Por CARLOS ÁGUEDO PAIVA*
Relações prá lá de perigosas
Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel e Nikolas Ferreira têm muito em comum. Os três são mineiros, bolsonaristas e membros bem-sucedidos da Igreja Batista da Lagoinha. A Lagoinha é uma igreja muito proativa. Entre seus empreendimentos encontra-se a fintech Clava Forte Bank e a empresa de comunicações Rede Super. O Pastor-Presidente da Lagoinha é André Valadão, um dos mais proeminentes cabos eleitorais de Bolsonaro nas eleições de 2018 e 2022. Valadão acaba de ser convocado – por Damares Alves! – a prestar depoimento na CPMI do INSS, sob suspeita de envolvimento nas fraudes da Previdência. Ele também está sendo processado por exigir que crianças de 2 a 13 anos, que participam do “Ministério Kids”, entreguem suas mesadas para o dízimo da Igreja.
Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e pastor da Igreja Lagoinha, também se encontra entre os líderes evangélicos convidados a prestar esclarecimentos à CPMI do INSS. Por ordem de Toffoli, ele foi preso ao tentar se evadir do país; teve seus celulares, computadores e passaporte apreendidos e todos os seus bens estão bloqueados. Zettel foi o maior contribuinte individual das campanhas eleitorais de Bolsonaro (R$ 3 milhões) e de Tarcísio de Freitas (R$ 2 milhões) em 2022. Ele é fundador e CEO do Moriah Asset, que operava regularmente com o Banco Master.
Há um ano, em janeiro de 2025, Nikolas Ferreira lançou um vídeo afirmando que o governo Lula pretendia taxar as operações com pix. O vídeo teve uma repercussão extraordinária. Na verdade, uma repercussão absolutamente anormal, com milhões de visualizações em menos de uma semana. Há quem imagine que a repercussão do vídeo tenha tido o apoio de robôs e agentes pagos com recursos (nada) evangélicos. O vídeo acabou impondo uma derrota ao governo Lula, levando à queda de uma normativa do Banco Central voltada à fiscalização das atividades das fintechs. Como a Clava Forte Bank, fintech da Lagoinha. Santa coincidência, Batman.
Passado um semestre do vídeo-bomba de Nikolas, a Polícia Federal deflagrou a Operação Carbono Oculto, que trouxe à luz a utilização de várias fintechs para a lavagem de dinheiro de organizações criminosas, como o Primeiro Comando da Capital. Entre as fintechs que foram alvo da Carbono Oculto, encontra-se a REAG, liquidada pelo Banco Central há 15 dias em uma operação em conjunto com a Compliance Zero, que investiga as fraudes financeiras do Banco Master.
O Banco Master nasceu com outro nome – Banco Máxima – e com outro perfil – voltado ao crédito imobiliário. No fatídico ano de 2018 – quando Lula foi preso e Bolsonaro foi eleito Presidente – Daniel Vorcaro assumiu o controle do Máxima (que estava à beira da falência) e passou a operar, crescentemente, com crédito consignado, crédito pessoal, serviços financeiros, seguros e fundos de investimento. As altas taxas de juros pagas pelo Master em suas tomadas de crédito (via CDB e CDI) e a fragilidade de suas garantias e ativos (com alta participação de precatórios) chamaram a atenção, preocupação e irritação dos concorrentes. Mas, aparentemente – por mais estranho que seja – não foram suficientes para que o Banco Central, sob a Presidência de Roberto Campos Neto, tomasse qualquer providência. Enquanto isso, as afamadas (por sua incompetência e inoperância) agências de avaliação de crédito e risco ampliavam a nota do Master: em outubro de 2024 a Ficht Ratings passou o Master de BBB para A-.
Em março de 2025, o Banco de Brasília (BRB), controlado pelo governo do Distrito Federal, anunciou um memorando de entendimento para a aquisição do Master. Como os problemas do Master já eram notórios, o Ministério Público do DF ajuizou ação pública para impedir a aquisição. Mas o desembargador João Egmond rejeitou a ação e autorizou o processo de aquisição. Note-se que, à época, já corria à boca (nada) miúda que o BRB adquirira R$ 12,2 bilhões em ativos podres do Master. Ativos que Vorcaro teria adquirido de uma empresa de fachada, a Tirreno, pelo valor (que jamais foram pagos) de R$ 6,7 bilhões. Na prática o BRB – sob controle do governo do DF – doou R$ 12,2 bilhões ao Master. Antes mesmo de adquiri-lo.
