Antropologia das Piscinas

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Texto do seu parágrafo (1)

Por JORGE BARCELLOS*

“Era uma esplêndida residência na Lagoa Rodrigo de Freitas, cercada de jardins e tendo ao lado uma bela piscina. Pena que a favela, com seus barracos grotescos se alastrando pela encosta do morro, comprometesse tanto a paisagem.” Fernando Sabino,Piscina, em A mulher do vizinho, Nova Fronteira, 1976.

E eis que estamos no verão. É normal que nós, colunistas em férias, dediquemos algumas páginas ao que fazemos nesse período na praia. VICENTE RAUBER nos brindou com seu artigo no último dia 30 de janeiro sobre as ilhas Galápagos, mas eu, sem poder ir até elas e conhecer suas praias, preciso me contentar com o que posso arranjar em Cidreira. Eu sei que sou um privilegiado, pois, como o leitor já sabe de meus ensaios em RED, eu tenho também uma casa de praia com… piscina! Digo isso pois é a versão atualizada aos nossos tempos quentes de capitalismo individualista da máxima de Martin Luther King, “Eu tenho um sonho”. Não é um grande sonho, é verdade. Minha piscina de fibra de vidro tem 4mx2m, o que hoje é considerado menor que as pequenas, as de 5mx2m. Então a minha é menor que a média menor do mercado, onde podem chegar a 12mx4,5m ou as de alvenaria, como a de um empresário anônimo de Cuiabá, de 100mx70m. Eu tinha o sonho de ter uma desde o dia em que, na infância, descobri que, de alguma forma, o mar podia ser privatizado pelos ricos, e isso revoltava a criança pobre que viria um dia a ser o adulto de esquerda que eu sou agora.

Sonho de criança

Eu era criança quando ia para a Praia de Alegria, em Guaíba. Eu era bem pequeno, com uns oito ou nove anos, e pegava o ônibus que saía do centro de Porto Alegre com minha mãe e ele demorava para chegar à praia. Eu ainda passava por debaixo da roleta, e, carregando uma sacola com nossas coisas, íamos de pé enquanto o ônibus balançava e passava pelas casas dos ricos na orla. Eu olhava pela janela do ônibus e podia ver aquelas residências luxuosas onde havia outra forma particular de divertir-se com a água que não era passando horas atrás dela em um ônibus lotado procurando-a em alguma praia distante. Que ela podia estar bem ali, adiante de alguns passos, na própria casa: era a piscina.

É que eu jamais poderia imaginar uma no terreno dos fundos da casa onde então morava, a peça de madeira que habitava na infância. Era no fundo de um pátio de onde eu olhava o chão batido por entre as frestas do piso e que possuía uma parreira de uvas verdes. Água? Só de um chuveiro velho mal instalado num banheiro pequeno. Não, piscina como aquelas não eram coisas de gente pobre, eu pensava. Não me recordo de ir às piscinas comunitárias mantidas pela Prefeitura, não sei se existiam na minha infância e nem quando fui pela primeira vez numa. Eu me lembro da adolescência de ter o que hoje considero uma espécie de anúncio de que teria uma casa em Cidreira. É que eu ia nesta praia com amigos de longa data, meu amigo explorador que conheci no ensino médio e minha amiga do sorriso extenso, que conheci no final do ensino fundamental.

Ficávamos numa casa da mãe dela, grande e de madeira, perto da Padaria Nivi, e eu me lembro que era grande e que tinha muitos quartos. Um córrego passava ao lado, não o esgoto que há hoje. Não tinha piscina, mas tinha o mar bem em frente da casa. Acordávamos de manhã e ficávamos a olhar o mar da janela para depois irmos brincar, seja na água ou nas dunas. Eu ficava ali flutuando naquele mar onde tudo era aberto e silencioso. Essa imagem nunca esqueci. Era uma área descampada onde hoje há muitas casas, na passagem dos anos 70 para os 80.   Tempos depois, talvez porque, chegando à idade adulta e me tornando servidor público, pude aproveitar os benefícios da minha Associação de Servidores que possuía uma colônia de férias em Tramandaí. Ali eu pude aproveitar a sua piscina. 

