Governo Trump transforma a perseguição e a deportação de imigrantes em videogame, chama seres humanos de “horda” e apresenta a violência de Estado como diversão
Da REDAÇÃO*
A xenofobia já não aparece apenas nos discursos de Donald Trump, nas declarações de seus auxiliares ou nas publicações provocativas de militantes da extrema direita. Agora está hospedada, com identidade visual e chancela institucional, no site oficial da Casa Branca.
O governo dos Estados Unidos lançou na quinta-feira, 3 de setembro, o Arcade, uma coleção de cinco jogos eletrônicos destinada a promover as políticas do presidente. Dois deles transformam a perseguição aos imigrantes e a construção do muro na fronteira com o México em entretenimento.
Não se trata de uma página de campanha, de um perfil pessoal de Trump ou de uma iniciativa informal de seus apoiadores. O endereço pertence à Presidência dos Estados Unidos. A mensagem, portanto, tornou-se comunicação oficial de governo.
Seres humanos transformados em pontos
No jogo Rio Run, inspirado no antigo Snake, o participante controla um personagem identificado com Tom Homan, responsável pela política de fronteiras do governo Trump. Ele percorre as margens do Rio Grande, captura pessoas de diferentes tons de pele e forma uma fila de prisioneiros vestidos com macacões alaranjados.
As instruções determinam: “Patrulhe a linha ao longo do rio. Pegue todos que cruzarem”. Cada pessoa capturada é acrescentada ao placar como alguém “deportado”.
O jogador não encontra histórias, nomes, famílias ou motivos para a travessia. Não existem refugiados, trabalhadores, crianças ou pessoas em busca de proteção. Existem alvos que devem ser recolhidos para aumentar a pontuação.
No segundo jogo, Build the Wall, uma imitação de Tetris, blocos são utilizados para erguer o muro na fronteira. A apresentação publicada pela própria Casa Branca convida o usuário a “proteger a fronteira da horda que se aproxima”.
A palavra “horda” é particularmente reveladora. Ela apaga a individualidade dos migrantes e os representa como uma massa invasora, ameaçadora e praticamente desprovida de humanidade. Não descreve uma situação administrativa. Produz deliberadamente um inimigo.
A existência dos jogos e as expressões utilizadas podem ser conferidas diretamente na página oficial da Casa Branca.
“Política com a qual se pode interagir”
Os demais jogos divulgam outras bandeiras de Trump: alimentação escolar, projetos de lei e as chamadas Contas Trump, programa de poupança que prevê o depósito inicial de US$ 1 mil para crianças nascidas durante seu mandato.
A mistura não é casual. Ao colocar deportações, muro, merenda e poupança infantil no mesmo ambiente lúdico, a Casa Branca procura normalizar a perseguição aos imigrantes como mais uma política pública ordinária — e até divertida.
Kaelan Dorr, assessor de Trump, definiu a iniciativa como “política com a qual se pode interagir”. À imprensa estadunidense, um representante do governo afirmou que o projeto pretende comunicar as realizações presidenciais de maneira capaz de “ressoar com todos os americanos”.
A justificativa foi ainda mais explícita: o governo pretende contrapor sua “cultura de diversão e vitória” ao que chamou de “visão socialista sombria” dos democratas. A explicação foi publicada pelo conservador Washington Examiner.
Na divulgação pelas redes sociais, a Casa Branca resumiu a mensagem: “Construa o muro. Deporte. Encha uma Conta Trump”.
Portanto, não é possível alegar que a associação entre diversão e deportação tenha surgido de uma leitura maliciosa dos críticos. Ela foi assumida como estratégia pelo próprio governo.
A crueldade convertida em propaganda
Organizações que atuam na fronteira reagiram imediatamente. Amerika Garcia Grewal, codiretora da Frontera Federation, declarou que o governo vinha “brincando com a vida das pessoas” e agora havia transformado essa prática em videogame.
Adriana Jasso, da organização AMIGOS San Diego Community, afirmou que a página procura desumanizar e ridicularizar imigrantes enquanto pessoas morrem nos centros de detenção. As declarações foram recolhidas pela imprensa internacional na cobertura da AFP.
É nesse contexto que o Arcade precisa ser compreendido. O jogo não é uma piada isolada, por mais repulsiva que seja. Ele funciona como peça de propaganda de uma política real de prisões em massa, deportações aceleradas e supressão de garantias.
Entre janeiro de 2025 e 4 de junho de 2026, 52 pessoas morreram sob custódia do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos, o ICE. Segundo levantamento da Human Rights Watch e da Physicians for Human Rights, a taxa de mortalidade mais que dobrou no segundo governo Trump e alcançou seu nível mais alto em mais de uma década. A população detida chegou ao recorde de mais de 71 mil pessoas em janeiro de 2026.
O estudo também constatou que, em abril, cerca de 24 mil pessoas mantidas pelo ICE não possuíam condenação anterior nem acusações criminais pendentes. A Human Rights Watch encontrou indícios de atendimento médico inadequado ou tardio e falhas de transparência em casos de mortes sob custódia.
Análise independente da Reuters chegou à mesma conclusão: a mortalidade passou de aproximadamente uma morte para cada 3.848 detidos, entre 2009 e 2024, para uma a cada 1.630 pessoas durante o segundo mandato de Trump.
É sobre essa realidade que a Casa Branca convida crianças, jovens e adultos a brincar.
A xenofobia institucionalizada
Xenofobia não significa apenas hostilidade explícita a determinada nacionalidade. Ela também se manifesta quando estrangeiros são apresentados como uma ameaça coletiva, reduzidos à condição de invasores e tratados como pessoas cuja expulsão pode ser comemorada.
Sob esse aspecto, o novo portal representa uma passagem política importante. O preconceito que antes poderia ser atribuído ao temperamento de Trump ou ao radicalismo de seus seguidores foi incorporado ao aparelho institucional do Estado.
Isso não significa afirmar que a xenofobia tenha sido transformada em uma categoria jurídica do governo estadunidense. Significa algo politicamente inequívoco: a comunicação oficial da Presidência passou a difundi-la, normalizá-la e oferecê-la como entretenimento.
Quando um governo chama migrantes de “horda”, converte sua captura em pontuação e apresenta a deportação como parte de uma “cultura de diversão e vitória”, já não estamos diante apenas de retórica eleitoral.
A xenofobia chegou oficialmente à Casa Branca. E a Casa Branca decidiu transformá-la em jogo.
*Pela Redação: BTC.
Ilustração da capa: No site oficial da Casa Branca, o governo Trump transforma a perseguição a imigrantes e a construção do muro na fronteira em jogos eletrônicos. Crédito: Ilustração produzida por inteligência artificial para a Rede Estação Democracia (RED).

