O diagnóstico internacional sobre a emergência da extrema direita/neofascismo é bastante útil para interpretar o bolsonarismo, mas os grupos sociais mobilizados e, sobretudo, os “inimigos” construídos são diferentes. A extrema direita brasileira não é mera importação do trumpismo ou das direitas radicais europeias: ela combina conflitos universais da modernização contemporânea com clivagens especificamente brasileiras.
Trata-se de um sistema de ressentimentos heterogêneos, cuja convergência política não exige interesses econômicos idênticos entre os agrupamentos.
A estrutura geral é semelhante quanto a ser uma reação à perda real ou imaginada de posição social.
Nos EUA e em parte da Europa, a literatura costuma associar a nova direita radical à combinação de insegurança econômica, perda relativa de status, reação cultural às mudanças de costumes, nacionalismo, crise da representação política e identificação de grupos culpados (“bodes-expiatórios”) pela transformação social.
No Brasil, mecanismo semelhante parece operar, mas a composição histórica é diferente. Uma revisão recente da literatura brasileira identifica três explicações importantes para a emergência da extrema-direita: 1. conservadorismo popular, 2. reorganização política da direita — inclusive bancadas evangélica e da segurança — e 3. antipetismo.
Isso permite pensar o bolsonarismo não como relacionado a uma classe social, mas como uma coalizão de ressentimentos distintos.
| Segmento | Perda ou ameaça percebida | Adversário simbolicamente construído |
| Conservador Religioso | autoridade moral tradicional | feminismo, aborto, LGBTQIA+, secularização |
| Militares e Famílias Militares | prestígio político e centralidade institucional | esquerda, direitos humanos, crítica à ditadura |
| Agronegócio / Interior Conservador | hegemonia cultural | ambientalistas, universidades, “elite cultural urbana” |
| Pequena Burguesia / Empreendedores | autonomia econômica e renda | impostos, Estado, sindicatos |
| Classes Médias Tradicionais | distinção social relativa | políticas inclusivas e ascensão dos mais pobres |
| Trabalhadores Conservadores | segurança, ordem e reconhecimento | criminalidade, esquerda, “sistema” |
| Grupos Antipetistas | hegemonia política do PT | PT, Lula, universidades, imprensa identificada como progressista |
A força política aparece justamente porque essas insatisfações podem ser narrativamente conectadas, embora suas causas objetivas sejam muito diferentes.
A religião ocupa no Brasil parte do lugar ocupado pela imigração na Europa. Na extrema direita europeia, a fronteira identitária costuma ser: nacional × estrangeiro; cristão/europeu × muçulmano/imigrante. No Brasil, ela se organizou muito mais como: conservador moral × progressista; religioso × secular; “cidadão de bem” × esquerda.
Há evidência empírica dessa especificidade. Estudo com dados eleitorais de 2022 constatou maior conservadorismo entre evangélicos em comparação com católicos, outras religiões e ateus, embora não tenha encontrado evidência de serem necessariamente mais autoritários. Outro trabalho encontrou efeito significativo das mensagens de lideranças religiosas favoráveis a Bolsonaro sobre o voto — e não apenas entre evangélicos, mas também entre católicos expostos e submissos a lideranças pró-Bolsonaro.
Portanto, convém evitar a formulação “os evangélicos contra a pauta identitária”. O evangelicalismo brasileiro é heterogêneo. O mecanismo politicamente relevante parece ser a articulação entre certas lideranças religiosas sobre pertencimentos, conservadorismo moral, identidade religiosa e organização eleitoral.
O componente militar é muito mais brasileiro e latino-americano. Demarcam aqui uma diferença estrutural em relação às democracias europeias contemporâneas.
O Brasil passou por 21 anos de ditadura militar, de 1964 a 1985, e a redemocratização não eliminou completamente a presença política das Forças Armadas. O bolsonarismo conseguiu transformar a memória da ordem ditatorial, existente em grupos necessitados de comando autoritário, em recurso político.
Isso não se reduz ao interesse material de velhos militares e suas famílias saudosas do dinheiro e status. Isso pode existir, mas a explicação é mais institucional e simbólica: status corporativo + anticomunismo histórico + concepção tutelar das Forças Armadas + memória seletiva da ditadura + interesses materiais corporativos.
Porém, houve uma demonstração importante da heterogeneidade interna das próprias Forças Armadas: os acontecimentos golpistas, posteriores à derrota eleitoral de 2022, mostraram tanto militares envolvidos na tentativa de ruptura institucional quanto comandantes resistentes a ela. Relato recente do então comandante da Aeronáutica descreve justamente essa divisão. Portanto, tampouco seria adequado falar em “os militares” como bloco homogêneo.
Há também uma clivagem territorial-cultural, talvez psicológica e inconsciente, como sugere o ressentimento regional diante da hegemonia cultural percebida das grandes metrópoles e das elites universitárias. Isso permite enxergar uma clivagem bastante contemporânea: metrópole → universidade → diversidade → cosmopolitismo → serviços sofisticados versus interior → propriedade → agronegócio → religião → família → ordem.
Não significa, evidentemente, interior conservador versus metrópole progressista de maneira mecânica. São probabilidades eleitorais e identidades territoriais, atravessadas por renda, religião, escolaridade, gênero e região.
