Introdução
A trajetória econômica da Índia nas últimas três décadas reflete uma mudança paradigmática, transitando de um modelo protecionista de substituição de importações para uma liberalização focada em serviços e, mais recentemente, para uma política industrial agressiva voltada à manufatura. Após as reformas de 1991, que desmantelaram o “License Raj“, a Índia experimentou um crescimento robusto liderado pelo setor de serviços, que hoje representa 56% do PIB. No entanto, a incapacidade desse setor de absorver a vasta força de trabalho do país — com cerca de 12 milhões de novos ingressantes anuais — gerou a necessidade imperativa de revitalizar a base industrial.
Nesse contexto, a atual política industrial, ancorada na iniciativa “Make in India” (lançada em 2014) e na visão de “Atmanirbhar Bharat” (Índia Autossuficiente), busca elevar a participação da manufatura no PIB para 25% e integrar o país nas cadeias globais de valor (GVCs). Este ensaio examina os pilares dessa política, suas prioridades setoriais estratégicas e identifica oportunidades de parceria com o Brasil, considerando as similaridades e complementaridades entre as duas maiores economias do Sul Global.
Os Pilares da Política Industrial: Infraestrutura, Incentivos e Ecossistemas
A atual estratégia indiana difere das tentativas anteriores ao focar não apenas na proteção tarifária, mas na criação de competitividade sistêmica. O programa National Industrial Corridor Development Programme (NICDP) exemplifica essa abordagem, visando a criação de novas cidades industriais “inteligentes” e corredores logísticos integrados, como o Delhi-Mumbai Industrial Corridor (DMIC). A aprovação recente de 12 novos nós industriais sob o NICDP, com um investimento de aproximadamente US$ 3,5 bilhões, reflete a aposta na infraestrutura multimodal (PM GatiShakti) para reduzir custos logísticos e atrair investimentos âncora.
Paralelamente à infraestrutura física, o governo indiano implementou o esquema Production Linked Incentive (PLI), que oferece incentivos financeiros baseados em vendas incrementais para 14 setores-chave, variando de 3% a 5% sobre o valor da produção. O PLI visa superar as desvantagens de custo da manufatura indiana, tendo atraído investimentos substanciais, superiores a US$ 21 bilhões, e gerado mais de 1,2 milhão de empregos diretos e indiretos até 2025.
Além disso, reformas no ambiente de negócios, como a digitalização de processos e a redução de cargas de conformidade (mais de 47.000 compliances reduzidos), elevaram a posição da Índia no ranking do Doing Business do Banco Mundial, saltando da 142ª posição em 2014 para a 63ª em 2019.
Prioridades Setoriais: Semicondutores, Defesa e Energia Verde
A política industrial indiana prioriza setores de alta tecnologia e soberania estratégica. Um destaque central é a India Semiconductor Mission (ISM) 2.0. Com o objetivo de tornar a Índia um hub global, o governo alocou incentivos fiscais massivos para cobrir até 50% dos custos de projetos de fabricação de chips e displays. A meta é alcançar, até 2029, a capacidade de projetar e fabricar chips para 70-75% das aplicações domésticas, reduzindo a dependência externa crítica exposta durante a pandemia.
No setor de defesa, a política de internalização transformou a Índia de maior importador mundial em um exportador emergente. As exportações de defesa cresceram 34 vezes na última década, atingindo aproximadamente US$ 3 bilhões no ano fiscal de 2024-25, com produtos como o helicóptero de combate leve (LCH) e mísseis BrahMos sendo exportados para mais de 100 países. O governo estabeleceu listas de “nacionalização positiva”, proibindo a importação de centenas de itens para forçar o desenvolvimento da cadeia de suprimentos doméstica.
Simultaneamente, a Índia persegue uma “política industrial verde”. O país estabeleceu metas ambiciosas de energia renovável (RE), buscando 15% da matriz energética via RE até 2020 e expandindo massivamente a capacidade eólica e solar. Embora a indústria solar doméstica tenha enfrentado desafios de competitividade frente às importações chinesas, políticas como Tarifas Feed-in (FiT) e Obrigações de Compra Renovável (RPO) tentaram estimular a demanda. No setor eólico, a Índia consolidou uma base de manufatura robusta, tornando-se um exportador de turbinas e componentes.
