A política no feed da fofoca: a nova fronteira da desinformação e do marketing digital

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Pablo Marçal

Por Solon Saldanha *

Páginas de entretenimento com alcances milionários, como a Alfinetei, tornam-se peças-chave em estratégias coordenadas para promover figuras da extrema direita e desgastar o governo federal, driblando algoritmos e a fiscalização eleitoral tradicional.


O fenômeno da “fofoca política” nas redes

Desde o final de 2025, o ecossistema digital brasileiro testemunha uma mudança tática na comunicação política: a migração de discursos ideológicos para perfis de entretenimento e fofoca. Contas como a Alfinetei, que possui mais de 25,4 milhões de seguidores e supera em audiência estrelas da música e figuras religiosas, passaram a intercalar notícias de celebridades com críticas sistemáticas ao governo Lula e exaltações a políticos como o governador Tarcísio de Freitas e o deputado Nikolas Ferreira.

A estratégia é fundamentada no alto engajamento. Em um único dia, a Alfinetei registrou sua maior interação — quase 90 mil curtidas — não em um post sobre famosos, mas em uma publicação sobre sanções judiciais contra bloqueios de rodovias em 2022. Esse movimento sinaliza o uso dessas páginas para furar “bolhas” ideológicas, alcançando um público que normalmente não consome notícias em veículos tradicionais ou editorias políticas.

O Caso Banco Master e a Orquestração Digital

O potencial nocivo dessa engrenagem ficou evidente durante a liquidação do Banco Master pelo Banco Central, em novembro de 2025. Após a prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, iniciou-se uma ofensiva coordenada: cerca de 46 perfis de fofoca dispararam ataques simultâneos contra investigadores e diretores da autarquia federal.

Dados da Febraban revelam que, apenas em 27 de dezembro, foram contabilizados 4.560 posts hostis ao Banco Central. A natureza artificial da ação foi exposta quando influenciadores e vereadores de direita vieram a público admitir que foram contatados para participar do linchamento virtual. Com o avanço das investigações, páginas como Divas do Humor e Comuacim apagaram os conteúdos, evidenciando o caráter sob encomenda das postagens.

Financiamento: Bets, Agências e Conexões Políticas

A sustentação financeira desses perfis levanta alertas sobre a transparência no marketing político. Muitas dessas páginas ostentam parcerias com plataformas de apostas, como a 7games.bet, ligada ao empresário Fernando Oliveira de Lima, o “Fernandin OIG”, operador do “jogo do tigrinho” no Brasil. Reportagens investigativas apontam laços de proximidade entre o empresário e figuras do alto escalão da oposição, como o senador Ciro Nogueira.

Além disso, investigações da imprensa revelaram que funcionários da agência Mynd teriam intermediado negociações para que perfis de sua vitrine elogiassem Tarcísio de Freitas e criticassem o Banco Central, embora as instituições envolvidas neguem oficialmente o investimento direto para este fim.

A Visão dos Especialistas: O “Drible” no Algoritmo

Para especialistas em comunicação pública, como os professores Sérgio Trein (UFRGS) e Adriane Buarque de Holanda (ESPM-Rio), a estratégia é uma resposta ao crescente desinteresse da população pela política institucional.

  • Evasão da Política Tradicional: O cidadão médio não busca editorias políticas, mas consome redes sociais para lazer. Ao inserir política nesse fluxo, estrategistas conseguem “manobrar massas vulneráveis” que não costumam checar fatos.
  • Espetacularização: A direita tem tido maior sucesso nessa arena ao utilizar discursos inflamados e sensacionalistas, que geram mais viralização do que as pautas sociais e de direitos humanos, historicamente associadas à esquerda.

Cenário Eleitoral e o Peso Econômico da Meta

O investimento em redes sociais tornou-se o maior ralo de recursos das campanhas. Dados do TSE mostram que a Meta (dona do Facebook e Instagram) é a principal beneficiária das verbas eleitorais. Em 2014, o Facebook recebeu apenas R$ 980 de candidatos; em 2024, esse valor saltou para mais de R$ 201 milhões. Na última eleição municipal, o topo dos gastos com impulsionamento foi ocupado por Pablo Marçal (União), um expoente do uso de cortes e viralização.

Para 2026, o desafio das autoridades eleitorais será regulamentar não apenas o anúncio oficial, mas o mercado paralelo de perfis apócrifos e páginas de entretenimento que atuam como cabos eleitorais disfarçados, explorando a fronteira cinzenta entre a opinião pessoal e a propaganda paga não declarada.


* Solon Saldanha, jornalista e escritor

Foto: Pablo Marçal. Crédito: reprodução UOL

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