Em 2023, quando o governo federal decidiu reverter a liquidação da CEITEC, o debate público concentrou-se, naturalmente, na viabilidade econômica da empresa. Discutiram-se custos, política industrial, competitividade e o papel do Estado na economia. Muito pouco se falou, porém, sobre outro ativo que também estava em risco: as pessoas.
Durante o período em que a empresa caminhava para a extinção, pesquisadores, engenheiros, físicos e especialistas em microeletrônica — profissionais cuja formação exigiu décadas de investimento público — passaram a buscar oportunidades em outros países ou migraram para atividades completamente distintas daquela para a qual haviam sido preparados. A decisão sobre a continuidade da CEITEC envolvia, portanto, muito mais do que preservar uma empresa pública. Dizia respeito à capacidade do Brasil de reter inteligência, conhecimento e competências estratégicas cuja reconstrução demandaria muitos anos.
Esse episódio revela um fenômeno muito mais amplo e menos visível.
Quando se fala em exportações brasileiras, a imagem que surge é a de navios carregados de soja, minério de ferro, petróleo, carne, café ou celulose deixando nossos portos. São produtos contabilizados nas estatísticas oficiais, medidos em toneladas, registrados na balança comercial. Existe, entretanto, uma exportação muito mais silenciosa. Ela não passa por alfândegas, não embarca em contêineres, não aparece nas estatísticas do comércio exterior. Ainda assim, talvez represente uma das maiores transferências de riqueza realizadas pelo Brasil para as economias desenvolvidas.
O Brasil exporta inteligência.
A expressão “fuga de cérebros” tornou-se comum para descrever a saída de pesquisadores, cientistas, engenheiros, médicos e outros profissionais altamente qualificados em busca de melhores oportunidades no exterior. Normalmente, o fenômeno é analisado sob uma perspectiva individual: salários mais elevados, laboratórios mais modernos, estabilidade profissional, qualidade de vida. Essa explicação está correta — mas é insuficiente. Existe uma dimensão coletiva desse processo que raramente recebe a atenção que merece.
Cada pesquisador, engenheiro ou cientista que deixa o país leva consigo muito mais do que seu talento individual. Leva um patrimônio construído ao longo de décadas pela própria sociedade brasileira. Antes de alcançar reconhecimento internacional, esse profissional frequentou escolas, utilizou infraestrutura pública, foi formado por professores cuja qualificação também decorreu de investimentos estatais, estudou em universidades mantidas pela sociedade, participou de projetos financiados por agências públicas e, muitas vezes, recebeu bolsas de iniciação científica, mestrado ou doutorado. Mesmo quando a formação ocorre em instituições privadas, ela continua inserida em um ecossistema construído coletivamente.
Nada disso diminui o mérito individual. Disciplina, inteligência, esforço e dedicação continuam sendo insubstituíveis. Mas nenhum pesquisador se forma sozinho. Toda grande trajetória científica é, ao mesmo tempo, uma conquista pessoal e um investimento coletivo.
É justamente nesse ponto que surge uma das contradições mais profundas do desenvolvimento brasileiro: o país investe intensamente na formação de profissionais altamente qualificados, mas frequentemente deixa que o retorno desse investimento seja apropriado por outras economias.
Quando um engenheiro brasileiro passa a trabalhar em uma empresa do Vale do Silício, quando um pesquisador assume um laboratório estrangeiro ou quando um especialista em semicondutores é contratado por uma indústria europeia, o país que o recebe não está apenas contratando um trabalhador. Está incorporando décadas de investimento educacional realizado por outra sociedade. O Brasil financiou a construção daquele capital humano; outra economia passa a usufruir de sua capacidade produtiva.
Trata-se de uma transferência extremamente peculiar de riqueza. Não existe contrato internacional, embarque físico ou remessa financeira que registre a operação, e não há qualquer compensação entre os países. Imagine uma empresa que investisse durante trinta anos na formação de um profissional altamente especializado — e que, quando ele finalmente atingisse sua maior capacidade produtiva, visse outra organização simplesmente contratá-lo, sem ter participado de nenhum dos custos anteriores. Nenhum gestor consideraria esse um modelo racional de negócios. No entanto, é exatamente essa lógica que caracteriza a relação entre países em desenvolvimento e economias tecnologicamente mais avançadas. Os países ricos não importam apenas trabalhadores: importam investimentos educacionais realizados por outras sociedades.
