Na Odisseia de Homero, Ulisses não retorna a Ítaca apenas porque deseja voltar. Seu retorno só se torna possível quando a soberba cede lugar ao aprendizado, quando a insistência cega é temperada pela experiência e quando a travessia deixa de ser um duelo pessoal contra os deuses para se tornar uma luta paciente pela reconstrução do caminho de casa. Ulisses erra, desafia, resiste, perde tempo, companheiros e rumo. Só reencontra sua terra quando compreende que a vitória verdadeira não nasce da teimosia, mas da sabedoria política forjada na adversidade.
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É essa imagem que ajuda a compreender o drama atual do PT gaúcho. A disputa em torno da pré-candidatura de Edegar Pretto ao governo do Rio Grande do Sul não pode ser lida como um simples embate entre vontades individuais, ambições partidárias ou preferências locais. O que está em jogo é algo muito maior: a necessidade histórica de construir um palanque amplo, democrático e progressista, capaz de defender a reeleição do presidente Lula no Estado e, ao mesmo tempo, enfrentar o avanço agressivo da extrema direita no Rio Grande do Sul e no Brasil.
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A lição homérica é clara: quando a realidade histórica se impõe, a insistência em um caminho isolado pode transformar coragem em erro estratégico. Não se trata, aqui, de negar a legitimidade de Edegar Pretto, nem de subestimar sua trajetória, sua juventude política ou sua importância para o PT e para o campo popular. Tampouco se trata de ignorar as contradições acumuladas nas relações entre os partidos do campo democrático, inclusive com o PDT. Trata-se de reconhecer que, diante de uma ofensiva organizada da extrema direita para ampliar sua presença no Senado, na Câmara dos Deputados, nas assembleias legislativas e nos governos estaduais, o debate sobre nomes precisa ser subordinado ao imperativo maior da unidade.
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A extrema direita não atua mais apenas como corrente de opinião. Ela opera como projeto de poder. Seu objetivo é construir maioria parlamentar, bloquear governos democraticamente eleitos, impor uma agenda neoliberal regressiva, desmontar o papel social do Estado e corroer, por dentro, as instituições representativas. Não há ingenuidade possível diante disso. O que está em marcha não é apenas uma disputa eleitoral; é uma disputa de civilização. De um lado, a defesa da democracia social, da soberania nacional, dos direitos dos trabalhadores, das mulheres, da população negra, dos povos indígenas, da juventude, da ciência, da cultura e da transição energética sustentável. De outro, o ódio como método, o mercado como dogma e a destruição do pacto civilizatório como programa.
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Por isso, insistir que o centro do debate são os nomes é reduzir perigosamente a dimensão do momento histórico. Nomes importam, claro. Lideranças importam. Partidos importam. Mas, quando o fascismo social e político ganha musculatura, a pergunta decisiva deixa de ser “quem encabeça?” e passa a ser “que campo político terá condições reais de vencer, governar e sustentar um projeto de longo prazo?”. Esta é a questão essencial.
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Lula, com sua experiência histórica, parece compreender isso com nitidez. Ao defender uma ampla composição no Rio Grande do Sul, não está inviabilizando um jovem nome do PT, nem desprezando o acúmulo partidário dos militantes gaúchos. Está, ao contrário, chamando o partido à grandeza. Está lembrando que a política, em momentos decisivos, exige desprendimento, visão histórica e capacidade de organizar maiorias sociais duradouras.
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A verdadeira frente ampla democrática e progressista não pode ser mera soma eleitoral de conveniência. Ela precisa ser um projeto político de médio e longo prazo. Um pacto de resistência e reconstrução. Uma aliança capaz de unir partidos, movimentos sociais, centrais sindicais, intelectuais, juventudes, setores da cultura, do ambientalismo, das periferias urbanas e do campo popular em torno de um programa comum. Um programa que dispute consciências na sociedade, reorganize a esperança, enfrente a máquina de desinformação da extrema direita e prepare transições de governo capazes de dar continuidade às políticas públicas voltadas aos mais vulneráveis.
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Essa frente deve valorizar as diversas lideranças de cada agremiação partidária, sem hegemonismos estreitos. Deve compreender que a escolha de nomes precisa ser instrumento de consulta política e social, ancorada não apenas na vontade interna dos partidos, mas na capacidade real de cada candidatura dialogar com o eleitorado comum, disputar narrativa e representar um projeto nacional democrático-popular. O personalismo empobrece. A construção coletiva engrandece.
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É justamente aqui que a metáfora de Ulisses reencontra sua força. O herói não volta para casa porque venceu sozinho; ele volta porque aprendeu a ler os sinais do tempo, a medir seus passos e a reconhecer que a travessia exige mais do que bravura. Exige maturidade. O PT gaúcho precisa decidir se quer viver sua odisseia como epopeia de retorno à centralidade política ou como naufrágio de uma insistência solitária. Pode seguir desafiando os “deuses” da correlação de forças, preso a uma lógica autorreferente, ou pode compreender que, na conjuntura atual, a casa a ser reconquistada não é a de um partido isolado, mas a de um campo democrático inteiro ameaçado pela barbárie.
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No Rio Grande do Sul, onde a direita e a extrema direita buscam consolidar uma hegemonia política duradoura, a unidade não é capitulação. É inteligência estratégica. Não é renúncia de identidade. É afirmação superior de compromisso histórico. Não é abandono de quadros próprios. É sua preservação para batalhas ainda maiores.
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A hora exige menos orgulho ferido e mais responsabilidade histórica. Menos disputa de vaidades e mais construção de programa. Menos culto ao nome e mais compromisso com o povo. Se o PT quiser honrar sua melhor tradição, precisará entender que, às vezes, a grande vitória de uma força política não está em impor sua cabeça de chapa, mas em liderar, com generosidade e firmeza, a formação de uma maioria democrática capaz de derrotar o fascismo e devolver horizonte ao país.
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Ulisses voltou porque aprendeu. O PT gaúcho ainda pode voltar também: não à sua zona de conforto, mas ao seu papel histórico de condutor de esperança, organizador de maiorias e construtor de futuro. A teimosia pode até parecer coragem por um tempo. Mas, quando o mundo exige unidade, só a sabedoria conduz de fato a Ítaca.
Ilustração da capa: Imagem gerada por IA