A piscina já foi um bem de luxo

Olho minha pequena piscina na praia de Cidreira (bom, se podemos chamar Cidreira de praia, será objeto de outro ensaio qualquer dia desses) e penso no ensaio de André Gorz, A ideologia social do carro a motor (disponível em https://bibliotecaanarquista.org/library/andre-gorz-a-ideologia-social-do-carro-a-motor). Gorz diz que osautomóveis são como castelos ou mansões, “bens luxuosos inventados para o prazer exclusivo de uma minoria muito rica, os quais, em concepção e natureza, nunca foram direcionados para o povo. Ao contrário do aspirador de pó, do rádio ou da bicicleta, que retêm seu valor de uso quando todos possuem um, o carro, como uma mansão à beira do mar, é somente desejável e útil a partir do momento em que as massas não têm uma.”  

Penso nisso quando lembro que as piscinas que conheci no passado eram artigos de luxo de uma elite: lembro a da casa do cantor Teixeirinha, nos altos do bairro da Glória, que passava na frente quando ia fazer a entrevista para o livro Percília, história de uma vida, que escrevi com Flavio Krawckyzk e Paulo Muniz (in memorian) sobre uma ex-escrava que morava naquela região e publicado pela Prefeitura de Porto Alegre. Ela, em sua casa modesta, nunca vira aquela piscina; o cantor, em sua mansão numa chácara, possuía uma piscina gigante em formato de cuia de chimarrão (diz a lenda que era para ser um violão, mas saiu diferente) e nunca conheceu Percília.

Piscinas são símbolos de status. A piscina de Teixeirinha já virou um grande negócio para o empreendimento imobiliário planejado para o local: no terreno de 11 mil metros quadrados, serão construídas 7 torres com 280 apartamentos até 2028. Vejo propagandas de Zero Hora de lançamentos de prédios na orla de Porto Alegre que chamam a atenção por oferecerem “piscinas de borda infinita.” Volto a Gorz: “A essência do luxo é a de que ele não pode ser democratizado. Se todos puderem ter o luxo, ninguém obtém as vantagens dele. Do contrário, todos logram, enganam e frustram os demais, e é logrado, enganado e frustrado por sua vez.”

Serei julgado por ter uma piscina?

Penso se serei um dia julgado na minha luta contra o capitalismo no Juízo Final Socialista por ter uma piscina modesta. Quem eu penso que sou?   Primeiro, pelo evidente desperdício de água, já que há um mar a seis quadras de minha residência. Mas eu tenho uma amiga em Xangri-lá que mora a uma quadra do mar e tem piscina. Por que não? Segundo porque dois bilhões de pessoas no mundo não têm água potável e eu aqui em Cidreira tenho uma piscina de 12 mil litros. Confesso que, se eu pudesse redistribuir a água de minha piscina para os que não têm, o faria. O problema é a logística: não tenho como levar água de minha piscina de Cidreira para a África Subsaariana, mesmo que, quando adolescente na casa da mãe de minha amiga, ficasse imaginando do outro lado do mar aquele continente.

Se, no capitalismo, ter uma piscina é justo porque eu pago por ela, eu imaginava um mundo socialista onde, ou todos teriam a sua piscina individual e, portanto, acesso aos bens de lazer, ou todos teriam acesso a piscinas coletivas, exatamente como a prefeitura faz através dos Centros Comunitários. Mas a culpa, de fato, não era minha, pois com o calor infernal de “Forno Alegre”, como ironicamente chamamos a capital no verão, que nos obriga a buscar o mar nessa temporada para nos refrescarmos: não é só lazer, é questão de direito à saúde. Mas existe um detalhe a mais que me faz recusar a ideia de socializar a piscina e me leva a praticar uma espécie de antropologia das piscinas. Nesse momento meu tom se distancia da crônica de Gerchman e desculpe-me o leitor se posso parecer antissocial por isso.  Talvez eu seja.