Desafios e Oportunidades de Parceria com o Brasil
Apesar dos avanços, a Índia enfrenta desafios estruturais. A participação da manufatura no PIB estagnou em torno de 16%, abaixo da meta de 25%, e o país lida com uma dependência de importações de componentes críticos, especialmente da China. No entanto, a reconfiguração das cadeias globais de suprimentos (estratégia “China Plus One”) posiciona a Índia como um destino atraente para o Investimento Estrangeiro Direto (IED), que atingiu o recorde de US$ 81 bilhões no ano fiscal de 2025.
Para o Brasil, a nova postura baseada em política industrial efetiva da Índia abre avenidas estratégicas de cooperação em diversas áreas e cenários:
- Energia Renovável e Biocombustíveis: A Índia possui uma indústria eólica madura, com exportações de geradores eólicos para o Brasil já registradas em volumes. O Brasil, líder em bioenergia, pode colaborar na tecnologia de etanol e na expansão da energia solar e eólica, onde a Índia busca reduzir custos e aumentar a eficiência através de instituições como o National Institute of Solar Energy.
- Defesa e Aeroespacial: Com a Índia abrindo o setor de defesa para o setor privado e buscando co-desenvolvimento tecnológico (modelos MAKE-II e MAKE-III), há oportunidades para a indústria aeroespacial brasileira. A Índia já opera aeronaves da Embraer e busca expandir sua frota e capacidades de fabricação local, alinhando-se ao desejo mútuo de autonomia estratégica.
- Semicondutores e TI: A agressiva missão de semicondutores da Índia cria um polo de design e fabricação que pode ser complementar aos esforços brasileiros de reviver sua própria indústria de componentes eletrônicos. A força da Índia em serviços de TI e o foco em startups de design de chips (via esquema Design Linked Incentive) oferecem modelos de incubação que podem ser replicados ou integrados.
- Micro e Pequenas Empresas (MPEs): Ambos os países possuem vastos setores de MPEs. A Índia implementou esquemas robustos de crédito e tecnologia, como o Credit Linked Capital Subsidy e sistemas de classificação de crédito. O intercâmbio de melhores práticas na formalização e digitalização de MSMEs é uma área fértil para cooperação técnica.
- Inteligência Artificial: O governo indiano integrou a IA em suas missões industriais e de defesa, enfatizando a necessidade de uma força de trabalho capacitada em IA e robótica através da “National Manufacturing Mission” e financiando o desenvolvimento de tecnologias críticas — como plataformas analíticas baseadas em IA e sistemas autônomos — por meio do esquema ADITI e do ecossistema iDEX. A relevância política e econômica desta tecnologia é reforçada por eventos de alto nível, como a inauguração prevista do “India AI Impact Summit 2026” pelo Primeiro-Ministro. Ambos os países estão construindo suas estratégias nacionais nesta área e poderão se beneficiar com alianças tecnológicas.
- Terras Raras e Minerais Críticos: a Índia tem atuado vigorosamente para garantir o suprimento de materiais estratégicos essenciais para suas indústrias de alta tecnologia, defesa e energia verde, impulsionando a demanda por minerais críticos através de esquemas de Incentivo Vinculado à Produção (PLI) para setores como baterias de células de química avançada (ACC), automóveis e eletrônicos. Para sustentar essa base manufatureira e reduzir a dependência externa, o governo indiano liberalizou o setor extrativo, permitindo até 100% de Investimento Estrangeiro Direto (IED) na mineração sob a rota automática. Esse cenário cria oportunidades estratégicas de cooperação com o Brasil, detentor de vastos recursos minerais: empresas brasileiras podem integrar-se à cadeia de valor indiana não apenas exportando matérias-primas, mas estabelecendo joint ventures para exploração e processamento em solo indiano, aproveitando a abertura regulatória e a demanda massiva gerada pelas metas de nacionalização da defesa e transição energética de Nova Délhi.
Conclusão
A política industrial indiana contemporânea é marcada por um pragmatismo estratégico que combina incentivos fiscais agressivos, desenvolvimento de infraestrutura de classe mundial e foco em setores de fronteira tecnológica. Embora a meta de 25% do PIB em manufatura permaneça um desafio atual, os avanços na exportação de defesa, eletrônicos e a consolidação de corredores industriais demonstram um progresso tangível. Para o Brasil, que tem a Nova Indústria Brasil com objetivos muito próximos e complementares, a Índia deixa de ser apenas um parceiro comercial de commodities para se tornar um potencial parceiro tecnológico e industrial. A convergência de interesses na transição energética, segurança de defesa e reindustrialização oferece uma base sólida para elevar a parceria estratégica a um novo patamar de integração produtiva.
Referências
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Foto de capa: Reprodução





