia levado os situacionistas a teorizar o estudo da geografia urbana por meio da dérive. Esta também era uma palavra de origem náutica, capaz de expressar a ambiguidade de perder-se conscientemente, procurando dosar o desejo e o acaso, o racional e o irracional, o projeto e o anti-projeto. A deriva, com efeito, é um termo duplo: uma palavra que carrega consigo a ideia surrealista do acaso e do navegar ao sabor das correntezas, como um veleiro que se move sem vento e sem mapa, e que vai – portanto – “à deriva”. Porém, é também o nome daquele elemento náutico que se encontra embaixo da quilha do barco e que permite que você navegue contra o vento, aquela protuberância submarina que é mais profunda, e quanto menos o casco se move transversalmente à quilha, menos perde tempo e espaço para chegar com determinação à meta. A deriva não serve com vento na popa. E, de fato, nas embarcações pequenas, onde a deriva é móvel, ela é retirada para diminuir o atrito com a água. Serve, entretanto, para navegar de bolina, para velejar no sentido do vento e aproveitar sua energia. A deriva situacionista é ainda hoje, quem sabe, o instrumento mais eficaz para enfrentar as contradições do mundo, entrando nelas sem opor resistência e perder energia, mas se valendo da força potencial que oferecem os fenômenos em curso para sulcar novos territórios, para entrar neles desimpedidos, sem preconceitos, prontos a acolher o que sucede, prontos a mudar de direção quando o vento toca”. (p. 31-32).

Não vejo maior lição política que nos fornece o caminhar na praia. Caminhar pela praia é essa espécie de navegar em terra firme. Caminho sem rumo na praia, em direção ao nada, não porque não haja um fim no caminho que tomo no litoral – é para Tramandaí, é para Pinhal, pergunto- nada disto interessa quando me permito me perder nas areias. Estou à deriva na praia junto ao mar, como o barco que no horizonte navega ao sabor da correnteza enquanto espera o melhor momento para pegar o peixe do dia a dia. No tempo da produtividade, do excesso de sentido de que fala Byung-Chul Han, quando somos todos absorvidos pelo frenesi da produtividade neoliberal, a verdadeira atitude revolucionária é andar, caminhar à deriva.   Eu gosto desta imagem que representa a revolução como um movimento insuspeito para as forças que dominam o barco e as ondas do mar, assim como imagino formas de lutar contra a dominação sem desperdiçar energia com as forças que nos exploram. Essa ideia de que, ao caminhar à deriva, se busca enxergar oportunidades “de mudar de direção quando o vento muda” representa, em termos neoliberais, uma notável opção de resistência, mesmo quando as forças do capital estão sempre a vencer.

A importância de parar

Navegar e caminhar, nesse sentido, partilham a ideia de que o andar é tão importante quanto o parar. Caminho na praia há muitos anos e não sei exatamente quantos quilômetros já devo ter percorrido nessas excursões litorâneas. Essa caminhada é também a metáfora de minha própria existência. Não dizemos que a vida é também uma grande caminhada? “Quem levanta a âncora para uma longa viagem, além das velas e dos remos, leva certamente consigo também a âncora: a possibilidade de parar e conhecer de perto outros territórios e outras gentes” (p. 32). Careri fala isso inspirado nas primeiras epopeias de viagens, como a Odisséia e as Argonáuticas. Eu penso nas definições de Careri como metáforas para minha própria experiência de esquerda: caminho na praia e reflito sobre quantas escolas visitei, quantas palestras dei, como incentivei estudantes a pensar criticamente, como estimulei a escolher o lado certo, o deles, o dos trabalhadores.