É impossível socializar piscinas

O leitor sabe que sou de esquerda. Confesso que, de tudo que o socialismo oferece às pessoas e que defendo, como uma sociedade igualitária, acesso universal às necessidades básicas como saúde, educação e moradia, diminuição das desigualdades extremas por meio da propriedade coletiva dos meios de produção etc., a saída socialista para piscinas é a que menos me atrai. Não pela doutrina que defendo, mas pela natureza das… pessoas! Explico. Essa forma coletiva de uso, espelho da piscina coletivista, já está em prática em nossas piscinas ou praias, onde tudo é de todos, o que, para mim, é um filme de terror.

Eu olho a piscina de meus vizinhos no final de semana. Particularmente em Cidreira, com o sol escaldante de uma tarde de verão, é comum os familiares virem em hordas como se fosse uma invasão viking vinda não da Escandinávia, mas da grande Porto Alegre, para ocupar a piscina dos parentes tidos como mais “privilegiados” – como se ter uma casa em Cidreira fosse isso. Então, aquelas relíquias esquecidas de piscinas de plástico MOR, com suas ferragens enferrujadas e plásticos mofados, guardadas em algum lugar das garagens, mesmo nas casas das ruas mais próximas da praia, são enchidas, ou as piscinas como a minha, de fibra de vidro, com água turva, recebem a primeira manutenção do ano e começam a ser preparadas para as famílias. Eu sei disso porque fui a uma ferragem na praia de Salinas, contínua à Cidreira, e vi um senhor idoso perguntando como se limpa uma piscina. O senhor olhava com olhos duvidosos e pergunta: “Mas limpa mesmo?”. “Sim, é só jogar na água no dia anterior e aguardar”, diz a vendedora. Ele conta sua história: “É que quando era jovem, eu ia à praia; na meia-idade, fiz a piscina e agora nem sei mais como cuidar. Hoje não vou nem à praia nem à piscina. Eu só estou preocupado porque os parentes vão vir”, diz o idoso, dando de ombros.

Você vê isso por toda a praia. As camadas populares chegam em ondas, primeiro na sexta-feira à tarde, depois no sábado de manhã, como se fosse uma horda faminta por água saída de Porto Alegre; mães exaustas por uma semana de trabalho carregando crianças no colo, homens de regata suja carregando coolers velhos, adolescentes com suas caixas de som e celulares barulhentos. Todos vão para a beira das piscinas domésticas com seu som alto, dando gargalhadas. Ninguém pede permissão para falar alto, simplesmente invadem sua zona sonora de conforto com seu batidão. A água recém-tratada cheira a cloro, a mesma que no dia anterior tinha algas viscosas. Se você olhar Cidreira do alto pela câmera de um drone, irá ver lado a lado, em cada terreno, essas piscinas se sobrepondo à paisagem, alvos ideais num filme de guerra ou invasão alienígena. Você verá essa massa palpitante, que já era característica das areias das praias, agora nas piscinas das residências. Elas ouvem música alta, muito alta, e como são muitas, estão se roçando umas nas outras nas piscinas que terminam ficando apertadas. É ou não infernal?

Minha piscina, meu templo

É o contrário do que eu e minha esposa fazemos quando entramos em nossa piscina. Quando eu vou à piscina, é como se estivesse no meu templo tibetano particular. Em primeiro lugar, só há silêncio. Não levo rádio ou caixas de som, permaneço na mais absoluta quietude. Estou na solidão serena da piscina e posso ver a água refletindo o céu sem nuvens: é o templo de minha meditação. Sou apenas um monge errante aquático, um aspirante a intelectual que quer ficar longe da agitação das cidades e do barulho produzido por outros seres humanos. Eu preciso de silêncio para ler, o mesmo silêncio do adolescente de quarenta anos atrás na mesma praia, com os amigos flutuando calados nas ondas do mar. Na piscina, hoje, somente com o calção de banho e meu desejo de silêncio, flutuo naquela diminuta vastidão azul de 4mx2m que acolhe o meu corpo como o vazio do céu celestial. Se você acredita em um, talvez seja porque dá a sensação de que acolhe o seu espírito. Fico na posição Buda-Pererê, uma perna cruzada como a da posição de Buda, e outra esticada no fundo, como de Saci-Pererê. Pronto, inventei um conceito próprio ao hibridismo cultural, exatamente como propõe Nestor Garcia Canclini em Culturas Híbridas (Edusp, 2019).

