Nos últimos anos o agronegócio brasileiro passou a ser apresentado como o grande motor da economia nacional.
Incansável.
Eficiente.
Capaz de puxar o país inteiro.
Quando a indústria hesita, ele avança.
Quando o consumo vacila, ele exporta.
Quando o PIB perde fôlego, alguém lembra das colheitadeiras.
Safras recordes sucedem safras recordes.
Navios deixam os portos carregados.
Grãos atravessam oceanos enquanto gráficos sobem com disciplina agrícola.
O motor gira.
Máquinas maiores percorrem áreas cada vez mais extensas.
Satélites observam lavouras.
Mercados futuros acompanham cada nuvem no horizonte.
O desempenho impressiona.
Mas motores potentes raramente funcionam sozinhos.
Por trás da potência existe uma engenharia silenciosa.
Crédito rural.
Seguro agrícola.
Infraestrutura.
Pesquisa pública acumulada por décadas.
A lavoura moderna cresce sobre uma base institucional que raramente aparece na fotografia da prosperidade.
No debate público, o motor costuma surgir isolado — como se funcionasse por virtude própria.
Quase nunca se fala do combustível.
Nos anos de safra recorde, o mérito pertence à eficiência.
Tecnologia.
Gestão.
Empreendedorismo.
Fracassos são atribuídos à mão pesada de São Pedro.
Os sucessos, naturalmente, pertencem à eficiência.
Como todo motor turbinado a esteroides, o agronegócio brasileiro impressiona pela potência — e pela dependência de estímulos permanentes.
Quando o crédito flui, a logística funciona e os preços internacionais ajudam, a rotação aumenta.
Mas basta que uma engrenagem falhe — câmbio, clima, financiamento ou estradas — para que o ritmo diminua.
Motores de alta potência têm essa característica.
Funcionam melhor quando toda a engrenagem trabalha junta.
Estado.
Ciência.
Infraestrutura.
Produtores.
Sem isso, até os motores mais fortes começam a perder rotação.
E então descobrimos algo que a retórica costuma esquecer: a potência do campo não nasce apenas da comunhão entre homem e terra.
Nasce também do crédito, da ciência pública e das instituições que a sustentam.
Foto de capa: : Nacho Doce/Reuters





