Por DANIEL AFONSO DA SILVA*
Faz frio em Paris neste 8 de janeiro de 2026. Frio intenso. Diferente. Peculiar. Que transborda neve em todas as partes. Deixando tudo interditado. Tapando de branco as cercanias. Imponto às gentes o recolhimento. Propício à meditação. Não sobre o cotidiano. Não sobre o imediato francês ou planetário. Miséria miserável intransponível. Mas ao olhar ao longe. À meditação absorta. Que enleva pensamentos a tempos atemporais. Mesclados ao infinito. Quase resolutos. Cujas qualidades desapareceram e levaram consigo também os seus defeitos. Como depois dos temporais. Onde tudo fica desabado. Notadamente as paisagens. Transpostas em miragens. Traços da vida. Rugas e rugosidades. Recortes de lembranças. Fios de memória. Que, fitando o calendário, induzem a feitos memoráveis, destinos fantásticos e pessoas inacreditáveis. Como foi François Mitterrand (1916-1996), morto há trinta anos. Naquele 8 de janeiro de 1996. Quando o mundo era verdadeiramente outro. Assim como a França e especialmente Paris.
François Mitterrand fora cidadão francês no sentido mais profundo da expressão. Além disso, foi presidente da República e protetor de uma certa ideia da França.
Sucessor do general De Gaulle, foi o mais longevo locatário do Élysée. Onde ingressou em 1981 e permaneceu até 1995. Completando dois mandatos democráticos e restando quatorze anos à frente de um dos países mais relevantes do mundo. Figurando, por tudo e pour cause, como um dos últimos grandes homens de estado do Ocidente e, por que não, do mundo.
Nascido no meio da Grande Guerra em 1916, serviu de combatente da Segunda Guerra e forjou-se militante portador de destino político. Feito representante do povo em 1946, ingressou na cena pública e jamais saiu. Ajudou a retirar a França das ruínas de 1945. Em seguida, participou de todos os governos da Quarta República até o retorno do general De Gaulle em 1958. Em 1965, incitou-se, eleitoralmente, contra o general. Sendo batido nas urnas, mas acoimando o general e as frentes liberais. Como voltaria a ocorrer em 1974, quando, novamente, perderia, dessa vez para Valery Giscard d’Estaing, que levaria a melhor. Chegando ao poder apenas em 1981. Tornando o seu feito um marco na história francesa e na história política mundial.
O muro de Berlim seguia em pé. A tensão Leste-Oeste continuava fulgurante. Os incidentes de 1979 no Irã e no Afeganistão dinamizavam o mundo. O choque da descolonização ainda se fazia sentir. Os norte-americanos ainda demonizavam caninamente a gente de Moscou. Como herdeiros do macartismo. Representados pelo presidente Ronald Reagan. Um antissocialista inveterado. Liberal e conservador sem par. Que apreendeu a novidade francesa com espanto. Amplificando mundialmente o choque incontinente da presença de François Mitterrand.
François Mitterrand era a expressão da primeira força de esquerda – com todos os seus matizes misturados – a conquistar o poder num país europeu, democrático, ocidental, membro do Conselho de Segurança das Nações Unidas e detentor da dissuasão atômica.
Se nada disso bastasse, François Mitterrand – de passado e presente conservador, católico e pragmático – ordenou a integração do Partido Comunista Francês (PCF) na composição de seus ministérios. Naqueles tempos em que Moscou, Pequim e Havana queriam dizer muito e muita coisa. O que causou imenso mal-estar em todas as partes. Menos na maioria dos franceses. Que pela primeira vez após 1936 contemplava a chegada do aglomerado socialista ao poder.
Tão logo soube-se daquele sucesso de François Mitterrand, uma gigantesca multidão tomou conta da Bastilha. Fazendo dela o símbolo da vitória. Como os seus antepassados, nos tempos da Revolução.
Foi imensa a emoção. Mais que palavras, lágrimas. Ninguém sabia ao certo como reagir. A esperança finalmente vencia o medo na França ao após-guerra. E o entusiasmo era, assim, sem fim. E seria diuturnamente frustrado ao longo dos quatorze anos presidenciais seguintes.
François Mitterrand – como Charles de Gaulle – era um cidadão complexo. Enigmático. Tipo esfinge. Feito Medusa. Portar de profundas contradições. Jamais assimiladas pela população nem por ninguém.
É verdade que, mesmo assim, ele lograria, novamente, sucesso nas presidenciais de 1988. Mas a custo de numerosas cicatrizes jamais superadas. Notadamente porque nos insucessos legislativos de sua agremiação política em 1986 e 1993, em lugar de partir, ele decidiu inaugurar a coabitação. Onde o líder da oposição passou à condição de primeiro-ministro. Compondo gabinetes e ministérios. Deixando o presidente a presidência e nada mais. Gerando, assim, traumas institucionais e marcas sociais intransponíveis. Pois era a traição política a olhos nus. Uma transgressão a luz do dia, a céu aberto. Que só não viu quem não quis crer. Jacques Chirac e Édouard Balladur governaram a França socialista em 1986-1988 e 1993-1995. Estraçalhando o que restava de virtuoso na política francesa.
Mas o prior ainda estava por vir e veio de onde menos se esperava, da vida privada do presidente – sim: naqueles tempos ainda existia a distinção entre vida privada e vida pública de todos indistintamente.
O primeiro baque veio com a constatação de François Mitterrand era um homem doente, portador de um câncer devastador que nitidamente impediria o seu exercício pleno da função presidencial.
Em seguida, vieram as revelações de suas simpatias pelo marechal Pétain e pelo regime de Vichy. Exatamente aquele que colaborou com Hitler, interceptou judeus França e os remeteu para o Reich. François Mitterrand fora condecorado por esse regime e por esse marechal. Quase ninguém sabia. E quem sabia, fingia não saber. Quando soube-se, virou escândalo. Como foi escandalosa a descoberta de sua vida familiar dupla, com uma filha fora do casamento.
Em 1994, esses feitos ainda causavam estupor.
De modo que François Mitterrand, passou a ser unanimemente detestado. Perto e longe de Paris. A ponto de seus adversários tanto e quanto os seus correligionários desejarem a sua morte. Que, efetivamente, somente ocorreria após a sua presidência. Que, ao fim, desembocou numa transição tranquila para o seu sucessor Jacques Chirac em 1995.
Fora do poder, Mitterrand – como De Gaulle – ensimesmou-se no vagão da morte. Consciente de seu peso e de seu lugar na História. A pequena e grande. Aquela que se faz notar. E, portanto, conduz a todos, gostando ou não, a meditar. Pois, ao fim das contas, vai impossível entender. Pois existência de François Mitterrand foi como obras de Rembrandt: não se permitem entender, apenas apreciar.
*Daniel Afonso da Silva é Pesquisador no Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo e professor na Universidade Federal da Grande Dourados.
Foto da capa: Reprodução