Essa dinâmica reproduz, em escala mais sofisticada, uma lógica conhecida da história econômica brasileira. Durante séculos, nossa inserção internacional foi baseada na exportação de produtos primários. Exportávamos matéria-prima, importávamos produtos industrializados, capturávamos apenas a menor parcela do valor agregado. Hoje, um debate semelhante ocorre em torno das terras raras: reconhece-se, cada vez mais, que a verdadeira riqueza não está na existência desses minerais, mas na capacidade de refiná-los, transformá-los em materiais avançados e ocupar as etapas mais sofisticadas das cadeias globais de valor. Exportar apenas o minério significa abrir mão da maior parte da riqueza produzida ao longo da cadeia industrial.
Essa percepção representa um enorme avanço. Mas talvez ainda não tenhamos percebido que existe uma riqueza ainda mais estratégica do que as terras raras. Ela não está no subsolo. Está nas universidades, nos laboratórios e, sobretudo, nas pessoas que o Brasil forma ao longo de décadas. E é justamente essa riqueza que continuamos exportando sem praticamente nenhuma reflexão nacional.
A analogia revela um aspecto ainda mais profundo do problema. Os minerais estratégicos existem por contingência geológica: o Brasil pode possuir grandes reservas sem ter feito qualquer esforço para criá-las. O capital humano, ao contrário, não é encontrado na natureza — é uma riqueza deliberadamente construída. Cada pesquisador de excelência é resultado de um longo processo institucional, uma cadeia complexa de escolas, universidades, laboratórios, agências de fomento e programas de pós-graduação que exige décadas de maturação. O conhecimento não brota espontaneamente. Ele é produzido.
E justamente por ser construído coletivamente, sua perda produz efeitos muito mais profundos do que se imagina. Quando um pesquisador deixa definitivamente o país, o Brasil não perde apenas sua força de trabalho. Perdem-se os estudantes que poderiam ser orientados, os grupos de pesquisa que poderiam ser liderados, as patentes que poderiam ser registradas, as empresas de base tecnológica que poderiam nascer, os empregos qualificados que jamais serão criados. Perde-se, sobretudo, o efeito multiplicador do conhecimento.
E essa é a característica mais valiosa do capital humano. Uma tonelada de minério produz riqueza uma única vez. Um pesquisador pode produzir riqueza durante sessenta anos — e, mais do que isso, pode formar dezenas de mestres e doutores que formarão novas gerações, criar empresas, desenvolver tecnologias e transformar setores econômicos inteiros. Sua contribuição não é linear. É exponencial. Por isso, quando um país perde um profissional altamente qualificado, não perde apenas o investimento realizado em sua formação: perde também parte dos retornos que esse investimento produziria nas décadas seguintes.
Poucos setores ilustram essa realidade com tanta clareza quanto a indústria de semicondutores. Produzir um especialista nessa área exige anos de formação em engenharia, física, ciência dos materiais e microeletrônica; exige laboratórios de altíssimo custo, professores especializados e investimentos permanentes em pesquisa. Não é uma formação improvisada — é uma construção institucional que pode levar décadas. Quando esse profissional encontra no exterior aquilo que não encontra em seu próprio país, sua decisão é perfeitamente compreensível. Nenhum pesquisador pode ser responsabilizado por buscar melhores condições para desenvolver plenamente sua capacidade.
A ciência sempre foi internacional, e o intercâmbio de pesquisadores constitui um dos principais motores do avanço tecnológico da humanidade. O problema, portanto, não está na circulação de talentos. O problema surge quando essa circulação ocorre em uma única direção. Quando milhares de profissionais deixam continuamente um país sem condições de retorno, deixa de haver intercâmbio científico e passa a existir transferência permanente de capacidade produtiva.
No caso brasileiro, a questão assume contornos ainda mais preocupantes. O país possui um dos maiores sistemas públicos de ensino superior do mundo, programas de pós-graduação internacionalmente reconhecidos e pesquisadores capazes de competir em igualdade de condições com colegas dos principais centros tecnológicos do planeta. Paradoxalmente, grande parte dessa excelência acaba sendo aproveitada fora do território nacional, porque muitas das empresas inovadoras, laboratórios industriais e centros privados de pesquisa capazes de absorvê-la simplesmente não existem — ou existem em número muito inferior ao necessário. Forma-se uma desconexão silenciosa entre educação e desenvolvimento: o país aprende a formar talentos, mas não aprende a utilizá-los.
