Por Solon Saldanha *
Após 16 anos de um domínio que parecia inabalável, a derrota de Viktor Orbán marca não apenas o fim de uma era na Hungria, mas sinaliza o isolamento de um projeto autoritário global que perde força em seus principais pilares.
A noite deste domingo (12) entrou para a história contemporânea como o marco zero do desmonte da “democracia iliberal” na Europa Central. Viktor Orbán, o primeiro-ministro que moldou a Hungria à sua imagem e semelhança por quatro mandatos consecutivos, capitulou diante do avanço eleitoral do partido Tisza. A vitória da legenda liderada por Péter Magyar representa o rompimento de um ciclo de hipertrofia do Executivo que, desde 2010, utilizou maiorias parlamentares esmagadoras para asfixiar as instituições democráticas e reescrever a Constituição em benefício próprio.
O projeto de Orbán, contudo, nunca foi um fenômeno puramente local. Ele se estabeleceu como o arquiteto de um modelo de autocratização exportável, servindo de laboratório para líderes que desprezam o sistema de freios e contrapesos. A queda do líder húngaro ocorre em um momento de extrema fragilidade para seus aliados ideológicos. Orbán é hoje um dos últimos ícones de uma extrema-direita mundial que vê seus expoentes ruírem: ele se despede do poder enquanto Donald Trump enfrenta uma erosão sem precedentes de sua popularidade nos Estados Unidos — agravada por seu estilo divisivo e pelo envolvimento na Guerra no Irã —; enquanto o brasileiro Jair Bolsonaro permanece sob custódia estatal após tentativas frustradas de subverter a ordem democrática; e o argentino Javier Milei, segue sendo visto por analistas apenas como o aprendiz radical deste bloco.
A engrenagem do Estado cooptado
A herança deixada pelo Fidesz, partido de Orbán, é um labirinto institucional desenhado para resistir a mudanças. Durante quase duas décadas, o premiê construiu o que especialistas descrevem como um “Estado mafioso”, onde a economia foi capturada por oligarcas alinhados ao regime e os meios de comunicação foram transformados em órgãos de propaganda. A campanha de Orbán não hesitou em utilizar redes transnacionais de desinformação, contando inclusive com o suporte estratégico de consultores externos.
O triunfo de Péter Magyar e do movimento Tisza — que mobilizou o interior do país, antigo reduto orbanista — traz consigo a promessa de um retorno aos valores europeus e à transparência. Todavia, o desafio é hercúleo. Para restaurar a normalidade democrática, o novo governo precisará desarmar um Tribunal Constitucional aparelhado, revogar leis persecutórias contra a sociedade civil e a comunidade LGBTQIA+, e enfrentar uma crise econômica dramática, acentuada pela dependência energética da Rússia e pelo sucateamento dos serviços públicos.
O dilema da nova maioria
Com uma projeção de maioria de dois terços no Parlamento, Magyar possui os instrumentos para promover uma “limpeza” constitucional. O risco, entretanto, reside na fronteira entre a justiça e o revanchismo. O clamor das ruas de Budapeste, que trocou os insultos ao antigo regime pelos gritos de “Europa!”, pressione por mudanças rápidas, mas a reconstrução de um sistema devastado pelo populismo exige cautela para que a nova maioria não repita os vícios do poder absoluto que acaba de derrubar.
O isolamento internacional de Orbán, agora sem o suporte logístico da CPAC estadunidense – aquela organização onde Flávio Bolsonaro foi discursar recentemente – retira o oxigênio de um movimento que pretendia instaurar uma “nova ordem mundial” baseada no nacionalismo cristão radical. A vitória do Tisza é, acima de tudo, um teste de resistência para as democracias liberais: a prova de que sistemas cooptados podem ser recuperados nas urnas, ainda que o caminho de volta à estabilidade institucional seja longo e repleto de armadilhas deixadas pelo autoritarismo.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Péter Magyar. Crédito: reprodução G1