Com o despacho do desembargador João Egmond sustando a ação do MP do Distrito Federal, o processo de aquisição do Master pelo BRB continuou tramitando, e foi aprovado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) em 17 de junho de 2025. Mas a situação financeira do Banco vinha sendo estudada pela equipe técnica do Banco Central, que vetou a aquisição em setembro de 2025. Dois meses mais tarde, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master. Na sequência, o Ministro Jhonatan de Jesus, do TCU, colocou sob suspeição a ação do Banco Central e exigiu documentação detalhada do processo, sinalizando a possibilidade de anulação da decisão.
Valadão, Vorcaro, Zettel e Nikolas são legítimos evangelical made men. Vorcaro nasceu em família de classe média alta. Zettel, de classe média baixa. E Nikolas na favela Cabana do Pai Tomás. Todos em Belo Horizonte. Mas, malgrado as diferenças de origem, todos galgaram muito mais que degraus: subiram de elevador supersônico à cobertura da sociedade brasileira. Por isso mesmo, aqui e ali, emergiam dúvidas: não seriam eles laranjas de alguém?
Especialmente no caso do Vorcaro, um nome aparecia com frequência: Nelson Tanure. Quem é Tanure? Um empresário bem-sucedido do ramo das privatizações. Ele é um dos acionistas majoritários da Light (privatizada no governo FHC), da EMAE-Sabesp (Empresa Metropolitana de Águas e Energia de São Paulo, privatizada por Tarcisio de Freitas), da Ligga Telecom (o braço de telecomunicações da Companhia Paranaense de Energia Elétrica do Paraná que foi privatizado por Ratinho Júnior), dentre várias outras. Segundo José Kobori, Tanure usou o Banco Master para exponenciar artificialmente o valor das ações da AMBIPAR (empresa controlada por ele e por Tércio Borlenghi Jr.), que cresceram estrondosos 863% entre junho e agosto de 2024. Essas ações serviram de garantia: 1) para a aquisição da Sabesp, leiloada pelo Governador Tarcísio a preço de xepa de feira; e 2) como lastro para a compra dos ativos podres da Tirreno-Master pelo BRB, autorizada pelo Governador do DF, sr. Ibaneis Rocha.
Ora, senão todos, pelo menos a grande maioria dos fatos arrolados acima são de conhecimento público há muito tempo. Como costuma dizer e escrever um amigo jornalista; “até o reino mineral está ao par da maioria desses causos escandalosos”. Emerge, pois, uma pergunta que não quer calar: seria possível que alguém tivesse a menor sombra de dúvida de que o caso Master envolve políticos com foro privilegiado e que teria de tramitar no Supremo Tribunal Federal?
Aparentemente, a resposta é um rotundo “NÃO”! O que não falta nesse “causo” são “relações perigosas”. Ele dá pano para muitas mangas (para além de um sem-número de abacates e abacaxis). O que seria de se esperar? … Que a imprensa saísse à caça dos fatos e das fotos envolvendo essa turma. Ou não?
LeRdo engano. Passados mais de dois meses da liquidação extrajudicial do Banco Master, a imprensa – inclusive aquela que se pretende e se quer “dixkerda” – só teve um assunto: as possíveis-prováveis prevaricações de Toffoli (e seus irmãos Petralhas) e de Xandão (e sua “conge”, acusada de ser advogada de Vorcaro e receber bem por isso). Em matéria recente, Andreza Matais, do site Metrópoles, incorpora a narradora onisciente e nos dá detalhes quase afrodisíacos sobre o charuto e o vinho que Alexandre de Morais degustava no subsolo da mansão de Vorcaro no primeiro semestre de 2025.
