A teoria econômica marxista oferece uma interpretação crítica e dinâmica do capitalismo

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Por LUIZ CÉSAR SILVA*

A teoria econômica marxista constitui uma das mais abrangentes e sistemáticas análises do modo de produção capitalista. Desenvolvida, especialmente a partir de O Capital (1867), essa teoria busca compreender o capitalismo não apenas como um sistema econômico baseado na troca mercantil, mas como uma forma histórica específica de organização social fundada em relações de classe, exploração do trabalho e contradições internas que impulsionam seu desenvolvimento e, simultaneamente, engendram suas crises. Diferentemente da economia política clássica, Marx não analisa o capitalismo como um sistema harmônico e autorregulável, mas como um modo de produção historicamente transitório, marcado por conflitos estruturais que tendem a se intensificar ao longo do processo de acumulação.

A atualidade da análise de seu pensamento decorre, em grande medida, da persistência e aprofundamento de fenômenos por ele identificados no século XIX, tais como o desemprego estrutural, a concentração de capitais, a internacionalização dos mercados, a recorrência de crises econômicas e a desigualdade social crescente. Marx antecipa que o avanço tecnológico, longe de conduzir automaticamente ao bem-estar social, tende a reduzir a necessidade relativa da força de trabalho, aumentando o exército industrial de reserva e pressionando os salários para baixo. Esse movimento, inerente à lógica da acumulação capitalista, encontra paralelos nas transformações doque vivemos atualmente.

O objetivo central da teoria marxista não se limita à explicação da gênese histórica do capitalismo, mas concentra-se na identificação de suas leis internas de funcionamento, de suas contradições fundamentais e de suas tendências de longo prazo. Nesse sentido, Marx destaca três eixos principais de conflito no interior do modo de produção capitalista: a produção e apropriação da mais-valia, os conflitos entre capital e trabalho e as crises periódicas de superprodução, associadas à tendência à queda da taxa de lucro.

O conceito de mais-valia ocupa posição central na crítica marxista da economia política. Para Marx, o lucro capitalista não deriva da troca de mercadorias em si, mas da exploração da força de trabalho. O trabalhador vende sua força de trabalho por um salário equivalente ao valor necessário para sua reprodução, mas, no processo produtivo, gera um valor superior àquele que recebe sob a forma de salário. Esse excedente, apropriado pelo capitalista, constitui a mais-valia, fundamento da acumulação de capital.

Marx identifica duas formas de extração de mais-valia: absoluta e relativa. A mais-valia absoluta resulta da extensão da jornada de trabalho ou da intensificação do ritmo laboral, mantendo-se o salário constante. Historicamente, essa forma esteve associada ao prolongamento das jornadas, à vigilância rigorosa do trabalho e à imposição de métodos disciplinadores no interior das fábricas. Já a mais-valia relativa decorre do aumento da produtividade do trabalho, obtido por meio da introdução de máquinas, inovações tecnológicas e reorganização dos processos produtivos. Nesse caso, o tempo necessário para reproduzir o valor da força de trabalho é reduzido, ampliando-se a parcela da jornada dedicada à produção de excedente, sem aumento proporcional dos salários.

A busca incessante pela ampliação da mais-valia está ligada à concorrência intercapitalista. Cada capitalista individual, decorrente da competição, procura reduzir custos e elevar a produtividade para conquistar maiores fatias de mercado. Esse processo conduz à eliminação de concorrentes menos eficientes e à crescente concentração e centralização de capitais, favorecendo o surgimento de grandes conglomerados e estruturas oligopolistas. Aprofunda a desigualdade entre capitais e intensifica o conflito social.

A concorrência entre capitais não se restringe à esfera econômica, mas tem implicações diretas na relação entre capital e trabalho. À medida que os capitalistas buscam elevar suas taxas de lucro por meio da redução de salários e da substituição de trabalhadores por máquinas, agrava-se a exploração da força de trabalho. Em nível agregado, esse mecanismo se traduz na polarização social entre capitalistas e trabalhadores, permanecendo a luta de classes como elemento estrutural da sociedade capitalista.

Para Marx, a luta de classes não é um fenômeno contingente, mas uma característica constitutiva do próprio sistema capitalista. O antagonismo entre capital e trabalho manifesta-se tanto no interior das unidades produtivas quanto no plano da sociedade como um todo, assumindo formas políticas, econômicas e ideológicas. Outro elemento fundamental da teoria marxista é a análise das crises econômicas. Marx interpreta as crises capitalistas como crises de superprodução, resultantes das próprias contradições internas do sistema capitalista. O aumento da produtividade e da capacidade produtiva, impulsionado pela concorrência e pela busca da mais-valia relativa, ocorre simultaneamente à compressão dos salários e à redução relativa do poder de consumo da classe trabalhadora. Como os trabalhadores constituem a maioria da população, a limitação de sua capacidade de consumo gera um descompasso estrutural entre produção e demanda.