Essa distinção é importante, porque o agronegócio brasileiro é justamente o contrário de um setor economicamente atrasado: é altamente capitalizado, tecnologicamente sofisticado, internacionalizado e integrado às cadeias globais. Seu conservadorismo político não deriva necessariamente de atraso econômico.
A grande diferença brasileira é realmente a menor centralidade do imigrante como “inimigo”. Na Europa e nos EUA, o trabalhador estrangeiro pode ser apresentado simultaneamente como ameaça ao emprego, ao salário, à identidade nacional, à religião, à segurança e aos serviços públicos. No Brasil, essa construção possui muito menos potência nacional, porque a imigração contemporânea é proporcionalmente pequena e o país não vive algo comparável aos grandes fluxos migratórios europeus ou norte-americanos.
Isso não significa ausência de xenofobia. A política para refugiados venezuelanos, durante o governo Bolsonaro, por exemplo, chegou a adquirir forte conteúdo ideológico, bem como o grito “vai pra Cuba!”. Mas a imigração ainda não se tornou o eixo ordenador nacional da coalizão eleitoral da extrema direita brasileira.
Por isso, o inimigo precisou ser encontrado sobretudo dentro da própria sociedade. E aí aparecem sucessivamente os “bodes-expiatórios” apontados por ignorantes: comunista, petista, feminista, professor universitário, artista, ambientalista, defensor dos direitos humanos, movimento LGBTQIA+, STF, imprensa etc.
É uma diferença fundamental. A extrema direita europeia diz: — “Eles estão invadindo a nação”. O bolsonarismo acusa: — “Eles tomaram as instituições”.
Também é diferente a questão do operário industrial. Trump conseguiu oferecer ao antigo trabalhador industrial uma narrativa populista de direita: — “A globalização levou sua fábrica para China/México; nós vamos trazê-la de volta.” É a política econômica convertida em nostalgia industrial do MAGA.
No Brasil, isso funciona muito menos. A industrialização brasileira foi historicamente concentrada regionalmente, sobretudo no Sudeste, e o mercado de trabalho atual é predominantemente urbano e terciário. Portanto, não existe, nacionalmente, uma massa equivalente ao antigo blue-collar worker norte-americano cuja identidade coletiva seja “éramos operários industriais e perdemos nossas fábricas”.
O bolsonarismo, via Teologia da Prosperidade evangélica, ofereceu ao trabalhador popular outra identidade: menos “operário abandonado pela desindustrialização” e mais “trabalhador capaz de se virar sozinho”. Por ser empreendedor, motorista de aplicativo, autônomo, pequeno comerciante, caminhoneiro e informal se colocaria em oposição simbólica ao sindicalizado, funcionário público ou beneficiário dependente do Estado.
É possível relacionar a adesão de parcelas dos trabalhadores à extrema direita à fragilização sindical e à difusão da representação do indivíduo como uma espécie de “sujeito-empresa”.
Por isso, não há uma causa social única do neofascismo brasileiro, mas sim uma convergência emergente: mudança econômica + mudança cultural + secularização parcial + ascensão social dos pobres + políticas identitárias + crise de representação + antipetismo + redes sociais + memória da ditadura + insegurança pública. Todos esses fatores produzem ressentimentos diferentes, mas encontram organizações capazes de conectá-los: igrejas + militares/policiais + agronegócio + empresários + influenciadores/redes digitais + políticos profissionais. Aí uma liderança oportunista e populista de direita oferece um vocabulário comum — “Deus, Pátria, Família, Liberdade, Ordem, Anticomunismo” — e transforma uma coleção heterogênea de descontentamentos em identidade política coletiva conservadora.
Essa talvez seja a diferença maior entre o neofascismo europeu/americano e o fenômeno contemporâneo brasileiro. Não é necessário existir, previamente, uma fração social fascista coerente. A coalizão é produzida politicamente pela conexão entre ressentimentos antes separados.
Há, porém, uma aparente contradição: os participantes desejam regressar a passados diferentes. O militar imagina a ordem da ditadura; o religioso, a família tradicional; o ruralista, a autoridade social do proprietário; a classe média, sua antiga distinção; o pequeno empreendedor, um capitalismo sem Estado; o trabalhador conservador, segurança e reconhecimento. Esses passados jamais existiram conjuntamente da maneira idealizada.
Justamente por isso, a nostalgia política funciona como elemento agregador. Não oferece necessariamente um programa econômico coerente para o futuro; oferece sim a (falsa) promessa emocional de restaurar uma ordem perdida.
Nesse sentido, o bolsonarismo pode ser entendido menos como simples versão tropical do trumpismo e mais como uma configuração brasileira da nova direita radical, emergente da interação entre autoritarismo histórico, conservadorismo religioso, neoliberalismo individualista, ressentimentos de status, antipetismo e polarização cultural. A ausência, até agora, de uma xenofobia anti-imigrante como eixo nacional e de uma grande narrativa de restauração do emprego industrial constitui justamente duas de suas principais diferenças em relação aos casos norte-americano e europeu.
Foto de capa: André Borges/EFE