Olho essa experiência de estar em silêncio em minha piscina e sei que há três formas de interpretá-la – há uma outra óbvia, a de que eu sou um chato que só quer silêncio para ler em paz na praia, um lugar onde isso é impossível no verão. A primeira é a da análise fenomenológica do uso de piscinas. Nela eu sinto a experiência vivida do meu corpo em relação à água, ao espaço em que estou, ao tempo que passo debaixo d’água, à maneira de Merleau-Ponty e Heidegger. Quando mergulho na piscina, meu corpo sente a resistência da água, a suspensão da gravidade, mas não só dela: é a própria vida cotidiana que é suspensa, não se trata de meu deslocamento físico – afinal, é apenas uma piscina 4mx2m; é uma modificação da percepção habitual do mundo ao meu redor. A água azul marca um espaço lúdico e único. A água me isola.

A segunda abordagem das piscinas é a marxista. Eu sei que, de alguma forma, estou reproduzindo a infraestrutura do capitalismo, que a aquisição desse pequeno lazer pessoal que me permito após 37 anos de trabalho na aposentadoria significa também, que em algum lugar, reproduzo a alienação de algum trabalhador. É como  como propõe o chamado “efeito borboleta”, onde uma pequena mudança num lugar pode gerar grandes consequências noutro: construí só uma pequena piscina modesta para mim, mas quando a fiz, talvez eu tenha produzido uma grande tragédia para a classe trabalhadora em outro lugar. Minha pretensão de acúmulo burguês – a piscina – é a minha forma minúscula de ostentação, mesmo que seja incomparável à piscina do Brasil Beach, localizada em Cuiabá, com seus 47 milhões de litros – a minha tem 12 mil. Eu relaxo em meu pequeno quintal privado, mas em algum lugar eu sei que participei de algum processo de alienação. Já relatei em RED a culpa que senti pelo operário que trabalhou na sua construção. O meu mergulho na piscina adia mais uma vez a revolução.    

A antropologia das piscinas.

Eu prefiro a abordagem antropológica da piscina. Ela é muito mais condescendente comigo. É o lugar de minha etnologia da solidão, nos termos de Marc Augé. Eu busco na experiência da piscina de minha casa de praia a solidão relatada pelo autor em sua obra Não-Lugares: Introdução a uma Antropologia da Supermodernidade (1992). Esse excesso de tempo, de lugares, de atividades e de redes sociais de nosso tempo nos aprisiona em uma solidão coletiva, a dos aparelhos celulares, também definida nas obras do filósofo coreano Byung-Chul Han. Mas Augé quer que nos libertemos dessa solidão coletiva; eu, ao contrário, quero gozar da verdadeira solidão individual como a que vivia na adolescência. Por isso gosto de Cidreira no inverno: não tem piscina, é claro, mas tem silêncio, muito silêncio.

O problema é que, nos rituais comuns e pagãos atuais, ir à piscina é o ritual regado a muita cerveja, música e barulho. Por isso odeio o modo como as massas a usam na atualidade. No meu ritual da água particular, não. Eu mergulho devagar, em absoluto silêncio, e sinto levemente a onda que o vento faz na superfície da água. Eu sou, com os braços abertos, como a figura do homem vitruviano, a icônica figura do Renascimento criada por Leonardo da Vinci por volta de 1490. Eu estou na piscina como ele está com os braços e pernas abertas: na piscina retangular eu faço um círculo e um quadrado. Como aquela figura, eu me sinto em harmonia na geometria daquela que, se não é o universo, ao menos representa-o naquele momento, a minha piscina.   Se o homem é a medida de todas as coisas, a piscina de uso individual para mim é a representação ideal da única coisa que o mercado capitalista não me oferece: paz de espírito.