Mas que vi ao final? Uma geração alienada da política, capaz de votar em políticos da direita. Talvez eu não tenha simplesmente conseguido, nessa caminhada, produzir o que é essencial, o encontro com o Outro. Eu sei que generalizo, que eram infindáveis escolas e estudantes, que não posso de fato saber quem toquei e quem não com meus ensinamentos, mas a caminhada me levou, como diz Careri, a ser estrangeiro: visitei escolas dos mais diversos bairros, do Sarandi à Restinga. Nessa errância, aprendi os perigos de propor uma visão de esquerda numa instituição que caminhava para a direita. “Quem navega aprende os perigos do mar e do aproximar-se da costa sem dar com os baixios, mas deve saber onde parar, como construir uma relação com o território onde resolveu fundear, como desembarcar e como falar com a população autóctone, quais sinais enviar, quais palavras dizer, e como comportar-se para não vir a ser morto, evitando ser percebido como hostil, mas sim como hóspede bem-vindo. Quem navega em águas estrangeiras deve ter uma clara visão da modalidade com a qual saudar o Outro, ao ir ao seu encontro” (p.33).

A caminhada na política

Caminho junto ao mar. Eu sei que estou em segurança, mas se a metáfora de navegar e caminhar serve para algo, é para alertar aqueles que ainda estão na luta por um mundo melhor, fazendo sua caminhada, que há muitos perigos pela frente. Vejo o aspirante a candidato Flávio Bolsonaro anunciar já como pré-proposta, uma reforma previdenciária. Ele não é candidato ainda, mas quer ser; e já tem uma proposta para atrair a direita e os empresários. É contra baixios dessa natureza que a esquerda precisa se movimentar.   Eu, agora, sou apenas um observador da praia, sou um aposentado. Eu vejo no meu caminhar pela praia, em comparação com o navegar do barco do horizonte, graças a Careri, que a esquerda também deve saber onde parar.

Não é mais possível uma luta interna contra parceiros políticos, não é mais possível um embate entre quem será o cabeça de chapa. E, é preciso desembarcar, se quiser ter alguma chance de vitória, da proposta conciliatória que faz com que a esquerda ceda à direita. A terra nova em que desembarcou a esquerda nos anos 2020 é bem diferente da dos anos 80; agora, a precarização e a autoexploração se tornaram regras. E, como diz Careri, a esquerda precisa falar com a nova população, saber usar as palavras, se comunicar com essa geração superexplorada pelo capital. É preciso adaptar o discurso para não ser percebido como hostil, diz Careri.  Ir ao encontro do povo não se faz com uma amálgama da conciliação dos dominantes com os dominados, mas com uma proposta de políticas públicas para estes últimos.

Lição para esquerda

O pensamento de Careri sobre a caminhada como deriva, uma vez ampliado para o campo da política, sugere à esquerda ir ao encontro do outro, “saber aproveitar o vento significa saber usar as relações que se foi capaz de construir ao longo do caminho” (p.33). O caminho que faço agora na praia é apenas com meu cão e seu adestrador, meu horizonte reduziu-se para o espaço doméstico, ainda que observe o cenário político; já o percurso que o PT fez ao longo desses 40 anos foi em direção ao centro do espectro político, restando a partidos como o PSOL o terreno genuinamente de esquerda. Se o PT, em sua deriva, afastou-se de seu território original, agora, em terras estrangeiras, ou ultra neoliberais, precisa saber como ir ao encontro de seu eleitor.

E ele é sempre a vítima de um sistema que busca por saídas urgentes. Em sua deriva, o PT não está solitário: ele precisa buscar territórios inexplorados com os partidos que se alinham a ele, criar dispositivos de interação para habitar espaços já povoados pelo conservadorismo. “É importante navegar junto à costa e observar as paisagens, mas também entender onde descer a âncora, encontrar quem mora naquelas terras, descobrir estratégias para ir ao encontro dele, aprender a cumprimentar” (p.34). Eu caminho na praia e vou ao encontro dos conhecidos; mas caminho na cidade e encontro outros que conheço da padaria, da agropecuária, do petshop. Eu sei que em suas atividades, muitos se sentem explorados. Se eu não os ajudar a entender o mundo em que estão, eu não vou conseguir ajudar a imaginar uma saída dele.

