Quem produz a comida do Brasil? | Por Luiz Portinho

A disputa pela terra também é uma disputa sobre quem produz e para quem se produz.
Publicado em 27 de agosto de 2026 às 8:00
Editado em 26 de agosto de 2026 às 14:54

O MST, o agronegócio e a luta de classes pela terra

“O Brasil possui terra, tecnologia, conhecimento e trabalhadores capazes de produzir comida em abundância.

A questão decisiva é quem controla essa riqueza e a serviço de qual classe ela será colocada.

A luta pela reforma agrária faz parte dessa disputa.”

Quando se fala no campo brasileiro, a imagem dominante é a do agronegócio: colheitadeiras gigantescas, plantações que parecem não ter fim, silos, caminhões, portos, tecnologia de ponta e recordes sucessivos de produção e exportação.

Não se trata de uma imagem falsa. O Brasil tornou-se uma potência agrícola mundial, entre os maiores produtores de soja, milho, carne bovina, açúcar e café.

Mas existe outra fotografia do campo brasileiro que recebe muito menos espaço: agricultores que plantam feijão, mandioca, arroz, frutas e hortaliças; famílias que produzem leite, aves e suínos; pequenos estabelecimentos, cooperativas e assentamentos da reforma agrária.

É nesse universo que se produz parte fundamental da comida que chega à mesa dos brasileiros.

A distinção importa porque produzir riqueza agrícola e produzir alimentos para abastecer a população não são necessariamente a mesma coisa. Para compreender o campo brasileiro, portanto, não basta perguntar quanto produzimos. É preciso perguntar quem trabalha, quem possui a terra e para quem se produz.

A questão agrária é, antes de tudo, uma questão de classe.

Terra é poder

A concentração da terra não é um acidente histórico. É uma das estruturas sobre as quais o Brasil foi construído.

Capitanias hereditárias, sesmarias, latifúndio e escravidão organizaram desde a colonização a produção em torno da concentração dos meios de produção e da exploração do trabalho. A abolição não foi acompanhada pela democratização da terra, e a República tampouco realizou uma reforma agrária capaz de romper essa estrutura.

O resultado atravessou os séculos. O Censo Agropecuário mostra uma enorme concentração fundiária: menos de 1% dos estabelecimentos rurais controlam uma parcela gigantesca da área agrícola, enquanto milhões de pequenos estabelecimentos dividem uma fração muito menor.

E terra não é apenas patrimônio.

Terra é meio de produção.

A modernização capitalista transformou profundamente a agricultura brasileira, incorporando máquinas, ciência e tecnologia e aumentando extraordinariamente sua produtividade. Mas não democratizou a propriedade.

O latifúndio não desapareceu. Modernizou-se.

Associou-se aos bancos, às tradings, aos fabricantes de máquinas, às empresas químicas e às cadeias internacionais de commodities. O agronegócio contemporâneo é também essa articulação entre propriedade fundiária e capital industrial, comercial e financeiro.

Quem produz a comida

É aqui que a expressão genérica “o agro” começa a esconder mais do que revela.

A agricultura empresarial de grande escala ocupa posição central nas cadeias da soja, milho, algodão, pecuária e outras commodities destinadas aos mercados interno e internacional.

Mas quando saímos da balança comercial e chegamos à mesa dos trabalhadores, encontramos outra realidade.

A agricultura familiar ocupa uma parcela minoritária da área agrícola brasileira, mas tem papel central na produção diversificada de alimentos e concentra grande parte do trabalho existente no campo.

Os censos agropecuários mostram sua presença decisiva em cadeias alimentares como mandioca, feijão, leite, aves, suínos, frutas e hortaliças.

Por isso, a pergunta que dá título a este artigo não é retórica.

A comida cotidiana do povo brasileiro depende profundamente do trabalho da agricultura familiar.

Isso não significa afirmar que o agronegócio não produza alimentos. Produz. A questão é compreender as diferentes determinações econômicas.

Enquanto grande parte da agricultura capitalista de larga escala orienta terra, crédito e investimentos para as cadeias capazes de oferecer maior rentabilidade, a agricultura familiar possui peso decisivo na produção diversificada destinada ao abastecimento da população.

Essa agricultura também está inserida no mercado e submetida às relações capitalistas. A diferença não está numa suposta virtude natural do pequeno produtor, mas na função concreta que milhões de estabelecimentos familiares desempenham na produção de alimentos, na geração de trabalho e na reprodução da vida no campo.