Trata-se de uma das características menos discutidas do subdesenvolvimento contemporâneo. Durante muito tempo acreditou-se que bastaria ampliar o acesso à educação para acelerar o desenvolvimento econômico. A experiência internacional demonstra que isso é apenas parte da equação. Formar profissionais altamente qualificados é condição necessária — jamais suficiente. É igualmente indispensável construir uma economia capaz de incorporar esse conhecimento às suas cadeias produtivas. Universidades formam cientistas, mas não substituem empresas inovadoras. Programas de pós-graduação produzem conhecimento, mas não substituem políticas industriais. Quando esses elementos deixam de caminhar juntos, instala-se uma contradição difícil de perceber: a sociedade financia a produção do conhecimento, e outras economias capturam seus resultados. Cria-se, na prática, um subsídio invisível aos países mais desenvolvidos, que recebem profissionais já plenamente capacitados sem arcar com o custo da formação.
Esse mecanismo ajuda a explicar por que determinadas economias conseguem ampliar continuamente sua liderança tecnológica. Quanto mais desenvolvidas se tornam, mais investem em ciência; quanto mais investem, melhores condições oferecem aos pesquisadores e maior sua capacidade de atrair talentos do mundo inteiro — talentos que geram novas tecnologias, que produzem mais riqueza, que financia novos investimentos em ciência e inovação. Do outro lado, os países que perdem continuamente seus profissionais enfrentam o processo inverso: a escassez de oportunidades estimula novas saídas, que reduzem a capacidade científica instalada, enfraquecem a inovação e comprometem a competitividade — oferecendo ainda menos razões para os talentos permanecerem. A desigualdade entre as nações deixa de ser explicada apenas por diferenças de renda ou de industrialização; passa a ser reproduzida também pela circulação desigual do conhecimento.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas educacional e passa a ser uma discussão sobre desenvolvimento nacional.
O caso da CEITEC não é uma exceção. É a demonstração concreta de um problema estrutural
Medir o sucesso de uma política educacional apenas pelo número de mestres, doutores ou artigos científicos constitui uma visão incompleta do desenvolvimento. A formação é apenas o início do processo. O verdadeiro retorno social do investimento público ocorre quando esse conhecimento é incorporado às universidades, às empresas, ao Estado e às cadeias produtivas — quando deixa de ser apenas conhecimento acumulado para transformar-se em inovação, produtividade e riqueza. Um país não se torna desenvolvido simplesmente porque forma cientistas. Torna-se desenvolvido quando consegue criar condições para que esses cientistas encontrem, dentro de suas próprias fronteiras, oportunidades compatíveis com sua qualificação.
É justamente aí que o Brasil historicamente encontra suas maiores dificuldades. O país demonstrou ser capaz de construir universidades respeitadas, formar pesquisadores de excelência e ampliar significativamente sua produção científica. Essa evolução, entretanto, não foi acompanhada, na mesma intensidade, pela consolidação de uma estrutura econômica intensiva em tecnologia capaz de absorver esse capital humano. Em diversos momentos, o Estado financiou a formação, mas não garantiu a continuidade das condições necessárias para que o conhecimento produzisse seus maiores efeitos. Laboratórios perderam recursos, projetos estratégicos foram interrompidos, carreiras científicas tornaram-se menos atrativas, e setores intensivos em tecnologia sofreram descontinuidades que incentivaram a migração de profissionais para outros países. Cada bolsa interrompida, cada laboratório fechado, cada projeto abandonado significa, em muitos casos, desperdiçar investimentos acumulados durante décadas. É como construir quase toda uma ponte e abandonar a obra poucos metros antes da outra margem: todo o investimento realizado permanece incapaz de produzir os benefícios para os quais foi concebido.
Nos últimos anos, entretanto, começam a surgir sinais importantes de mudança. A retomada do debate sobre política industrial, a valorização da ciência e a reconstrução de instrumentos públicos de fomento representam uma inflexão relevante na estratégia de desenvolvimento nacional. Nesse contexto, merece reconhecimento a atuação do governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que recolocou esses temas entre as prioridades da agenda pública, com iniciativas voltadas ao fortalecimento da pesquisa, da inovação, da neoindustrialização e da soberania produtiva. Mais importante do que a identificação de um governo específico, porém, é reconhecer que essa mudança de orientação responde a um desafio estrutural do país.