Caminhar ajuda a pensar estratégias

Sinto que a esquerda carrega uma grande dor por não conseguir mais se comunicar com as massas. Ela perde eleição após eleição, ao menos em Porto Alegre, o que torna a situação ainda mais dolorosa. Frédéric Gros, em ‘Por que sou bom caminhante?’, primeiro capítulo de seu livro sobre o caminhar, diz que, nos anos em que Nietzsche foi professor, foi acometido de terríveis dores de cabeça que o mantinham prostrado na cama, no escuro, agonizando em dor, mal podendo ler ou escrever. “Ele se propôs na época como tratamento longas caminhadas e grande solidão. Contra as dores lancinantes, terríveis, esses dois remédios. Fugir da excitação, das solicitações, da agitação do mundo, que sempre se pagam com horas de sofrimento. E caminhar, caminhar por muito tempo para dispersar, distrair-se, esquecer as marteladas nas temperas” (p.18).

Eu sou como Nietzsche. Fugi para Cidreira para esquecer e me distanciar da dor de ver Porto Alegre ser predada dia após dia. Caminho à beira da praia com minha esposa como o filósofo caminha à beira do lago Léman, com Carl von Gersdorff. Caminho pela praia, e como Nietzsche caminhava na penumbra das flores entre os abetos, em Steinabad, ao sul da floresta Negra “tenho excelentes conversas comigo mesmo”, como registra Gros.   Eu posso realizar o sonho do filósofo, pois tenho uma casa em Cidreira onde, se quisesse, seria capaz de viver como eremita, ao contrário de Nietzsche, que se encontra em Rosenlaui e procura uma casinha de onde conseguiria caminhar, de seis a oito horas por dia.

Caminhar ajuda ter ideias inovadoras

Entre 1789 e 1889, Gros diz que Nietzsche vive de três pequenas pensões que o sustentam de modo modesto e permitem que pague o trem que o leva da montanha ao mar, e vice-versa. Ele caminha sozinho por essas regiões e escreve “O andarilho e sua sombra” e escreve nesse meio tempo “O mar e o céu puro! Como pude torturar-me tanto antes?”, diz em janeiro de 1881. Gros diz que nesse período, enquanto caminha, compõe ao ar livre, imagina, se fascina pelo que se apresenta em seus passeios. É nesse período que escreve seus maiores livros, como Aurora, Genealogia da Moral, A Gaia Ciência,  Além do Bem e do Mal, além de Zaratustra. Ele é como eu, solitário e viajante durante suas dez horas diárias de caminhadas. É verdade que eu ando apenas meia hora, já que o joelho e as dores pelo corpo não permitem mais do que isso, mas a caminhada é para mim como é para Nietzsche, a condição para criar uma obra. Ela não me distrai do trabalho simplesmente porque não trabalho mais, sou um simples aposentado.  Diz o filósofo em A Gaia Ciência: “não somos daqueles que só têm em meio aos livros, estimulados por livros, que vêm a ter pensamentos – é nosso hábito pensar ao ar livre, andando saltando, subindo, dançando, preferivelmente em montes solitários, ou próximo ao mar, onde mesmo as trilhas se tornam pensativas” (p. 21).

Quando diz isso, Nietzsche quer que tenhamos pensamentos na caminhada enquanto respiramos. Gros se refere ao valor que o filósofo dá aos livros vivos, os que exalam não um cheiro de mofo, mas o ar vivo do exterior, o vento das montanhas, o ar fresco, sem saturação que a erudição provoca.  A caminhada que inspira pensar sugere buscar por uma luz diferente em cada reflexão. “As bibliotecas são sempre escuras demais, tudo converge para obstruir a luz do dia. Outros livros refletem a luz contundente das montanhas ou o brilho do mar sob o sol. Assim, o mar, ao nos incentivar a caminhar em seu litoral, na linha que divide a terra da água, nos permite pensar livremente e divagar. Isso significa que a caminhada nos propõe libertar-nos das amarras e liberar o próprio pensamento, incluindo o alheio, por meio da troca de experiências. A livre caminhada permite libertar o pensamento, sentencia. Quanto mais leve é um pensamento, mais ele se eleva, torna-se profundo porque está na vertical, vertiginosamente, dos densos pântanos das convicções, da opinião, dos saberes instituídos” (p. 23). Essa não é uma bela metáfora para sugerir à esquerda? De que precisa não apenas parar em determinados momentos sua caminhada, como sugere Careri, mas também torná-la mais leve, como indica Gros, para que possa abandonar seus próprios pântanos, suas próprias convicções, seus próprios saberes instituídos?

