Por FLÁVIO AGUIAR*
Conheço o vento Pelo sopro donde vem E a cara do calavera
Quando não vale um vintém Velho ditado gaúcho
Mais fortes são os poderes do povo!
Cprisco, personagem de Deus e o
Diabo na Terra do Sol
Reza a tradição histórica que o mundo moderno das relações internacionais foi fundado entre 1645 e 1648 pela chamada Paz de Vestfália, Consistiu ela numa série de tratados definidos a partir de um congresso a que compareceram mais de cem delegações de diferentes poderes europeus, nas cidades de Münster e Osnabrück, no então Ducado da Vestália, depois da devastadora Guerra dos Trinta Anos, de motivação religiosa, opondo católicos e protestantes. Estes tratados estabeleceram regras como: o respeito à soberania dos Estados Nacionais, incluindo a integridade de seus territórios; consequentemente, o princípio da não intervencão de um país nos assuntos internos de outro; a liberdade de culto, isto é, a proibição de que o dirigente de um Estado obrigasse os cidadãos a seguirem o seu culto em detrimento de outros. E assim por diante. É claro que estes princípios foram constantemente violados. Eis alguns exemplos: as guerras napoleônicas, com intervenções de todos os lados beligerantes sobre outros países; as chamadas Guerras do Ópio na China, garantindo vantagem comerciais para as Potências do Ocidente no país asiático, incluindo o comércio do ópio.
Caseiramente, a intervenção do Império Brasileiro no Uruguai em favor de Venâcio Flores em 1864, um dos fatores que levaram à funeste Guerra do Paraguai; a tragédia nazi-fascista; as sucessivas intervenções veladas ou não dos Estados Unidos pelo mundo afora e da finada URSS em alguns de seus satélites (Berlim Oriental, 1953; Hungria, 1956; Tchecoslováquia, 1968); durante a Guerra Fria; e assim por diante.
Mas nada se compara ao que vem sendo promovido pelo governo de Donald Trump em seu segundo mandato. Primeiro, pela combinação de fragilidade e truculência na argumentação das justificativas. No caso dos ataques letais contra embarcações venezuelanas no Caribe e do recente sequestro de Nicolás Maduro na Venezuela, fala-se vagamente em “direitos humanos”, “narco- tráfico” (sem provas) e outras retóricas para logo se passar ao que interessa: “money”, “petróleo”, “tomar o que é nosso”, isto é, o petróleo venezuelano. Também pelo descaramento da avaliação: “não houve mortos na ação, apenas feridos”, disse Trump em entrevista coletiva. Mas isto se referia apenas aos norte-americanos. Entre os venezuelanos, o ministro da Defesa de Caracas disse inicialmente que havia 40 mortos, entre civis e militares. Depois outras fontes do governo disseram que o número de mortos chegou a 80, e ainda a 100, incluindo 32 cubanos que faziam parte da guarda pessoal de Maduro. Para Trump isto não conta. Parece que não são seres humanos. Nem no Vietnã era assim: lá os civis mortos eram contados como “vietcongues”.
A entrevista coletiva de Trump e assessores, incluindo o Secretário de Estado Marco Rubio, para justificar a invasão e o sequestro do presidente Maduro, foi dos episódios mais deprimentes e vergonhosos que já assisti. Trump declarou sem rodeios que, como os Estados Unidos, para ele, detém o exército melhor e mais poderoso do mundo, tanto em termos tecnológicos quanto humanos, eles se sentem autorizados a fazer o que quiserem onde e quando quiserem, contra quem quiserem. Seus assessores e ministros, incluindo Rubio, e o comandante militar presente, repetiram este mantra e motto de diferentes maneiras e bajularam o quanto puderam o candidato a imperador do Ocidente e do resto do mundo, apresentando-o como alguém que não está ali para “brincar”, alguém que “age” e “faz”, etc.
