Um dia, na economia brasileira, a taxa Selic decidiu escalar uma montanha.
Não foi impulso aventureiro. Foi decisão técnica, cuidadosamente planejada, aprovada em reuniões formais e acompanhada por relatórios meticulosos. Cada passo da subida era apresentado como necessário. Cada metro conquistado prometia um horizonte mais seguro.
No início, a trilha parecia razoável. A inflação, disseram, exigia esforço. A economia brasileira, acostumada a terrenos irregulares, aceitou acompanhar a expedição.
A Selic avançou.
Primeiro devagar, depois com mais confiança. A cada parada surgia um novo acampamento-base. Os comunicados explicavam a estratégia. O objetivo permanecia o mesmo: alcançar o ponto exato em que a inflação perderia o fôlego.
Vista da trilha, a paisagem parecia controlável.
Mas subir tem consequências.
Quanto mais a Selic avançava, mais rarefeito ficava o ar. O investimento começou a respirar com dificuldade. Alguns projetos simplesmente começaram a rolar montanha abaixo. O crédito encurtou o passo. O consumo reduziu o ritmo.
Lá de baixo, a economia observava a subida.
Alguns setores tentavam acompanhar. Outros simplesmente paravam. Empresas adiavam decisões. Famílias recalculavam gastos. O horizonte prometido pela expedição parecia cada vez mais distante.
Ainda assim, a escalada continuou.
Os relatórios insistiam na disciplina da travessia. Subir era preciso. A inflação precisava sentir o peso da altitude.
Até que a Selic finalmente chegou ao cume.
Ali, no ponto mais alto da montanha monetária, fincou sua bandeira. A missão parecia cumprida. A inflação, ao menos nas planilhas, dava sinais de cansaço.
Agora, poderia dar um passo cauteloso até 14,75%.
Mas montanhas têm outro problema.
A descida.
Esta deve ser cautelosa, matreira — descer de mansinho, quase parando, para não despencar. Afinal, o investidor é uma criatura sensível à altitude e a mudanças bruscas no terreno.
Há, contudo, uma exceção notável.
O rentista.
Entre todas as criaturas desse ecossistema, ele é a única verdadeiramente insensível à altitude. Quanto mais rarefeito o ar, mais confortável se torna sua posição. Onde falta fôlego à economia real, sobra rendimento para quem observa a paisagem do alto.
Lá embaixo, porém, a economia já não respira como antes.
O investimento perdeu parte do fôlego. O crédito tornou-se cauteloso. Projetos interrompidos raramente retomam a marcha exatamente de onde pararam.
Do cume, a paisagem parece estável.
Da base, o ar continua difícil.
Montanhas monetárias têm esse efeito curioso: quem chega ao topo acredita ter dominado a paisagem.
Lá embaixo, a economia apenas tenta voltar a respirar.
E enquanto os relatórios celebram a conquista da altitude ideal, empresas, famílias e trabalhadores descobrem uma pequena diferença entre teoria e montanhismo:
quem escala juros pode até controlar a paisagem — mas a natureza da economia raramente obedece ao montanhismo monetário.
Foto de capa: Sean Stratton no Unsplash