Caminhar exige um pouco de esforço

É verdade que Nietzsche preferia não apenas caminhadas à beira do mar, mas algo mais desafiador ainda, as caminhadas escalando trilhas de montanhas. Escalava as trilhas atrás das montanhas de Sorrento, em 1876, as trilhas das florestas de Nerval, as trilhas escarpadas que levavam em Nice, ao povoado de Èze. Sempre ao redor de morros ou montanhas, buscava o movimento no alto, onde “o ar é mais vivo, e sobretudo seco, transparente. O pensamento é nítido, o corpo está desperto, fremente” (p. 25). A trajetória política da esquerda é como essa caminhada do filósofo em direção a uma montanha, cada vez mais longe ainda, cada vez mais alta ainda. Para Nietzsche, não se trata apenas de uma caminhada em que não se deve fraquejar, mas de uma caminhada onde o pensamento também precisa se elevar, se tornar novo e ganhar altura. Eu caminho cada vez mais longe na praia, é o que posso fazer; primeiro até o início do Calçadão Kanitã, depois até o prédio verde, e após, vou quase ao Bar Azul. Você não fraqueja porque está envolto em seus pensamentos, e há pensamentos, diz Gros, que só podem surgir a 6 mil pés acima das planícies como há outros que só aparecem ao final de uma caminhada.

É o que diz o autor de Assim Falou Zaratrustra: “Seis mil pés acima do homem e do tempo. Naquele dia, eu caminhava pelos bosques perto do lago de Silvaplana; detive-me junto a um imponente bloco de pedra em forma de pirâmide, pouco distante de Surlei. Então, nesse momento, surgiu em mim esse pensamento” (p. 25). Eu precisei me aposentar para ter tempo para caminhar pela praia e ter liberdade de pensamento; não estou nem próximo dos bosques e dos lagos pelos quais passou Nietzsche, mas ao menos, estou em ambientes que me permitem ter pensamentos livres. Eu não vivo a pressão do meio e do mundo, como vive a esquerda. Ela está lá, nas reuniões partidárias, nos conflitos do congresso, no mundo do enfrentamento radical da extrema direita. Mas a pergunta é: nesses ambientes, será que a esquerda está em condições de ter ao menos uma visão estratégica original?

Caminhar ajuda a ter a vista livre

A caminhada na praia me diz que, para pensar, é preciso ter a vista desimpedida. Eu estou com a minha livre, pois só tenho o mar como horizonte. E ele é grande e vai longe, como vão meus pensamentos. Gros diz que essa posição é necessária para ver os detalhes, as exatidões, o que ele chama de nervura do destino dos homens. Essa não é outra forma, talvez mais poética, de se imaginar o futuro? Quando estamos reduzidos aos limites dos nossos acontecimentos cotidianos, aos fatos, nossa imaginação radical (Agnes Heller) se retrai. Por isso, Gros diz que é preciso construir ficções, recuperar mitos, narrar histórias para assim conseguir uma visão clara de nossa civilização, ‘algo nítido como o traçado de um caminho’ (p. 26). Transpondo um exemplo dado por Gros para nossa política, é preciso superar a compaixão que temos em ver a esquerda envolvida em seus difíceis problemas, observar os políticos de esquerda lutando e perdendo uma batalha sem glória com seus opositores, atolando-nos em imagens tristes – a esquerda, pobre de si mesma”! É preciso ir ao alto, olhar de cima, compreender o que está fazendo a esquerda adoecer, apontar os venenos que correm em suas veias. É preciso que suas lideranças caminhem um pouco mais e façam o esforço da reflexão, e imaginem, caso sejam incapazes de ultrapassar suas diferenças, o que estava à sua espera: numa palavra, a vitória contra a direita.