Como bem diz Kiko Nogueira, em matéria jornalística exemplar: o texto de Andreza Matais é um folhetim que não seria aprovado para publicação em revistas de quinta categoria. E ele tem um pressuposto ridículo: Andreza pressupõe que Alexandre de Moraes é um imbecil. Pois só um perfeito idiota ficaria fumando charuto, bebendo vinhos caros e conversando sobre temas escabrosos numa sala com bandidos e testemunhas. Sim! Perfeito! Esse é o ponto! Não se trata de pretender que Moraes ou Toffoli sejam santos. Muitíssimo longíssimo disso! Trata-se de entender que eles não são imbecis e que essas narrativas são tão confiáveis quanto fofoca de vizinha carente de escândalo. … Eu até ousaria ir um pouco mais longe: fofoca de vizinha que recebeu algum “agrado” para divulgá-la. … Dai-me paciência, Senhor..
O STF, nosso bandido favorito.
O processo do Master subiu da primeira instância para o STF por razões que deveriam ser óbvias. Não importa quais tenham sido as justificativas formais para essa transferência. Se fosse dito tudo o que a primeira instância já tinha averiguado, a coisa ia ficar ainda pior. Era melhor manter alguma discrição. Como bem disse Pedro Serrano em entrevista à UOL, “se eu tenho alguma intuição em 40 anos de exercício de advocacia, existem bem mais do que um deputado federal envolvido nessa trama”. Com todo o respeito que tenho ao Serrano, não são necessários 40 anos de advocacia para saber disso. Dois anos de jornalismo seriam suficientes para saber que pelo menos o Governador do DF e de SP, o antigo e atual Presidente do Banco Central, os dirigentes do CADE e pelo menos um Ministro do TCU nos devem algumas explicações. O que, aliás, já é um fato oficial. Mas essa obviedade não foi suficiente para que, durante dois meses, a mídia buscasse informações sobre esses “pares”. Ela parou o país, exigindo que a relatoria do processo do Master fosse retirada de Dias Toffoli; produzindo um escândalo atrás do outro e comovendo todos os corações e mentes que, por intere$$es, ou ingenuidade, exigiam que o Judiciário brasileiro e os Ministros do STF fossem o que nunca foram: perfeitos.
A produção de escândalos foi tamanha e tão difundida que não cabe reproduzi-los aqui. Não há um único brasileiro letrado que não os tenha acompanhado. E, creio eu, parte não desprezível dos leitores desse artigo ficaram tão escandalizados que reproduziram as críticas e acusações em suas redes sociais. Toffoli foi trucidado por todas as suas ações. Desde a carona em jatinho com o advogado de um ex-diretor do Master antes do processo ter chegado ao STF, até a recepção do banqueiro André Esteves no Resort Tayayá em 2023 (mas que foi divulgada com alarde por veículos contrário-idênticos como o Brasil Paralelo e o Mídia Ninja), passando pela acareação de Vorcaro e do ex-Presidente do BRB no final do ano passado e pela sua participação (e/ou de seus irmãos) em empreendimentos de Zettel no Paraná.
