A agricultura familiar brasileira atravessa um momento histórico que ultrapassa crises conjunturais. O cenário internacional é marcado por instabilidade econômica, reconfiguração geopolítica e disputa por hegemonia tecnológica e comercial. Trata-se de uma transição estrutural que redefine cadeias produtivas, fluxos financeiros e padrões de consumo.
Foi nesse contexto que o professor Sérgio Schneider, docente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e referência em sociologia rural, realizou análise de conjuntura durante o planejamento estratégico da Superintendência do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar no Rio Grande do Sul, promovido nesta semana em Porto Alegre.
Diante de agentes territoriais e equipe técnica, Schneider caracterizou o momento como uma transição sistêmica. “Vivemos uma transição sem manual”, sintetizou. O mundo que emerge ainda não consolidou suas regras, enquanto o anterior resiste e tenta preservar suas estruturas. Ao recorrer a Antonio Gramsci, evocou a ideia de interregno, período em que velhas formas perdem estabilidade e novas ainda não se afirmaram plenamente. É nesse intervalo que tensões econômicas, sociais e políticas se intensificam.
A emergência da China como eixo central da nova dinâmica global foi apontada como fator decisivo. A reorganização das cadeias produtivas, a redefinição dos mercados e a disputa por controle tecnológico impactam diretamente países exportadores de commodities e regiões com forte base agropecuária. Para o Rio Grande do Sul, estado profundamente integrado ao comércio internacional e recentemente afetado por eventos climáticos extremos, essa transição amplia vulnerabilidades e exige respostas estratégicas.
Nesse cenário, a agricultura familiar não pode limitar-se a uma posição defensiva. A sustentabilidade econômica do setor dependerá da capacidade de inserção qualificada no mercado, da agregação de valor à produção, da diversificação de canais comerciais e do fortalecimento organizativo. O cooperativismo segue como instrumento fundamental, mas precisa ampliar sua base, inovar modelos e superar arranjos excessivamente restritivos.
Mais do que ampliar produção, o desafio é ampliar inteligência estratégica. Planejamento territorial, articulação de políticas públicas, formação técnica e leitura permanente de cenário tornam-se condições de sobrevivência e desenvolvimento.
A atividade integrou o processo de planejamento da Superintendência do MDA/RS, conduzido pelo superintendente Milton Bernardes, com participação do superintendente adjunto Vinicius Pasquotto. O convite ao professor foi realizado por Alexandre Cruz, responsável pela Assessoria de Comunicação da Superintendência do MDA/RS.
Em um mundo marcado por fragmentação e incerteza, planejar não significa antecipar cada movimento da economia global. Significa construir capacidade coletiva de adaptação. Para a agricultura familiar, isso implica assumir papel estratégico no desenvolvimento regional, fortalecendo soberania produtiva, geração de renda e coesão social no campo.
Foto de capa: Albino Oliveira – Ascom/MDA