Entre os exemplos mais emblemáticos dessa nova direção encontra-se a reversão do processo de liquidação da CEITEC, única empresa pública federal dedicada ao desenvolvimento e à fabricação de semicondutores. Durante a liquidação, o Brasil assistiu à dispersão de profissionais cuja formação exigiu décadas de investimento público. Não se tratava apenas da perda de postos de trabalho: tratava-se da perda de conhecimento acumulado, da fragmentação de equipes capazes de desenvolver tecnologias estratégicas e do enfraquecimento de um dos poucos núcleos nacionais dedicados a uma indústria essencial para a economia do século XXI. A decisão de interromper a liquidação não significou apenas preservar uma organização pública. Representou o reconhecimento de que determinados ativos nacionais não podem ser avaliados exclusivamente por indicadores financeiros de curto prazo. Infraestruturas científicas, equipes especializadas e capacidades tecnológicas constituem patrimônio estratégico do Estado — e sua reconstrução costuma exigir muito mais tempo, recursos e esforço institucional do que sua preservação.
A experiência da CEITEC evidencia, de maneira concreta, a principal tese deste artigo: não basta formar profissionais altamente qualificados; é indispensável construir instituições capazes de lhes oferecer desafios científicos, perspectivas profissionais e projetos suficientemente relevantes para justificar sua permanência no país.
Naturalmente, uma única iniciativa não resolve um problema acumulado ao longo de décadas. A retenção de talentos depende de um conjunto muito mais amplo de fatores: estabilidade institucional, financiamento contínuo da pesquisa, segurança jurídica, integração entre universidades e empresas, crédito para inovação, fortalecimento da indústria nacional e visão estratégica de longo prazo. Da mesma forma, seria um equívoco atribuir a um único governo a responsabilidade tanto pelas dificuldades quanto pelos avanços. A construção de uma economia intensiva em conhecimento exige continuidade institucional: projetos científicos não obedecem aos calendários eleitorais, laboratórios são construídos ao longo de anos, a formação de um pesquisador exige décadas. É precisamente por isso que ciência, tecnologia, inovação e política industrial não podem oscilar conforme as alternâncias de poder. Precisam consolidar-se como compromissos permanentes da República — porque somente políticas de Estado possuem o horizonte temporal compatível com o tempo necessário para produzir conhecimento e transformá-lo em desenvolvimento.
A Constituição Federal estabelece, entre os objetivos fundamentais da República, a promoção do desenvolvimento nacional, a redução das desigualdades e o incentivo ao desenvolvimento científico, à pesquisa, à capacitação tecnológica e à inovação. Não se trata de dispositivos meramente programáticos. São escolhas constitucionais que revelam uma compreensão sofisticada do desenvolvimento: nenhuma sociedade alcança prosperidade duradoura apenas pela abundância de recursos naturais. O verdadeiro diferencial competitivo das nações modernas reside na capacidade de produzir conhecimento, transformá-lo em tecnologia e convertê-lo em riqueza.
Esse talvez seja o grande desafio brasileiro do século XXI. As universidades brasileiras formam profissionais reconhecidos internacionalmente; nossos engenheiros, médicos, físicos e especialistas em microeletrônica demonstram diariamente que possuem competência para atuar nos mais sofisticados centros de pesquisa do mundo. Esse fato constitui motivo de orgulho nacional — mas também revela uma contradição. Se somos capazes de formar profissionais disputados pelas maiores universidades, laboratórios e empresas do planeta, por que ainda encontramos tantas dificuldades para oferecer a eles oportunidades equivalentes dentro do próprio país? A resposta talvez esteja menos na qualidade da educação e mais na estrutura da economia. Nenhum sistema educacional, por mais eficiente que seja, substitui uma estratégia nacional de desenvolvimento.
Foi exatamente essa percepção que passou a orientar, nos últimos anos, a retomada das políticas voltadas ao fortalecimento da indústria, da ciência e da inovação. Iniciativas como a Nova Indústria Brasil, a recomposição dos instrumentos públicos de fomento e a recuperação de capacidades estratégicas — entre elas a CEITEC — representam mais do que programas governamentais isolados: representam o reconhecimento de que o desenvolvimento tecnológico não surge espontaneamente, mas depende de planejamento, investimento contínuo e coordenação institucional. Sua continuidade, porém, deve ser entendida como compromisso nacional. A experiência internacional demonstra que nenhuma potência tecnológica foi construída em um único mandato presidencial: os ecossistemas de inovação dos Estados Unidos, da Alemanha, da Coreia do Sul, de Taiwan ou de Israel resultam de políticas consistentes mantidas durante décadas, muitas vezes por governos de orientações distintas, mas unidos por um mesmo projeto nacional. O Brasil precisa aprender essa lição.