A caminhada é assim, um campo inspirador para as mudanças de perspectivas. Pessoais, mas também políticas. “Essa ideia de que, ao refletir mais um pouco, se descobre outra coisa sobre si mesmo e sobre o mundo é como estar no morro, saindo de uma praia, e ver o mar do alto, contemplando uma nova paisagem e o júbilo que o acompanha” (p.27). Por que é tão difícil para nós assumirmos a possibilidade de um outro lugar, uma outra visão? Eu me lembro quando me aposentei. Eu estava ainda receoso, afinal, minha vida inteira foi dedicada à função pública, acordando exatamente no mesmo horário, fazendo as mesmas coisas, ainda que fosse um projeto original e combativo no interior de uma instituição pública. Eu caminhava de um jeito normal, o que eu encontrava era sempre a mesma coisa: alunos entorpecidos pelas redes sociais, professores comprimidos pelas obrigações diárias de novos projetos neoliberais, e eis que, aposentado, descubro que posso sobreviver ao trabalho cotidiano.  

Caminhar e pensar na política

Talvez isso seja fácil porque tenho uma renda produto de meus anos de trabalho, mas a questão é o horizonte: perceber-se que outro tipo de vida é possível. Não seria notável, se na prática cotidiana de nossas lideranças de esquerda, essa espécie de insight pudesse ocorrer? Porque, quando uma eleição começa a tecer o contorno de suas forças, parece que as simulações continuam a se efetuar? O governador Eduardo Leite se apresenta como terceira via, mas, na verdade, é um notável exemplo da direita; sua propaganda em defesa da educação contrasta com as denúncias diárias sobre as carências e ausências que desmentem, uma a uma, cada afirmação de marketing. Por favor, já vimos esse cenário e a esquerda precisa colocar-se um pouco mais no alto para ver as peças do tabuleiro em seu movimento. Não era interessante a imagem de um político tradicional como Pedro Simon, que levava seus colaboradores para sua casa de praia, em Rainha do Mar, para negociar? Como se fosse preciso estar distante, estar longe do círculo do poder, da pressão, do dia a dia, para pensar com um pouco mais de liberdade a política?

É verdade, por outro lado, que mesmo Nietzsche fazia longas caminhadas por caminhos conhecidos, percursos que ele gostava de repetir. Mas o filósofo, diferente da esquerda, diz Gros, sempre que chegava a uma curva do caminho que ia revelar uma vista que conhecia, sentia uma vibração quando essa paisagem aparecia, surgindo como um “novo impulso indefinido”. Vem aí mais uma eleição. Será que a esquerda, que não caminha à beira de uma praia, é capaz de transformar seu andar em círculos políticos em vibração política? A esquerda parece esse Nietzsche descrito por Gros que, em meados dos anos 1880, não consegue mais caminhar tão bem quanto antes. “Ainda que ele insista, seus passeios se tornam mais curtos” (p.27). Nietzsche se comporta cada vez mais como um homem respeitável, diz Gross, exatamente como vemos Lula frente às grandes organizações internacionais.   Entretanto, no filósofo as dores retornam à carga mais uma vez, manifestando-se como enxaquecas e dores de cabeça, e mesmo os passeios os deixam prostrados por dias seguidos. O leitor já sabe que meu pensamento se move por comparações, e esse retorno da dor nietzscheana representa para a esquerda a dor que uma eleição sempre traz: quem será o candidato, quem tem condições de vitória, com quem iremos nos aliar?