Ou seja, o capitalismo tende a produzir mais mercadorias do que o mercado é capaz de absorver. Essa superprodução não significa excesso de bens em relação às necessidades humanas, mas excesso de mercadorias em relação à capacidade de compra. Quando as mercadorias não podem ser vendidas por seu valor, a acumulação entra em crise, interrompendo o processo de reprodução ampliada do capital.

As crises, portanto, não são anomalias externas ao capitalismo, mas decorrentes de ajuste violento das contradições acumuladas. Durante as crises, ocorre a desvalorização do capital, isto é, a destruição ou desvalorização de parte dos capitais existentes que não conseguem obter uma taxa de lucro considerada adequada. Empresas falem, o desemprego aumenta e os salários são pressionados para baixo, criando as condições para a retomada da acumulação em um novo ciclo.

A análise marxista das crises está associada à lei da tendência à queda da taxa de lucro. À medida que o capitalismo se desenvolve, os capitalistas investem crescentemente em máquinas, equipamentos e tecnologias, elevando a composição orgânica do capital — isto é, a proporção de capital constante em relação ao capital variável (força de trabalho). Como apenas o trabalho vivo é capaz de gerar mais-valia, o aumento relativo do capital constante tende a pressionar a taxa média de lucro para baixo, apesar do aumento absoluto da massa de lucros.

A crise de 1929 é frequentemente interpretada como um exemplo histórico emblemático das contradições analisadas por Marx. A Grande Depressão resultou de um período de expansão baseado em crédito fácil, especulação financeira e superprodução, especialmente nos Estados Unidos. A elevação artificial dos preços das ações e dos imóveis, associada à expansão monetária, criou uma prosperidade ilusória que entrou em colapso quando a produção superou a capacidade de consumo e o endividamento se tornou insustentável.

A crise iniciada com o colapso da Bolsa de Nova Iorque rapidamente se disseminou pelo sistema capitalista internacional, evidenciando a interdependência das economias nacionais. O desemprego em massa, a falência de bancos e empresas e a contração do comércio internacional confirmaram a incapacidade do mercado de se autorregular em momentos de crise profunda. Nesse contexto, o debate econômico passou a questionar os fundamentos do liberalismo clássico e abriu espaço para propostas de maior intervenção estatal, influenciadas, sobretudo, pelas ideias de Keynes.

Apesar das divergências teóricas, a leitura marxista da crise de 1929 destaca seu caráter sistêmico e estrutural, vinculando-a às contradições inerentes à acumulação capitalista. Para Marx, as crises não conduzem automaticamente à superação do capitalismo, mas tendem a se tornar mais intensas e frequentes à medida que o sistema amadurece, aprofundando os conflitos de classe e colocando em evidência seus limites históricos.

Em síntese, a teoria econômica marxista oferece uma interpretação crítica e dinâmica do capitalismo, enfatizando a centralidade da exploração do trabalho, a natureza conflituosa das relações sociais de produção e o caráter recorrente das crises econômicas. Ao analisar o capitalismo como um sistema historicamente determinado e contraditório, Marx fornece instrumentos teóricos fundamentais para compreender não apenas o passado, mas também os dilemas e desafios do capitalismo contemporâneo. A força de sua análise reside justamente na capacidade de articular economia, sociedade e história, revelando que as crises e desigualdades não são acidentes, mas expressões necessárias da lógica interna do modo de produção capitalista.


*Luiz César Silva é pós-doutorando em Economia pela Universidade do Porto; Doutor em Administração Pública pela Universidade do Minho (Portugal), Mestre em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro – Escola de Governo – FJP, Especialista em Controladoria e Finanças pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e Economista pela Universidade Católica de Petrópolis – UCP. É Professor de Administração e Gestão Pública no Instituto Politécnico de Bragança, Escola de Administração Pública, Comunicação e Turismo de Mirandela (EsACT-IPB). Lecionou no Departamento de Relações Internacionais e Administração Pública da Universidade do Minho. Atualmente, é membro do Comitê Científico da revista “Public Administration Research: Canadian Centre for Science and Education”.

Foto de capa: Reprodução

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