A retenção de talentos, por sua vez, não será alcançada por discursos patrióticos nem por apelos morais. Ninguém deve permanecer no país por sentimento de culpa, nem abrir mão de sua realização profissional em nome de uma obrigação abstrata. A liberdade de construir a própria trajetória constitui um dos valores centrais de qualquer sociedade democrática. O desafio não consiste em impedir que brasileiros estudem, pesquisem ou trabalhem no exterior — a circulação internacional fortalece a ciência, amplia redes de cooperação e aproxima o Brasil das fronteiras tecnológicas mundiais. O problema surge quando essa circulação deixa de ser uma via de mão dupla; quando o país se transforma apenas em exportador de talentos. Uma política inteligente não deve fechar fronteiras. Deve construir pontes: pontes para o retorno, para projetos cooperativos, para laboratórios compartilhados, para investimentos privados em inovação — pontes para que pesquisadores brasileiros, estejam onde estiverem, possam continuar contribuindo para o desenvolvimento nacional.
No fundo, este artigo não trata apenas da fuga de cérebros. Trata da maneira como o Brasil enxerga seu principal patrimônio estratégico. Aprendemos que exportar apenas minério significa abrir mão da riqueza produzida pela indústria; compreendemos que as terras raras somente produzirão desenvolvimento quando forem transformadas em tecnologia e produtos de alto valor agregado. Chegou o momento de aplicar essa mesma lógica ao capital humano. O pesquisador é a matéria-prima mais sofisticada que uma sociedade pode produzir — e, diferentemente do minério, não nasce da geologia: é fruto de décadas de investimento coletivo.
Quando esse patrimônio encontra, em seu próprio país, oportunidades para inovar, empreender, ensinar e produzir conhecimento, todo o investimento retorna em forma de produtividade, empregos qualificados, desenvolvimento regional e soberania tecnológica. Quando isso não acontece, transfere-se gratuitamente esse potencial para economias que compreenderam, antes de nós, que a principal riqueza do século XXI não está nas reservas minerais, nem nas commodities agrícolas, nem mesmo no capital financeiro. Está na inteligência humana.
Esse deve ser o indicador mais eloquente do nosso estágio de desenvolvimento: não o número de profissionais que partem, mas a quantidade de oportunidades que ainda deixamos de construir para que eles escolham permanecer. Pois a verdadeira riqueza de uma nação não é medida apenas pelo que ela extrai do solo ou exporta pelos portos. É medida, sobretudo, pela sua capacidade de transformar conhecimento em desenvolvimento, talento em inovação e inteligência em prosperidade compartilhada.
Contudo é justamente nos períodos eleitorais que essa reflexão se torna ainda mais necessária. É nesses momentos que temas complexos costumam ser comprimidos em discursos fáceis, soluções instantâneas e antagonismos convenientes. Ciência, universidades, empresas públicas, política industrial e investimentos de longo prazo passam, não raramente, a ser discutidos como simples itens de despesa ou símbolos de uma disputa ideológica, como se décadas de construção institucional pudessem ser avaliadas pela lógica de uma campanha eleitoral.
O problema é que a ciência não conhece o tempo das eleições. A formação de um pesquisador atravessa governos; a construção de uma capacidade tecnológica pode consumir décadas; a consolidação de uma indústria estratégica exige continuidade. Uma decisão tomada em poucos meses pode desmontar estruturas cuja reconstrução levará muitos anos. E, enquanto o debate público permanece preso a slogans, profissionais altamente qualificados fazem escolhas perfeitamente racionais sobre onde construir suas carreiras.
Por isso, o custo dos discursos rasos não termina nas urnas. Ele também aparece nessa balança comercial que não figura nas estatísticas oficiais. De um lado, o Brasil investe recursos, tempo e gerações na formação de conhecimento. De outro, a instabilidade, a descontinuidade e a incapacidade de construir consensos mínimos sobre ciência e desenvolvimento empurram parte desse patrimônio para economias capazes de oferecer horizontes mais previsíveis.
Uma democracia madura pode — e deve — discutir modelos diferentes de Estado, prioridades orçamentárias e caminhos distintos para o desenvolvimento. O que não pode fazer sem consequências é transformar continuamente suas capacidades estratégicas em objetos descartáveis de cada nova disputa política. Países que pretendem competir pela economia do conhecimento precisam compreender que algumas construções pertencem à República antes de pertencerem a qualquer governo.
Enquanto não formos capazes de produzir esse consenso, continuaremos financiando silenciosamente parte da competitividade das economias mais desenvolvidas.
E parece ser essa a dimensão mais preocupante da nossa exportação invisível: na balança comercial dos cérebros, o Brasil não perde apenas quando um pesquisador embarca para o exterior. Começa a perder muito antes — quando o debate público deixa de oferecer razões para que ele imagine seu futuro aqui.
Foto de capa: IA


