Bolhas Especulativas e seus Custos para a Sociedade

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Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*

No capítulo 23 do livro Finance and the Good Society, intitulado Debt and Leverage (Dívida e Alavancagem), Robert Shiller analisa como a interação entre os impulsos humanos e as instituições financeiras tradicionais pode criar situações econômicas perigosas.

Ele explica a armadilha da alavancagem ser armada pela combinação do impulso humano pelo risco, ignorando sinais de perigo, com a convencionalidade impeditiva da adoção de proteções, levar ao excesso de endividamento. Quando se utiliza a dívida convencional, qualquer pequeno declínio na sorte econômica torna-se um desastre, pois a queda é alavancada contra uma dívida contratualmente fixa. Além disso, se a inflação for menor diante o esperado, o valor real dessa dívida fixa aumenta, agravando a crise do devedor.

O endividamento é uma parte natural e necessária da vida econômica. Indivíduos precisam de recursos quando jovens para educação e moradia, enquanto seus anos de maior ganho ocorrem mais tarde. Empresas necessitam de fundos para começar e expandir antes de amadurecerem. Governos se endividam para investimento em infraestrutura que beneficiará gerações futuras.

No entanto, para Shiller, as pessoas raramente vivem de acordo com os padrões de racionalidade econômica. Elas aceitam veículos de crédito baseados na sabedoria convencional ou pressão de vendas, sem acesso a especialistas ou engenharia financeira capazes de reduzir os problemas de alavancagem.

Ele descreve um ciclo de alavancagem global onde o excesso de endividamento se desenvolve naturalmente, durante os períodos de boom, levando ao colapso subsequente. Quando a dívida se torna muito grande em relação aos recursos, surge o problema do excesso de dívida. Imobiliza indivíduos, empresas e governos, impedindo ações positivas e gerando angústia econômica prolongada.

O autor cita exemplos específicos de falhas institucionais. Na Crise de 2007 (nos EUA), a dívida das famílias dobrou entre 2001 e 2007, impulsionada por baixas taxas de poupança e promoções agressivas de cartões de crédito e hipotecas com baixos pagamentos iniciais. Na Crise Europeia, reguladores bancários impuseram requisitos de capital zero para dívidas governamentais denominadas em euro, assumindo falsamente serem isentas de risco para não abalar a confiança no sistema. Isto permitiu o calote de um governo derrubar bancos inteiros. Shiller introduz uma dimensão ética ao conceito de dívida. Dívida odiosa é aquela não originada de um contrato livre e informado ou gerada por governos ditatoriais sem benefício para o público. Dívida salutar é projetada para ter um efeito positivo no bem-estar social, como os empréstimos do Plano Marshall. Estipulavam condições para criar um mercado europeu aberto e próspero.

A solução não é extinguir a dívida, mas torná-la mais flexível. Ele propõe inovações como hipotecas de ajuste contínuo e títulos da dívida nacional indexados ao PIB. Permitiriam os pagamentos diminuírem automaticamente em tempos de crise, protegendo os devedores do peso esmagador da alavancagem fixa.

Para entender o perigo da alavancagem, imagine uma alavanca física: ela permite você levantar um peso muito maior diante sua força normal, aumentando seu poder de compra. Mas se você perder o equilíbrio, a força do impacto de volta será multiplicada pela mesma proporção, podendo causar um dano catastrófico ao operador.

Nos capítulos 25 e 26 de Finance and the Good Society, Robert Shiller analisa a função da especulação nos mercados e a natureza destrutiva das bolhas especulativas, contrastando teorias financeiras clássicas com a realidade psicológica e social.

No Capítulo 25, O Significado da Especulação Financeira, Shiller discute a tensão entre a visão pública da especulação como “puro jogo” e seu papel técnico na economia. Cita Eugene Fama para explicar, teoricamente, a competição entre “participantes inteligentes” (especuladores) deveria fazer com os preços refletirem o valor intrínseco dos ativos.

Contudo, ele contesta a aplicação extrema dessa teoria, argumentando as mudanças de preços muitas vezes refletirem mudanças de humor público em vez de novos dados fundamentais. O mercado de ações dos EUA apresenta uma volatilidade muito maior diante a justificada por mudanças dividendos subsequentes.

Shiller recorre ao conceito de Keynes para explicar as decisões de investimento serem motivadas por um impulso espontâneo à ação (espíritos animais) e não apenas por cálculos matemáticos. Esse processo é alimentado por contágios sociais.

Centros financeiros atraem pessoas com traços hipomaníacos, estranhos ao negócio se autoselecionaram por sua disposição ao risco. Isso impulsiona o empreendedorismo.

Shiller observa com preocupação a mudança das empresas de Wall Street de parcerias para corporações públicas com responsabilidade limitada. A estrutura de parceria incentivava a preservação da reputação a longo prazo, enquanto o modelo atual pode ter estimulado a especulação descuidada até GCF de 2008.

No Capítulo 26, Bolhas Especulativas e seus Custos para a Sociedade, Shiller define as bolhas como uma forma de doença mental social e detalha como elas operam fora e dentro dos mercados financeiros. Ele as descreve como uma situação na qual notícias de aumentos de preços geram entusiasmo, espalhando-se por contágio psicológico e amplificando estórias supostamente justificadoras da alta, atraindo novos investidores por inveja ou excitação.

As bolhas são mantidas por loops de feedback e narrativas fantasiosas: o aumento de preço atrai atenção mediática e popular para teorias de Nova Era. Elas justificam mais compras, elevando o preço continuamente até o colapso. Bolhas negativas funcionam de forma oposta, alimentadas por estórias de catástrofe.

O autor lista fatores psicológicos facilitadores das bolhas, como o ancoramento (usar pistas irrelevantes para julgar valores), o excesso de confiança e a dificuldade de pensar em múltiplos cenários futuros. São falhas cerebrais (brain bugs):

Um ponto central é as bolhas de investimento poderem ocorrer mesmo sem mercados financeiros, em economias planejadas como na coletivização agrícola da União Soviética ou no Grande Salto Adiante na China. Esses exemplos mostram o entusiasmo público por teorias econômicas falhas ser capaz de levar a desastres humanitários massivos, como fomes. Mataram milhões.

Shiller apoia a ideia de o mercado ser “micro eficiente” (preços de empresas individuais fazerem sentido em relação ao fluxo de caixa) mas “macro ineficiente” (o mercado agregado ser dominado por bolhas e psicologia).

Em resumo, enquanto a especulação é uma ferramenta necessária para a descoberta de preços e estímulo à ação econômica, ela é inerentemente vulnerável a contágios sociais. Criam bolhas, cujos custos podem ser devastadores tanto em sistemas capitalistas quanto em economias centralizadas.

Para visualizar o conceito de loop de feedback, pense em um microfone próximo a uma caixa de som: um pequeno ruído inicial é captado e amplificado repetidamente até se tornar um som ensurdecedor e insustentável. No mercado, o ruído é o aumento inicial de preço, e a amplificação é o entusiasmo dos investidores. Continua crescendo até o sistema financeiro “estourar”.


*Fernando Nogueira da Costa é Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com

Foto de capa: Divulgação

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