Até onde a grande mídia irá para impedir um pouco de justiça social? | Por Benedito Tadeu César

Flávio Bolsonaro pode servir para derrotar Lula; Augusto Cury, como alternativa. E, se Lula sobreviver, resta a possibilidade de enfraquecê-lo para limitar seu próximo governo.
Publicado em 6 de setembro de 2026 às 9:00
Editado em 6 de setembro de 2026 às 10:09

A campanha contra Lula pode esconder um jogo de dois tempos: derrotá-lo ou enfraquecê-lo para condicionar um eventual novo governo. O crescimento de Augusto Cury acrescenta uma terceira peça ao tabuleiro

Talvez seja preciso começar pelo que realmente está em disputa nesta eleição.

Lula não propõe uma revolução socialista. Seu governo pratica uma política econômica moderada e, muitas vezes, conservadora. O que faz é aumentar o salário mínimo acima da inflação, ampliar transferências de renda, reduzir a pobreza, ensaiar alguma tributação dos muito ricos e utilizar o Estado como instrumento de desenvolvimento.

Num dos países mais desiguais do mundo, isso deveria parecer pouco.

Para parte da elite brasileira, parece demais.

É desse ponto que precisa partir a análise da campanha em curso na grande mídia corporativa contra Lula.

Talvez estejamos compreendendo apenas metade de sua estratégia ao imaginar que o objetivo seja simplesmente eleger Flávio Bolsonaro.

Há uma hipótese mais sofisticada.

Plano A: derrotar Lula.

Plano B: se isso não for possível, enfraquecê-lo até tornar um eventual novo governo dependente daqueles que ajudaram a colocá-lo contra a parede.

Flávio pode servir às duas alternativas: primeiro como ameaça eleitoral; depois, se chegar perto demais da Presidência, como alvo do enorme arquivo que a própria imprensa acumulou sobre os Bolsonaro.

Não há prova de que os grandes veículos tenham combinado essa estratégia. É uma hipótese política. Mas ela ajuda a organizar fatos que estão diante de nossos olhos.

Mendonça ajuda a entender o jogo

As informações encontradas no celular de Daniel Vorcaro envolvendo Alexandre de Moraes precisam ser investigadas. Nenhum ministro do Supremo está acima da lei.

Mas também é preciso investigar como foram obtidas, selecionadas, transformadas em relatório e divulgadas.

É aí que aparece André Mendonça.

Sua atuação passou a ser questionada pela PGR e por juristas. Em grande parte da cobertura, porém, o foco deslocou-se do procedimento para o alvo.

Moraes virou o problema. Mendonça, o mensageiro.

E Mendonça foi escolhido para o STF por Jair Bolsonaro, cujo filho agora disputa a Presidência contra Lula.

Isso não prova uma operação eleitoral. Mas ou estamos diante de uma sucessão de erros extraordinariamente conveniente para o campo que colocou Mendonça no Supremo — o que exigiria admitir incompetência igualmente extraordinária — ou existe uma dimensão política que precisa ser investigada.

O resultado é objetivo: Moraes é atingido, o STF entra em crise, Lula sofre desgaste e Flávio se beneficia.

Três jornais, as mesmas palavras

Em 31 de julho, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e O Globo chegaram às bancas com exatamente a mesma manchete principal:

“Mendonça autoriza PF a investigar Lulinha por tráfico de influência”

Mesmas palavras. Na mesma ordem. No mesmo dia.

Não prova combinação. Demonstra extraordinária convergência editorial.

Durante agosto, Fábio Luís Lula da Silva continuou intensamente exposto por mensagens, viagens, relações pessoais, contatos empresariais e até negócios que não se concretizaram.

Investigue-se tudo. Se cometeu crime, que responda.

O problema está naquilo que se amplifica de um lado e se decide esquecer do outro.

A memória seletiva

Porque o adversário é Flávio Bolsonaro.

E a própria imprensa construiu um enorme arquivo sobre sua família: Fabrício Queiroz e as rachadinhas; Adriano da Nóbrega, apontado pelo Ministério Público como integrante de milícia e homenageado por Flávio; e os 107 imóveis negociados pela família Bolsonaro, dos quais pelo menos 51 foram adquiridos total ou parcialmente com dinheiro vivo. Dezessete apareceram nas investigações sobre rachadinhas nos gabinetes de Flávio e Carlos.

Dinheiro vivo não prova crime nem permite concluir que todo o patrimônio seja incompatível com os rendimentos.

Mas permite perguntar: de onde veio o dinheiro?

Se patrimônio e negócios de Fábio Luís ajudam a julgar Lula, por que dinheiro vivo e rachadinhas não ajudam a julgar Flávio?

Mais de R$ 60 milhões no meio do caminho

Dark Horse torna o contraste ainda mais evidente porque é um caso atual.

Flávio negociou com Daniel Vorcaro o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro. Foram identificados repasses superiores a R$ 60 milhões, passando por uma empresa de Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, e pelo fundo estadunidense Havengate, administrado por advogado ligado a Eduardo Bolsonaro.

Há mensagens em que Flávio cobra parcelas do financiamento.

A produtora afirma que o dinheiro foi aplicado no filme, mas a documentação apresentada não permitiu reconstruir integralmente o percurso dos recursos. A investigação apura sua destinação.

Mineiro fechou acordo de colaboração premiada com a PGR e afirma ter operado remessas e movimentado dinheiro vivo para Vorcaro, inclusive em malas. A colaboração ainda depende de validação judicial e suspeitas sobre outros destinos não estão comprovadas.