A piscina como nirvana

​Eu mergulho devagar e, nessa antropologia da piscina, nessa posição Buda-Pererê, no seu centro, sou como uma mandala que se dissolve em seu próprio silêncio. Há barulho no meu entorno, é verdade, mas eu o sinto somente ao longe, exatamente como eu queria estar nos dias em que não estou na piscina. O coração se desacelera, o pensamento é apenas uma nuvem, pois apenas respiro. É o mais próximo que posso chegar do nirvana que, no budismo, é um estado supremo de libertação, fim de todo o sofrimento, que na praia para um aposentado é: ser levantado às 6h da manhã por Lola, de quem já falei em RED, para alimentá-la, recolher suas fezes do pátio, limpar a própria piscina, medindo seus teores de cloro e PH, fazer as tarefas da manhã, arrumar a biblioteca, ler e escrever mais uma vez e tudo mais. Quem disse que a vida de aposentado é um mundo de liberdade para fazer nada? Você continua ativo, e ainda que novas tarefas surjam, você ainda sonha com a possibilidade de apagar-se por alguns momentos de tudo, inclusive das coisas que faz e gosta como escrever, para estar em paz absoluta. Buda atingiu o nirvana aos 35 anos sob a árvore Bodhi, na Índia; eu atingi o nirvana aos 62 anos na piscina 4mx2m, em Cidreira. Ambos perseguimos a procura da paz interior profunda.

Na piscina, nada perturba meu nirvana aquático e às vezes ouço meu próprio batimento cardíaco no ouvido, certamente uma espécie de mantra universal do meu ser. A piscina é minha câmara de quietude, lugar de libertação dos apegos do mundo barulhento de meus vizinhos, mas principalmente, uma simulação de aproximação ao útero primordial: meu eu permanece imóvel, estou ali fluindo com a água, já que ela é morna e envolve o meu corpo como uma espécie de líquido amniótico que reduz a gravidade e induz o relaxamento. Mas meu instinto político me trai e penso: “essa sensação de conforto deveria ser o objetivo da democracia, não?” Se essa metáfora da regressão ao útero materno tem algum significado, é o de uma espécie de purificação necessária. Raios, eu não consigo me alienar, esvaziar meu pensamento. Penso de novo: “não é isso que nossa democracia precisa, essa purificação das tendências fascistas que estão cada vez mais emergindo, seja na violência contra a mulher, na policial e na contra os próprios animais, como o recente caso de Orelha?” Voltar à água de uma piscina como quem volta ao útero materno é como voltar a uma matriz originária da paz que é fonte de vida e transformação… exatamente como queríamos….” voltar aos tempos em que a esquerda estava no poder com seu projeto e ações” –  de novo, diabos, o pensamento me trai. Tento me distanciar do mundo, procuro um vazio de pensamento, mas a crítica do mundo não sai de mim. Que posso fazer? Sou de esquerda. Logo vem a ideia “o que é a experiência fascista atual se não nosso próprio afogamento, esse desequilíbrio, não do inconsciente, mas das políticas do mundo real?”. E eu que queria, justamente na minha piscina, só um instante de …não pensar! 

Os problemas do mundo invadem a mente  

Quero esvaziar minha mente, mas o mundo torna a emergir nela, mesmo na piscina. Eu penso que isso é porque nosso mundo está indo de mal a pior. Na praia de Cidreira de minha adolescência, os problemas do mundo eram menores, e eu penso – mas posso estar errado – que ir à praia era uma atitude comum, sem o barulho dos rádios atuais e toda a algazarra, que a praia era a mesma para ricos e pobres, praia democrática livre do mercado, do inferno das reservas de areia que fazem comerciantes ou hotéis hoje de nossa faixa costeira. Diz Gorz que os americanos viveram seu mito do automóvel: eu vivo meu mito da piscina. Só nela eu escapo ao capital. Os americanos viveram veículos de um funcionamento desconhecido para eles; eu vivo a experiência de um gozo da piscina desconhecido para mim.