Responsabilizar-se pela caminhada

Se a esquerda é responsável por sua própria caminhada, a do filósofo o levou à loucura. Numa carta a Jacob Burckhardt, de 6 de janeiro de 1889, Nietzsche diz: “No final das contas, eu preferia ser professor na Basileia a ser Deus; mas não me atrevi a levar meu egoísmo privado tão longe a ponto de me dispensar da criação do mundo” (p.29).A esquerda sofre o mesmo risco, de enlouquecer por suas obsessões: ser cabeça de chapa, por aí afora é outra forma de querer ser Deus. Eu diria às suas lideranças: “vão caminhar fora do partido, vão ao ar livre, como se diz, invertam suas lógicas políticas, fujam das opções mais conhecidas, não queiram ser Deus”. Quando se usa a caminhada como metáfora, vamos da casa para a praia, saímos de um lugar para fazer outra coisa noutro lugar. Nossas lideranças precisam dessa opção, “sair para tomar um ar”: elas estão sempre com a sensação de imobilidade frente ao avanço da direita, sempre fixadas entre seus objetos presos na parede ‘Lula irá se candidatar?”, “Olivio irá se candidatar?” e não percebem o quanto suas limitadas opções os sufocam dentro da esquerda. A caminhada propõe que eles não renunciem à luz, não renunciem a sair e dar alguns passos: “preciso ceder à cabeça de chapa? Por que não?” “Buscar alianças junto ao PDT? Por que não?” Às vezes, para fazer política, é preciso “sentir o frescor vivo de uma brisa de primavera”. Fazer um interlúdio. Uma pausa que nos proporcionamos.

Caminho na praia como se fosse um peregrino. Eu quero, pela caminhada, uma transformação interior. Eu acredito que a metáfora possa ser aplicada à política, que nossas lideranças podem avaliar sua caminhada e ver a transformação necessária. Mas para isso, eles teriam de ritualizá-la. Diz Gross: “A transformação interior é o ideal místico do peregrino: é preciso voltar absolutamente alterado.  Essa transformação aparece também no vocabulário da regeneração, daí muitas vezes a presença, perto dos locais sagrados, de uma fonte, um riacho ou um rio: elemento lustral em que o peregrino emerge para sair purificado, como se lavado de si mesmo” (p.108). Cada vez que, após minha caminhada na praia, entro no mar, eu me aproximo desse ideal. Estou na praia, vivendo como aposentado, lavando-me dos ritmos, dos traços, das marcas de uma existência de trabalho para viver uma existência de aposentado. É o mais próximo de um lugar sagrado que eu posso ter acesso. Que lugar sagrado tem a esquerda para peregrinar, transformar-se interiormente? Não falo da caminhada fake, protagonizada por Nicolas Ferreira (PL-MG), de Minas Gerais a Brasília em apoio às pautas bolsonaristas, que significa que, até a extrema direita sabe do valor simbólico que tem a utopia do renascimento por meio da caminhada.

Caminhar para voltar um passo

Procurei mostrar em O futuro da esquerda está no passado (Clube dos Autores) que essa caminhada é em direção aos valores fundadores do PT; tentei mostrar que essa caminhada passava pela reconstrução das Comunidades de Base, que fizeram parte de sua construção. Gros enumera inúmeros povos que fazem peregrinações pelos mais diferentes motivos. Como os Huichol que realizam uma viagem anual não só para colher um cacto que serve aos indígenas como remédio universal, “mas também para sustentar o mundo” (p.112). Nesse sentido, qual seria o “seu mundo” para a esquerda? Políticos, é claro, não são peregrinos, mas ambos fazem um caminho. Curiosamente, Gross encerra seu estudo sobre a filosofia da caminhada com um ensaio sobre “mística e política”, onde retoma a experiência de Gandhi, cuja proposta política é de não cooperação, numa palavra, desobediência civil. Com essa proposta, ele caminhou pela Índia de um extremo ao outro defendendo a tecelagem tradicional. Estou na mesma posição de Gandhi quando confessa ao grande poeta Rabindranath Tagore, que o visita em 18 de janeiro de 1930: “Não vejo nenhuma luz nas trevas que me cercam” (p.169). Aqui, as trevas são as políticas neoliberais, e se as ações de Gandhi tinham alguma força, era porque eram ações reais: não cooperação, caminhadas, recusa de compra de tecidos ingleses, defesa das mulheres e intocáveis. Gandhi desafiava o império com ações e mesmas caminhadas faziam parte de seu repertório, como a Marcha do Sal.

