Da Redação*
O candidato do PL ao governo do Rio Grande do Norte, Álvaro Dias, provocou reação entre setores bolsonaristas ao anunciar que pretende adotar uma política de combate ao analfabetismo inspirada em Paulo Freire. A declaração ocorreu durante debate eleitoral promovido pela Band e colocou o político em rota de colisão com uma das principais bandeiras da guerra cultural alimentada pela extrema-direita nos últimos anos.
“Nós vamos implantar no Rio Grande do Norte o programa de erradicação do analfabetismo, inspirado no método Paulo Freire, que alfabetiza em quarenta horas”, afirmou. Ex-prefeito de Natal, Dias disse que sua administração chegou a iniciar experiência semelhante na educação de jovens e adultos, posteriormente interrompida pela pandemia.
Angicos marcou história da alfabetização
A referência possui significado especial naquele Estado. Em 1963, uma de suas cidades tornou-se cenário da experiência conhecida como “Quarenta Horas de Angicos”, na qual cerca de 300 trabalhadores participaram do projeto desenvolvido pela equipe coordenada pelo educador pernambucano.
O sucesso da experiência ajudou a levar Freire ao governo João Goulart, que pretendia ampliar sua proposta por meio do Programa Nacional de Alfabetização. O projeto, entretanto, foi interrompido após o golpe de 1964, quando os militares passaram a tratar o educador como suspeito de atividades consideradas subversivas.
Preso durante aproximadamente 70 dias, Freire deixou posteriormente o Brasil e viveu no exílio. Passou por Bolívia e Chile, lecionou em Harvard e trabalhou na Europa antes de retornar ao país em 1980.
De inimigo do bolsonarismo a referência
Décadas depois, Paulo Freire voltou ao centro das disputas ideológicas com a ascensão de Jair Bolsonaro. Durante seu governo, o educador e autor de Pedagogia do Oprimido tornou-se alvo frequente de ataques de integrantes da administração e de seguidores de Olavo de Carvalho.
A manifestação de Álvaro Dias representa, portanto, uma mudança significativa dentro do próprio campo bolsonarista. Ao recuperar justamente uma experiência histórica realizada no Rio Grande do Norte, o candidato reconhece como referência educacional um personagem que seu grupo político transformou durante anos em símbolo de tudo aquilo que dizia combater na educação brasileira.
* Redator: Solon Saldanha
Ilustração: charge de virtualidades.blog