Além disto, Trump manifestou total desprezo por quem, nos Estados Unidos, não pense como ele. Comprovou, assim, que tanto externa como internamente não precisa de parceiros nem de concidadãos, nem mesmo de correligionários, mas sim de súditos, e dos mais subservientes.
Ali e na sequência voltou a ameaçar a Colômbia, o México, Cuba, o Irã e a Groenlândia (por tabela, a Dinamarca) e mais uma vez a Venezuela se o novo governo “não souber se comportar”. Ele pretende impor na retórica política e manu militari a “Pax Americana”, uma versão mais violenta da antiga “Pax Romana”, que imperou na Europa, no norte da África e em parte da Ásia durante dois séculos, entre os reinados de César Augusto e Marco Aurélio.
Esta nova versão imperial é mediada, em termos retóricos, por um dos ideais do Congresso de Viena (1814 -1815), que começou logo após a primeira derrota de Napoleão e terminou nove dias antes de sua derrota definitiva em Waterloo.
As estrelas do Congresso foram as potências vencedoras, Inglaterra, Prússia, Áustria e Rússia, e, em menor mas significativa escala, a França restaurada sob a égide dos Bourbon.
Eis aí um palavra chave para o Congresso e todo o pensamento conservador até hoje: “restauração”. Para se opor às teses republicanas, liberais e revolucionárias que se avolumavam, as lideranças do Congresso queriam restaurar os princípios, monarquias e até algumas das fronteiras do “ancien régime”, anteriores à Revolução Francesa e às guerras napoleônicas. Na prática instituiram um regime arqui-conservador conhecido como “Concerto Europeu” que, apesar de várias contestações e reajustes (como as revoltas de 1848, o Risorgimento Italiano e a Comuna de Paris, entre outras e outros, durou até 1914. Nele as aristocracias remanescentes negociaram cm as burguesias emergentes e se aburguesaram elas mesmas. O caso do Risorgimento é emblemático, a começar pelo nome: “Ressurgimento”. De início um movimento republicano e revolucionário, sob a liderança de Mazzini, Garibaldi e seus “Camicia Rosse”, terminou criando a moderna Itália sob a monarquia de Vittorio Emanuele, Rei da Sardenha, casado com Maria Teresa da Áustria.
Os movimentos de direita e de extrema-direita de hoje são empolgados pela ideia da “restauração” de um tempo áureo do passado, uma espécie de “bolha mística” perdida pela incúria de governantes que perderam a medida dos valores tradicionais de seu país. O slogan preferido de Trump é significativo: “Make America Great AGAIN”. A extrema-direita europeia quer preservar a Europa cristã das má influências de imigrantes e refugiados vindos do Sul Global ou do mundo muçulmano. No Brasil a extrema-direita acalenta o retorno ao tempo “áureo”, “próspero” e “tranquilo” da Ditadura Militar de 1964. No caso de Trump e sua versão da Pax Americana, só o tempo dirá qual o seu verdadeiro significado. Haverá um acordo com a China e a Rússia sobre áreas de influência, mesmo que provisório? Ou a guerra entre as potênciaa será inevitável? Vai se cumprir o vaticínio de seu assessor e conselheiro Stephen Miller, qual seja, de que “o Ocidente é nosso” (deles, norte-americanos)?
A contestação da “Paz de Vestfália” já vem de longa data, tendo o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair e autoridades anteriores da OTAN proclamado seu anacronismo perante o mundo globalizado, Estamos assistindo a imposição de uma nova (des)ordem mundial ou do que resta do Ocidente, liderada pelos Estados Unidos, ou ao estertor de uma potência que vê sua hegemonia escapar entre os dedos como a areia de uma implacável ampulheta?
Entre tantas dúvidas, brilha uma única certeza: onde a Pax Americana prevalecer, ela só terá uma coisa a oferecer: sangue, suor e lágrimas. Dos outros, é claro.
*Flávio Aguiar é jornalista, analista político e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo).
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