Mas a pergunta é simples: se contatos e negócios não realizados de Fábio Luís merecem semanas de exposição, que tratamento deveria receber uma investigação envolvendo Flávio, Vorcaro e mais de R$ 60 milhões efetivamente movimentados?

E ainda há Abin paralela, joias, tentativa de golpe, 8 de Janeiro e pandemia.

Flávio não rompe com esse passado. Apresenta-se como seu herdeiro.

Por que, então, esse passado perdeu tanta relevância jornalística?

Cury muda o tabuleiro

Agora existe uma terceira variável.

Augusto Cury, expressão da terceira via tantas vezes procurada por setores da grande mídia, deixou de ser eleitoralmente irrelevante e alcançou 7% a 11% em diferentes pesquisas.

Por enquanto, seu crescimento parece retirar proporcionalmente mais votos de Flávio do que de Lula. Mas, se continuar avançando, poderá oferecer algo mais atraente para quem quer derrotar Lula: fazê-lo sem precisar entregar novamente o país ao bolsonarismo.

Nesse cenário, Flávio deixaria de ser solução para voltar a ser problema.

E o arquivo hoje adormecido poderia despertar.

O segundo tempo

Talvez a grande mídia não precise eleger Flávio. Pode bastar torná-lo suficientemente forte para enfraquecer Lula.

Quanto menor a vantagem do presidente, maior a pressão para que recue em políticas distributivas e faça concessões aos interesses econômicos estabelecidos.

Mas, se Flávio crescer demais — ou Cury se transformar numa alternativa viável — os grandes veículos dispõem de uma arma formidável: seus próprios arquivos.

Não precisarão descobrir nada. Bastará mudar a hierarquia das notícias.

Queiroz, rachadinhas, imóveis, Abin, joias, golpe, pandemia e Dark Horse poderão recuperar subitamente a importância que nunca perderam.

Acuar para governar o governante

E esse mecanismo de pressão não seria novo.

O próprio Jair Bolsonaro o experimentou no governo. Sempre no limite para não provocar reação popular e parlamentar suficiente para levar ao seu impeachment, por exemplo. Procedimento que fica reservado aos governantes que não se curvam, como Dilma Rousseff.

A lição é importante: a grande mídia não precisa gostar de um presidente para adquirir poder sobre ele.

Se nem Bolsonaro, eleito com uma agenda econômica liberal, ficou imune a esse mecanismo, imagine um Lula comprometido com salário mínimo, transferência de renda, políticas sociais e alguma tributação dos muito ricos.

Um Lula reeleito depois de meses acuado e eventualmente beneficiado por uma ofensiva final contra Flávio poderia chegar ao novo mandato sabendo quem ajudou a criar o perigo — e quem ajudou a afastá-lo.

A mensagem nem precisaria ser pronunciada: ajudamos a colocar você contra a parede; ajudamos a tirá-lo de lá.

A conta poderia aparecer nos juros, nos direitos trabalhistas, na tributação dos muito ricos, na política industrial, nos bancos públicos, na regulação das plataformas e na política externa.

A disputa deixaria de ser apenas sobre quem governa.

Passaria a ser também sobre até onde poderá governar.

Interesses de classe não precisam de grupo de WhatsApp

Não há prova de que Globo, Folha e Estadão tenham combinado esse roteiro.

Mas interesses convergentes não exigem conspiração.

Grandes conglomerados do mesmo universo econômico podem compartilhar interesses, adversários e concepções de sociedade e chegar às mesmas escolhas editoriais.

Às vezes, até às mesmas manchetes.

E aqui retornamos ao começo.

O que Lula representa de tão ameaçador?

Salário mínimo maior. Transferência de renda. Redução da pobreza. Alguma tributação sobre os muito ricos. Estado atuando no desenvolvimento. Maior autonomia do Brasil.

É muito pouco para ser chamado de revolução.

Mas talvez seja muito para uma elite acostumada, durante séculos, a uma sociedade na qual quase tudo permanece em cima e quase nada chega embaixo.

Derrotar, substituir ou domesticar Lula

As próximas semanas permitirão testar a hipótese.

Flávio pode servir para derrotar Lula. Cury pode tornar-se uma alternativa mais palatável. Ou o arquivo Bolsonaro pode retornar às manchetes caso Flávio se torne perigoso demais.

E Lula pode vencer, mas suficientemente enfraquecido para saber quem ajudou a acuá-lo e quem, eventualmente, ajudou a salvá-lo.

Se o passado dos Bolsonaro e os milhões de Vorcaro continuarem secundários enquanto Lula estiver na frente e reaparecerem quando Flávio ameaçar vencer — sobretudo se Cury continuar crescendo — teremos um forte indício para avaliar essa hipótese.

A questão desta eleição talvez não seja apenas quem chegará ao Planalto.

É também: até onde a elite brasileira — e a grande mídia que dela faz parte — está disposta a ir para impedir um pouco mais de justiça social?

E, se não conseguir impedir: até onde pretende mandar no presidente que sair das urnas?


Ilustração da capa: Entre a pressão da grande mídia e o avanço de Flávio Bolsonaro, Lula caminha sob disputa que pode decidir não apenas quem governará o Brasil, mas até onde poderá avançar a justiça social. Crédito: Ilustração produzida por inteligência artificial para a Rede Estação Democracia.

Sobre o autor

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Benedito Tadeu César
Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), jornalista e diretor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED - Rede Estação Democracia.

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