As “Big Techs” como empreendimento militar

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Por WAGNER SOUSA*

                As grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos, que lideram atualmente o ranking das maiores empresas do mundo, tem estado em muita evidência neste início do segundo governo de Donald Trump, seja devido ao papel de Elon Musk, homem mais rico do mundo, e que participa diretamente da administração republicana liderando o “DOGE”, sigla em inglês para “Departamento de Eficiência Governamental”, órgão que vem causando muita controvérsia e questionamentos acerca da legalidade de suas ações, ao fechar agências governamentais (que demandariam autorização do Congresso) ou demitir servidores (em grande número), seja pela adesão de um nome como Mark Zuckerberg, da Meta, que “adaptou” seu entendimento de “liberdade de expressão” para o da extrema-direita trumpista ou pelo alinhamento das demais gigantes do setor ao presidente.

                O acirramento da competição econômica e tecnológica com a China deixou explícita essa associação entre “Estado e Mercado”, que sempre existiu nesta área da alta tecnologia. Até mais do que isso: esta área da alta tecnologia que engendrou o surgimento destas megaempresas privadas conhecidas como “Big Techs” teve o seu início numa iniciativa do Pentágono e os produtos desenvolvidos por estas empresas (e muitas outras) abrangem utilizações militares e civis. O antropólogo Roberto J. González, da Universidade Estadual de San José, nos EUA, diz sobre a questão, em texto traduzido pelo site Outras Palavras

“Por diversas razões, é impossível entender totalmente as Forças Armadas dos EUA hoje sem uma análise de suas profundas conexões com a indústria de tecnologia. As interconexões entre os mundos da tecnologia de rede e da defesa remontam a mais de 50 anos. Por exemplo, desde o início dos anos 1960, a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada (DARPA) do Departamento de Defesa desempenhou um papel crucial no financiamento de pesquisas de computador que levaram à ARPANET, a precursora da internet atual. O desenvolvimento inicial do Vale do Silício foi financiado em grande parte por agências de defesa e inteligência, e o Pentágono investiu pesadamente em empresas de tecnologia durante toda a Guerra Fria. (…) A divisão entre o Pentágono e o Vale do Silício é basicamente um mito – nunca existiu de verdade, pelo menos não de maneira significativa. As diferenças são superficiais e estilísticas. Durante quase um século, a economia e a cultura regionais foram moldadas pelo que se poderia chamar de complexo militar-industrial-universitário. Durante a Guerra Fria, o Pentágono ajudou a construir a indústria de computadores concedendo contratos militares em áreas como eletrônica de micro-ondas, produção de mísseis e satélites e pesquisa de semicondutores. O historiador Thomas Heinrich nos lembra que as representações populares de “inventores-empresários engenhosos e capitalistas de risco [que] forjaram uma economia dinâmica e de alta tecnologia livre da mão pesada do governo” desviam a atenção do papel crucial do “financiamento do Pentágono para pesquisa e desenvolvimento [que] ajudou lançar as bases tecnológicas para uma nova geração de startups” no século XXI.”

As “Big Techs” integram um sistema de segurança e projeção do poder global norte-americano, que foram, cada vez mais se tornando uma infraestrutura essencial da vida contemporânea. Proteger as demais infraestruturas essenciais (transporte público, aeroportos, eletricidade, bancos, agricultura, etc.) de ataques baseados em Inteligência Artificial se tornou crucial. O ex-CEO do Google, Eric Schmidt, passou a defender, há mais de uma década, que estas grandes empresas de tecnologia tivessem assento no Conselho de Segurança dos Estados Unidos.  O então presidente da Microsoft, Brad Smith, em 2017, como mencionado em “The Information Trade – How Big Tech conquers countries, challenges our rights, aind transforms our world”, da professora da Universidade Columbia em Nova York, Alexis Wichowski, pesquisadora das relações entre tecnologia, governo e poder, disse que o “ciberespaço é o novo campo de batalha” e que “o potencial de novas guerras migrou da terra para o mar, depois para o ar e finalmente para o ciberespaço” para concluir: “agora o nosso foco é em Defesa.” 

Contudo, é preciso ter em consideração que este novo tipo de organização nas quais se transformaram estas grandes empresas, e que dão às mesmas um enorme poder econômico (na forma de um praticamente oligopólio global, que não abrange a China, detentora de “suas próprias Big Techs”), vem se traduzindo também em poder político, integrando um vasto sistema de coleta de dados e influência mundial ( este opera também pelas operações de sabotagem cibernética) norte-americano. O Estado, conforme se viu nas revelações do ex-analista da CIA e ex- contratado da NSA, duas das principais agências dentre as 17 da “Comunidade de Inteligência” dos EUA, Edward Snowden, faz esta coleta massiva de informações com a invasão da privacidade de pessoas em todo o mundo, através, em grande medida, das “Big Techs”. E que, conforme trecho da obra da professora Wichowski, ganha novos contornos e reforça tanto o poder econômico das empresas como a capacidade estatal estadunidense de obter informações e exercer sua influência pelo mundo:   

“É difícil se pensar nessa nova indústria global como tradicional em qualquer sentido, como um punhado de empresas “tradicionais” que tem sofrido uma metamorfose. E da mesma forma que não continuamos chamando as borboletas de “lagartas” depois que elas se transformam, estas empresas específicas – Amazon, Apple, Facebook, Google, Microsoft e Tesla se transformaram em algo totalmente diferente da “indústria de tecnologia”. Elas não apenas fabricam produtos e oferecem serviços. Eles estão indo além de suas tecnologias principais para se afirmarem em nosso mundo físico. Eles estão inserindo serviços digitais em nossos ambientes vividos de maneiras invisíveis e, às vezes, desconhecidas para nós. E, o mais importante, exercem uma influência formidável sobre a forma como o nosso mundo funciona a nível individual, social e geopolítico. Essas empresas de tecnologia são diferentes de tudo que já encontramos antes”.

E o “novo front” é a Inteligência Artificial, na qual a China se apresenta como sério competidor e que, segundo vários especialistas, já é a principal batalha na guerra tecnológica pela supremacia geopolítica no futuro.


Publicado originalmente em Observatório Internacional do Século XXI.

*Wagner Souza é Mestre em Sociologia pela UFPR, Doutor em Economia Política Internacional pela UFRJ. Pós-Doutorando em Economia Política Internacional pela UFRJ. Idealizador e Editor do site América Latina www.americalatina.net.br. Colaborador do boletim Observatório do Século XXI.

Foto da capa : Anđela Janković

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