Gandhi agia assim, diz Gros, porque muito cedo experimentara os valores espirituais e políticos da caminhada. Eu sei que posso estar me repetindo, mas eu me pergunto mais uma vez porque não temos ações reais ou caminhadas e minha resposta é a mesma: porque fomos domesticados para fazer política online. Saia a caminhada, entra o caminhar do dedo na tela touch screen. Ações reais permitem uma relação decidida consigo mesmo; ações via internet, não, elas são do campo da introspecção subjetiva; caminhando, numa ação pública, nos envolvemos; assinando abaixo-assinados ou compartilhando postagens, não. E, quando há marchas, não são políticos que puxam, mas artistas, como Caetano Veloso e Chico Buarque. Isso não deveria nos preocupar?

Caminhar ensina a não ceder

É preciso encontrar formas de expressar nosso descontentamento com o mundo neoliberal que toma conta do universo, como Gandhi encontrou formas de expressar sua luta na Índia. “Inicialmente, a lentidão da marcha constitui uma rejeição da velocidade, mediante a qual se expressa a desconfiança de Mahatma em relação à máquina, ao consumo acelerado e ao produtivismo cego” (p.172). Diz Gross que caminhar, para Gandhi, é cultivar as energias lentas da resistência. “Com a caminhada, estamos muito distantes da ação espetacular, do feito heroico, da proeza. Ela se realiza com essa humildade que Gandhi apreciava: lembrança constante de nossa gravidade, de nossa fraqueza. Caminhar é a condição do pobre. A humildade, porém, não é exatamente a miséria. É o reconhecimento sereno de nossa finitude: não sabemos tudo, não podemos tudo. Na caminhada, longe de todo aparato, de toda máquina, de toda mediação, volto a experimentar a condição terrena do homem, encarno de novo sua pobreza nativa, essencial. Assim, há certo orgulho na caminhada: estamos de pé. A humildade manifesta, para Gandhi, nossa dignidade de homens” (p. 173). Não podemos ceder ao neoliberalismo porque ele coloca os homens numa condição indigna, eis a questão.

A conclusão é que as caminhadas de Gandhi o levaram a uma concepção de mundo original. Ao valorizar a roda de fiar, ele impõe a si mesmo o uso das mãos todos os dias com objetos reais, o contrário do que faz o mundo digital, que nos joga diretamente em objetos irreais, as “não coisas”, de que fala Byung-Chul Han. “Trabalhar com as próprias mãos é recusar a exploração do Outro. Na caminhada, entramos em contato com pessoas no cotidiano da vida delas; passamos ao lado dos campos onde trabalham e na frente de suas casas. Paramos e conversamos. Caminhar é o melhor ritmo para compreender, para sentir proximidade. Caminha, inclusive, alimenta. Caminhar requer um esforço suave, mas contínuo, de não ceder”. (p.175). Não vejo melhor definição para a atitude que devemos ter frente às políticas neoliberais: não ceder, resistir, enfrentar.  Se for preciso fazer com que as lideranças de esquerda aprendam isso, convido-as para caminhar pelas areias de Cidreira.


Foto de capa:Pixabay

Sobre o autor

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Jorge Barcellos
Graduado em História (IFCH/UFRGS) com Mestrado e Doutorado em Educação (PPGEDU/UFRGS). Entre 1997 e 2022 desenvolveu o projeto Educação para Cidadania da Câmara Municipal. É autor de 21 livros disponibilizados gratuitamente em seu site jorgebarcellos.pro.br. Servidor público aposentado, presta serviços de consultoria editorial e ação educativa para escolas e instituições. É casado com a socióloga Denise Barcellos e tem um filho, o advogado Eduardo Machado. http://lattes.cnpq.br/5729306431041524

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