Como bem disse Reinaldo de Azevedo, no “O é da Coisa” de 22 de janeiro de 2026:
“Se, cada vez que acharmos ‘imprópria’ a atuação de um Ministro [na vida privada] impusermos suspeição, abre-se a porta para a mais absoluta insegurança jurídica. O Ministro está deixando de fazer alguma coisa que lhe cabe fazer? Se vocês forem olhar, não! Ainda que eu possa achar impróprio isso ou aquilo. O ponto é que se eu abrir suspeição nesse caso, aí vem uma cadeia de suspeições; outras, de todos os lados. Aí o Supremo não decide mais nada. …. Mas do jeito que estão fazendo as críticas, a coisa toda se complica. Ah, porque o Ministro teve segurança nas férias. Ora é um direito do Ministro ter segurança nas férias. Ah, porque parou no Resort que foi dos irmãos dele. É um direito seu parar onde bem entende. E o Resort nem é mais dos irmãos. … Chega!” …
Esse Reinaldo é sujeito perspicaz. Ele viu claramente onde é que o “bicho tá pegando”. Querem desmoralizar o Supremo. É lava-jatismo na veia. Um lava-jatismo que parcela não desprezível da esquerda está comprando. Ao invés de exigir a apuração acelerada do escândalo, pedem, ou que o processo retorne à primeira instância, ou que se faça um novo sorteio na Segunda Turma do STF, de sorte a que a relatoria do caso vá para outro juiz. HELLOOOOOO! Acorda, amigo! Já reparou que, para além de Toffoli, a segunda turma é composta por Luiz Fux, Kássio Nunes Marques, André Mendonça (os três, bolsonaristas) e Gilmar Mendes (o tucano mais esperto e bem articulado da República dos Tupis)? Já reparou que eventuais “vazamentos selecionados” do caso Master no ano eleitoral de 2026 por um juiz formado na forma (cacofonia pouca é bobagem) do Moro vale um Presidente? … Quem mesmo que está interessado em mandar para a primeira instância (de sorte que as investigações só se encerrem em 2030, se tanto) ou fazer novo sorteio? … O que seria melhor? Fux de relator? Ou um juiz de primeira “estância”, cercado de gado por todos os lados? … Haja inocência. A nossa sorte é que a direita tem pressa. E a pressa é inimiga da perfeição. Moro está enrolado com a ação da PF (ordenada por Toffoli) de recuperação de todo o material da Lava-Jato que se encontrava trancado na Justiça Federal do Paraná. Parece que, agora, Toffoli está, até, com a fita da famosa “festa da cueca”. Moro precisa urgentemente desmoralizar o Toffoli. E entrou – via Eduardo Laranja Girão – com uma ação junto à PGR solicitando a suspeição do Ministro Toffoli no caso Master. Deltan Dallagnol não para de produzir vídeos com o tema “tudo o que você sempre quis saber sobre Toffoli e nunca teve coragem de perguntar”. E o MBL organizou manifestações em capitais do país exigindo o afastamento de Toffoli do caso Master.
Ufa! Ficou mais fácil de entender. Há limites para a ingenuidade: sair à rua em protestos ao lado de Moro, Dallagnol e do MBL soa esdrúxulo até para a esquerda mais ingênua e vassourinha. Por pouco, muito pouco, pouco mesmo, a esquerda não replicava 2013 e embarcava em mais uma “festa junina contra tudo o que está aí”. E dá-lhe Black Blocs e Kids Pretos quebrando vidraças Brasil afora em ano eleitoral e pedindo a suspeição de todos os Ministros do STF.
E, pliss, não me venham explicar que o STF não é isento; que ele foi conivente com o impeachment da Dilma e a prisão do Lula. Que o Toffoli impediu o Lula de ser candidato e, até mesmo, de dar entrevistas. … Menos, pliss, menos. Ninguém precisa ser esclarecido do fato evidente (até os bolsonaristas sabem disso! Por favor!) que o Judiciário brasileiro não é isento. O óbvio é o óbvio nada mais do que o óbvio. O complexo está noutro lugar.
O complexo é entender que – na atual conjuntura – a desmoralização do STF interessa pura e exclusivamente ao fascismo. É preciso entender que, hoje, a preservação do STF é fundamental para a preservação da democracia. E isso porque – apesar da hegemonia conservadora da instituição – a ultradireita atravessou o Rubicão. E o fez quando planejou um golpe para manter um simplório no poder e, de quebra, assassinar um Ministro do STF e prender os demais. Gilmar Mendes tem a cara do STF. É um tucano de direita e um juiz que não se envergonha de ser, simultaneamente, um empresário lobista. Mas ele tem inteligência de sobra para saber que: 1) Lula e Alckimin são reformistas e não têm nada de revolucionários; e 2) que os golpistas e seus advogados – que confundem Maquiavel com Saint-Exupéry – são menores do que o Brasil. Com todas as suas limitações políticas e ideológicas, Mendes, Moraes e Toffoli sabem perfeitamente bem disso. A ultradireita, a imprensa golpista e a esquerda-vassourinha é que, aparentemente, ainda não entenderam.
*Carlos Águedo Paiva é Economista, Doutor em Economia e Diretor da Paradoxo Consultoria Econômica.
Foto de capa: Gustavo Moreno/STF/IA