Quando quem não tem terra se organiza

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra surgiu em 1984, mas a contradição que o produziu é muito mais antiga: de um lado, uma das maiores concentrações fundiárias do mundo; do outro, trabalhadores privados do acesso à terra.

O MST transformou essa contradição social em organização política.

Boias-frias, meeiros, arrendatários, desempregados e famílias sem terra deixaram de aparecer apenas como indivíduos separados e passaram a agir coletivamente.

O trabalhador isolado tornou-se sujeito organizado da luta pela terra.

A classe trabalhadora rural, evidentemente, não se limita à agricultura familiar ou aos trabalhadores sem terra. Há também centenas de milhares de assalariados empregados nas grandes propriedades e cadeias agroindustriais, submetidos às contradições entre capital e trabalho que atravessam toda a economia.

A particularidade do MST foi organizar uma parcela dos trabalhadores a partir de outra contradição fundamental: a existência simultânea de enormes propriedades concentradas e de milhões de pessoas sem acesso à terra.

É isso que dá à ocupação um significado maior que o de instrumento de pressão pela criação de assentamentos. Ela coloca concretamente em discussão o caráter da propriedade da terra e sua função social.

E a luta não termina com a conquista da terra.

Ao longo de quatro décadas, assentamentos construíram cooperativas, agroindústrias, escolas, sistemas coletivos de comercialização e experiências agroecológicas. Produzem arroz, feijão, leite, café, frutas, hortaliças, sementes e alimentos processados. Cooperativas vinculadas à reforma agrária tornaram-se referência na produção de arroz orgânico.

Essas experiências não existem fora do capitalismo. Dependem de crédito, mercado, insumos e comercialização.

Mas demonstram algo fundamental: a grande propriedade capitalista não é a única forma possível de organizar a produção.

A cooperação entre trabalhadores também pode produzir alimento, conhecimento e riqueza.

Produzir para quê?

O capitalismo desenvolveu forças produtivas capazes de gerar riqueza numa escala jamais vista. Mas não resolveu uma questão fundamental: para que produzir?

Na sociedade capitalista, a produção não é organizada prioritariamente segundo as necessidades humanas. Precisa realizar valor, proporcionar retorno e reproduzir o capital investido.

Essa lógica também governa a agricultura.

Se determinada commodity oferece maior rentabilidade, terra, máquinas, crédito e investimentos tendem a ser direcionados para ela. Isso é perfeitamente racional para o capital, ainda que possa ser irracional para a sociedade.

Um alimento possui valor de uso porque satisfaz uma necessidade humana. Mas, no capitalismo, também é mercadoria.

Quem tem fome precisa do alimento.

O capital precisa realizar seu valor.

É nessa contradição que um dos maiores produtores agrícolas do planeta pode conviver com insegurança alimentar. Não falta capacidade produtiva. O problema está nas relações sociais que determinam o que será produzido e como a riqueza será distribuída.

O estado também participa da disputa

A imagem do grande produtor como empresário que prospera independentemente do Estado não resiste à história econômica brasileira.

Crédito rural, pesquisa científica, estradas, portos, seguro, política tributária, renegociação de dívidas e abertura de mercados foram fundamentais para o desenvolvimento da agricultura capitalista.

A Lei Kandir, de 1996, por exemplo, desonerou do ICMS produtos primários e semielaborados destinados à exportação, favorecendo a inserção das commodities brasileiras no mercado mundial.

O Plano Safra 2025/2026 ajuda a dimensionar essa relação: foram anunciados R$ 516,2 bilhões para a agricultura empresarial, diante de R$ 89 bilhões para a agricultura familiar.

Esses valores correspondem predominantemente a recursos disponibilizados pelo sistema de crédito rural, e não a dinheiro simplesmente entregue pelo Tesouro. Mas a diferença de escala revela a capacidade de financiamento mobilizada para cada segmento da agricultura.

O Estado não está acima das classes sociais.

No Congresso disputam-se leis; no orçamento, recursos; nos bancos públicos, crédito; na política tributária, quem paga; na reforma agrária, a própria propriedade.

A força da bancada ruralista é expressão política de um poder econômico assentado sobre a terra.

E há uma contradição reveladora: quando trabalhadores reivindicam saúde, educação, Previdência ou melhores salários, pergunta-se imediatamente quanto vai custar. Quando grandes setores econômicos reivindicam crédito, infraestrutura ou incentivos, esses recursos frequentemente são apresentados como necessários para garantir “competitividade”.

O orçamento público também é terreno da luta de classes.

Outra relação com a terra

Essa disputa alcança inclusive a relação com a natureza.

