O livro “As Big Techs e a Guerra Total: O Complexo Militar-Industrial-Dataficado” de autoria de Sérgio Amadeu da Silveira (São Paulo: Editora Hedra, 2025. 144 p.) investiga a fusão contemporânea entre o poder das maiores corporações tecnológicas e as estratégias militares globais. Apresenta o conceito de “complexo militar-industrial-dataficado” para descrever como a infraestrutura de dados e a inteligência artificial de empresas como Google e Microsoft foram integradas às operações de guerra.
Através de exemplos recentes, como o uso de sistemas algorítmicos em Gaza, o livro demonstra como a lógica do capitalismo de vigilância agora dita a identificação de alvos e a gestão de conflitos. Amadeu alerta para a desumanização dos processos de decisão e para o perigo ético de delegar escolhas sobre a vida e a morte a máquinas automatizadas.
Por fim, o livro convoca um debate urgente sobre como o controle de informações em escala planetária sustenta a hegemonia geopolítica dos Estados Unidos.
Os negócios da nuvem (cloud computing) referem-se a um modelo de fornecimento de recursos de tecnologia da informação sob demanda, por meio da internet, com preços baseados no pagamento conforme o uso. Esse setor consolidou-se como a infraestrutura básica da economia informacional, permitindo as empresas terceirizarem a gestão de dados, hardware e softwares para grandes provedores especializados, as chamadas Big Techs.
As empresas de nuvem oferecem diferentes camadas de serviços, adaptadas às necessidades dos clientes. A IaaS (Infraestrutura como Serviço) fornece os blocos básicos, como servidores virtuais, armazenamento de dados e recursos de rede. É o segmento liderado pela Amazon (AWS) e Microsoft (Azure).
A PaaS (Plataforma como Serviço) oferece recursos de hardware e software para o desenvolvimento e gerenciamento de aplicativos sem o cliente precisar de cuidar da infraestrutura subjacente. O SaaS (Software como Serviço) entrega produtos completos e prontos para o uso final via navegador, como o Google Docs ou webmails.
A AIaaS (Inteligência Artificial como Serviço) é um modelo emergente capaz de oferecer ferramentas de IA prontas. Permite empresas usarem aprendizado de máquina a uma fração do custo de desenvolver soluções internas. O mercado é caracterizado por uma extrema concentração oligopolista. Em 2023, apenas duas empresas, Amazon e Microsoft, dominavam cerca de 62%
do mercado global de IaaS. Os cinco maiores provedores, incluindo também Alibaba, Google e Huawei, representam mais de 80% do setor.
O avanço da Inteligência Artificial realmente existente (baseada em dados) tornou a nuvem indispensável. O treinamento de modelos de linguagem de grande escala (como o GPT-3) exige um poder computacional colossal e milhares de GPUs operando em paralelo.
Apenas os grandes provedores de nuvem possuem infraestrutura para sustentar isso. Estima-se o custo para treinar certos modelos avançados ultrapassar os 4 milhões de dólares em recursos de nuvem.
Os negócios da nuvem deixaram de ser apenas civis para se tornarem o centro da gestão da guerra contemporânea. O Complexo Militar-Industrial-Dataficado emergiu das Forças Armadas dos EUA e de Israel ao utilizarem nuvens comerciais para operações táticas.
O Projeto JWCC, um contrato de até 36 bilhões de dólares, integra Amazon, Microsoft, Google e Oracle na infraestrutura de defesa dos EUA. O Projeto Nimbus significa um contrato de 1,2 bilhão de dólares para Google e Amazon fornecerem nuvem e IA para o governo e militares de Israel, com aplicações no mapeamento e vigilância de populações.
A nuvem também domina a agricultura (através de sensores e drones), a logística e a saúde pública. Ela é descrita como uma “tecnoesfera”, capaz de permitir o controle à distância de vastas áreas geográficas. Os provedores atuam como gatekeepers (guardiões), exercendo poder sobre a soberania de dados e influenciando políticas globais.
Esse cenário reforça o colonialismo digital, onde países tecnologicamente dependentes exportam seus dados para serem processados em data centers localizados no Norte Global, aumentando a subordinação econômica e militar às Big Techs americanas.
A Inteligência Artificial (IA) realmente existente rumo à guerra não é uma forma de consciência ou inteligência mística, mas sim o conjunto de sistemas automatizados com utilização de algoritmos estatísticos e probabilísticos para classificar e extrair padrões de bases de dados gigantescas. Emprega um elevado poder computacional.
A guerra atual é gerida por um novo arranjo integrador das Big Techs (como Google, Amazon, Microsoft, Oracle e Palantir) diretamente na “sala de comando” militar. Elas fornecem a infraestrutura de nuvem e o alto poder de processamento (GPUs) necessários para treinar modelos de aprendizado profundo (deep learning), os quais as Forças Armadas não conseguem manter sozinhas.
A IA é utilizada para transformar volumes massivos de dados brutos em informações táticas para o extermínio. Exemplos reais citados por Silveira (2025) incluem: uso de aprendizado de máquina para identificar objetos e pessoas e detectar alvos de modo automatizado a partir de imagens e vídeos coletados por drones; um sistema de IA capaz de processar dados de redes sociais e comunicações para gerar listas de milhares de alvos humanos (suspeitos de serem militantes) para eliminação; IA voltada para recomendar edifícios e estruturas físicas como alvos militares. Culmina no Where’s Daddy? (Onde está o papai?), um sistema de rastreamento e geolocalização, usado para seguir alvos até suas residências familiares antes de autorizar um ataque de drone.
A incorporação dessas tecnologias altera a natureza da guerra, substituindo a “ética do guerreiro”, baseada no risco mútuo, pela “ética do caçador”. O inimigo é reduzido a um dado estatístico, em um monitor, permitindo generais estadunidenses chamarem sem pudor esse ato de “matar pessoas com base em metadados”.
A IA mapeia rotinas e conexões sociais de populações inteiras para identificar “anormalidades”, diante de “formas de vida” (pattern of life) toleráveis, ou comportamentos correspondentes a um perfil de ameaça. Em vigilância persistente, o uso de sistemas permite drones monitorarem cidades inteiras 24 horas por dia, criando um arquivo total onde todas as vidas são “pesquisáveis” retrospectivamente.
Nesse viés de automação, há um risco ético crítico se agentes humanos passarem a aceitar passivamente decisões algorítmicas de vida ou morte. Cederão autoridade moral ao processamento estatístico sob a pressão do tempo no campo de batalha.
A IA na guerra atual funciona como um instrumento de ampliação do conhecimento extrativista de dados pessoais, convertendo o comportamento humano em representações matemáticas (vetores) para otimizar a letalidade unilateral.
Foto de capa: ANJALI NAIR/GETTY IMAGES