Para mim, a paixão pelo automóvel é, nos termos de Gorz, como a minha paixão pela piscina: “parece conferir aos seus proprietários liberdade ilimitada, permitindo que viajem quando e aonde quiserem em uma velocidade igual ou maior que a do trem.” Mas, de fato, esta aparência de independência tem por debaixo uma dependência radical. Ao contrário do cavaleiro, do carroceiro ou do ciclista, o motorista iria depender para suprir seu carro de combustível, assim como para o menor tipo de reparo, dos negociantes e dos especialistas em motores, lubrificação e ignição, e da possibilidade de troca das peças. Ao contrário de todos os proprietários anteriores de meios de locomoção, o relacionamento do motorista com seu veículo viria a ser aquele do usuário e consumidor – e não do proprietário e do mestre. Este veículo, em outras palavras, obrigaria o proprietário a consumir e usar uma gama de serviços comerciais e produtos industriais que somente poderiam ser fornecidos por um terceiro. A independência aparente do proprietário do automóvel apenas escondia a dependência radical real.”

Apenas um lugar para relaxar. SQN

Olho a piscina que me promete a paz interior como a liberdade ilimitada era prometida aos proprietários de automóveis. Ao contrário deles, eu não quero sair do lugar, sequer pretendo nadar, desejo apenas ficar parado na água vivendo esse universo de sensações sem preocupações que o líquido dá; mas eu, como o motorista, ainda dependo de serviços que, se não são uma compulsão radical como a do carro, ainda assim incomoda um pouco. É que você precisa deixar, como aquele senhor que vi na loja de ferragens, a piscina pronta para seus convidados; é a famosa maldição do objeto, de que fala o filósofo Jean Baudrillard: você se torna escravo dela, como o homem é do carro: há água para limpar, produtos para comprar para preservar a água. Meu filho reclamou de algo que não notei e nem dei importância: uma lâmpada de LED queimada. E lá vou eu catar o vendedor para pedir sua substituição. Ao contrário do meu relacionamento com o mar, que está a seis quadras de distância, que nada me cobra além de minha presença, meu relacionamento com minha piscina termina sendo da natureza do consumidor, e não da fruição simples e pura que, como no templo budista que a piscina me realiza, podia ser. E assim, na linha de Gorz, descubro que a piscina, como os carros, me obrigam a também a consumir e usar uma gama de serviços e produtos que só podem ser fornecidos por terceiros, ao contrário do… mar!

Nesse sentido, como diz Gorz, a independência que minha piscina me possibilita apenas esconde minha dependência dela. Eu sei que poderia combater esse capitalismo das piscinas se tivesse refreado o desejo de ter a minha praia particular que a piscina representa também, mas seria preciso bastante persuasão: quer maior incentivo para uma piscina em casa do que a praia de Cidreira lotada, com vendedores lhe importunando, barulho de som alto, pessoas se atropelando umas às outras na praia enquanto sob o guarda-sol você tenta ler um exemplar de O coração de Heidegger: Sobre o conceito de tonalidade afetiva em Martin Heidegger (Vozes, 2024) de Byung-Chul Han? Por isso, corri para comprar uma. De fato, o que a indústria das piscinas me ofereceu foi a certeza de que, como a burguesia, eu também tenho o privilégio de ter uma piscina como qualquer um. Diria Zizek: “não se preocupe, você trabalhou 37 anos para ter uma. Você ainda poderá fazer a revolução”, penso aos risos.

Sobre piscinas e carros

Ter uma piscina é diferente de ter um carro porque quanto mais carros são construídos, mais estradas, pedágios e congestionamentos surgem. Com a piscina não. Como ela não sai do lugar, ela não concorre com as demais, exceto por uma coisa, um bem valioso e caro: a água. As cidades terão mais carros e mais problemas; mas mais piscinas não trazem problemas, exceto se faltar água.   Ao contrário, a piscina é sempre a solução quando falta água em Cidreira, o que não é incomum. “Se falta água, pega da piscina”, disse-me o vizinho. Quer dizer, ela se torna uma espécie de poupança para os tempos de crise de falta de água, o contrário de Waterworld, o mundo de Kevin Costner sem terra. Somos paralisados pelos carros, mas as piscinas agilizam nossa vida. Elas não atrapalham a vida na praia como os carros na cidade, ao contrário, auxiliam. A piada de Gorz é: “Se o carro deve prevalecer, há ainda uma solução: livre-se das cidades. Isto é, enfileire-os por centenas de milhas ao longo de enormes estradas, fazendo delas subúrbios de estradas.” Se a piscina prevalecer, terei ao menos Cidreira de minha adolescência de volta pelo esvaziamento do excesso de população das areias da praia. Fim das multidões que ali se acumulam, fim da poluição na areia na passagem do ano.