As grandes monoculturas integradas às cadeias globais operam sob permanente pressão por escala, padronização e rentabilidade e estão associadas ao uso intensivo de insumos químicos.

Em outra direção, agricultores familiares, cooperativas e assentamentos desenvolveram experiências agroecológicas baseadas na diversidade produtiva, na preservação do solo e na redução da dependência de agrotóxicos.

Não porque o pequeno produtor seja naturalmente virtuoso, mas porque diferentes formas de organizar a produção permitem estabelecer diferentes prioridades.

A agroecologia também contém, portanto, uma dimensão política: questiona a ideia de que terra, água e biodiversidade existam apenas como recursos destinados à acumulação.

A reforma agrária e o horizonte socialista

Depois de anos de paralisação durante o governo Jair Bolsonaro, a reforma agrária voltou à agenda federal com o governo Lula. Assentamentos foram retomados, programas de aquisição de alimentos receberam novo impulso e novas metas foram anunciadas para famílias acampadas.

São avanços importantes, mas ainda insuficientes diante da dimensão histórica do problema.

Porque reforma agrária não significa simplesmente distribuir lotes.

Significa alterar uma estrutura de propriedade e, portanto, uma estrutura de poder.

Chegamos então novamente à pergunta inicial.

Quem produz a comida do Brasil?

A resposta precisa aparecer com clareza: a agricultura familiar tem papel central na produção diversificada dos alimentos que abastecem cotidianamente o povo brasileiro, apesar de controlar uma parcela minoritária da terra e receber uma parcela muito menor do crédito rural que a agricultura empresarial.

O grande capital agrário produz enorme riqueza. Produz commodities, divisas e também alimentos.

Mas sua lógica fundamental não é satisfazer as necessidades alimentares da população.

É valorizar capital.

Essa diferença importa.

A fome não pergunta quanto o Brasil exportou. A família trabalhadora não coloca superávit comercial no prato. Precisa de arroz, feijão, leite, mandioca, frutas, verduras e outros alimentos chegando à mesa por um preço que seu salário permita pagar.

É aqui que a questão agrária encontra a questão socialista.

O socialismo não significa rejeitar máquinas, ciência, tecnologia ou produção em grande escala. Ao contrário: significa libertar essa extraordinária capacidade produtiva da subordinação ao lucro e colocá-la sob controle social.

As máquinas que hoje permitem cultivar milhares de hectares poderiam reduzir o trabalho necessário. A ciência poderia ampliar a produção preservando a natureza. O planejamento democrático poderia orientar recursos segundo as necessidades alimentares da população. Cooperativas poderiam ampliar formas coletivas de produção e distribuição. O aumento da produtividade poderia significar mais tempo livre e melhores condições de vida para quem trabalha.

Não precisamos escolher entre tecnologia e agricultura familiar, entre produtividade e reforma agrária.

É possível combinar ciência, mecanização, planejamento democrático, cooperativismo e agroecologia numa agricultura organizada para alimentar a sociedade.

O MST não construiu — nem poderia construir isoladamente — o socialismo dentro dos assentamentos. Mas quatro décadas de luta demonstram algo politicamente poderoso:

trabalhadores organizados podem conquistar a terra e podem organizar a produção.

A agricultura familiar, por sua vez, demonstra diariamente que aqueles que dispõem de uma parcela minoritária da terra cumprem uma função decisiva na produção da comida do país.

Essas experiências não constituem a superação das relações capitalistas. Mas ajudam a tornar visível uma possibilidade histórica maior.

Terra não precisa existir prioritariamente como ativo.

Alimento não precisa existir prioritariamente como mercadoria.

Tecnologia não precisa servir prioritariamente ao lucro.

E o trabalho humano não precisa estar subordinado à acumulação daqueles que controlam os meios de produção.

O horizonte socialista começa pela inversão dessa lógica: a produção deixa de ser comandada pela acumulação privada e passa a ser democraticamente organizada para atender às necessidades humanas.

O Brasil possui terra, tecnologia, conhecimento e trabalhadores capazes de produzir comida em abundância.

A questão decisiva é quem controla essa riqueza e a serviço de qual classe ela será colocada.

A luta pela reforma agrária faz parte dessa disputa.

E é por isso que a luta pela terra permanece profundamente atual: porque democratizar a terra significa democratizar poder e avançar na construção de uma sociedade em que quem trabalha e produz também possa decidir o que produzir, como produzir e para quem produzir.


Foto de capa: Manuelle Hernandez

Sobre o autor

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Luiz Portinho
Procurador federal aposentado, fundador e editor da Voz Trabalhadora

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