As cidades, diz Gorz, se tornaram um inferno por causa dos automóveis. Não é exatamente o mesmo que acontece nas praias quando se tornam o destino das massas no verão? Mas se as multidões se dividirem entre a praia e as piscinas? Olho e vejo esses condomínios e seus lagos coletivos e piscinas individuais que estão sendo construídos na praia, mas longe dela. Isso faz algum sentido para você? Para mim, não. Penso que tanto a praia como a cidade já foram consideradas como uma “maravilha”, os únicos lugares que valia a pena viver. Mas eu não quero escapar da cidade para o campo, como sugere o autor como reversão desse processo. A praia me basta, pelo menos quando está…vazia! Eu posso dizer isso porque sou privilegiado, sou um aposentado. Posso ficar na piscina  até cansar ou na praia vazia no inverso, se quiser.

 Talvez as piscinas nos devolvam as praias

Se o carro e a piscina nasceram como artigos de luxo e marcas de privilégio, ao menos esta última teve um destino menos trágico. É que acontece algo com os carros que não acontece com as piscinas. Diz Gorz que “após ter matado a cidade, o carro está matando o carro. Prometendo a todos poderem andar mais rapidamente, a indústria do automóvel termina com o resultado previsível de que todos têm que andar tão lentamente quanto o mais lento, em uma velocidade determinada pelas leis simples da dinâmica dos fluidos.” Olho ao redor e constato que nada disso acontece com as piscinas. Elas não estão numa corrida pela melhor. Elas atingiram um patamar de modelos estabilizados, onde a minha é um exemplo. Nos termos de Paul Virilio, a invenção da piscina foi também a invenção, não da morte por afogamento doméstico na água, mas da morte da própria praia como experiência. Ela promete a experiência da água sem os problemas que o excesso de população da praia provoca, mas a morte da praia é diferente porque ela continua lá. Eu é que deixo de ir vê-la. Pelo menos no verão. Lembro dos primeiros tempos em que passeava pela praia de Cidreira e encontrava o folclorista Paixão Cortes. Fui à sua casa a duas quadras do mar e ele me dizia que preferia sempre caminhar pela praia no final da tarde porque era quando estava quase vazia.

Assim, a conclusão é que, diferente dos carros, a piscina não é um meio de transporte, a não ser que você considere seus sonhos como um deles: se você sonha como eu em viver os instantes de paz interior que uma piscina proporciona, talvez você sonhe em se transportar para um mundo diferente e, então, a piscina será seu meio de transporte, sua inspiração. Se as praias esvaziarem pelo fato de que agora muitos moradores têm piscinas, tanto melhor. Talvez eu possa voltar à Cidreira de meus anos de juventude. Feliz é Lola, minha cachorra, que caiu sem querer na minha piscina e que produziu uma cena que talvez resuma tudo. Ela caiu na piscina porque assustou-se com o fiscal da CEEE. Caiu sem querer, mas quando vi seu olhar e sorriso dentro da água enquanto dava suas primeiras braçadas, digo, nadava “cãozinho” ou “doggy paddle”, eu via que ela descobria um outro mundo, exatamente como eu. “Um outro mundo é possível”, diria meu espírito de esquerda. É preciso se deixar tomar pela surpresa que até uma piscina 4mx2m pode produzir.


*Jorge Barcellos é graduado em História (IFCH/UFRGS) com Mestrado e Doutorado em Educação (PPGEDU/UFRGS). Entre 1997 e 2022 desenvolveu o projeto Educação para Cidadania da Câmara Municipal. É autor de 21  livros disponibilizados gratuitamente em seu site jorgebarcellos.pro.br. Servidor público aposentado, presta serviços de consultoria editorial e ação educativa para escolas e instituições. É casado com a socióloga Denise Barcellos e tem um filho, o advogado Eduardo Machado. http://lattes.cnpq.br/5729306431041524

Foto de capa: Meta IA

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