A inteligência artificial (IA) é uma das várias inovações tecnológicas em desenvolvimento e, na atualidade, a de maior destaque porque rapidamente deixa de ser apenas mais uma promessa de inovação ou uma questão restrita aos especialistas. Cada vez mais, e de forma acelerada, transforma-se em um desafio econômico, social e político central e estratégico do presente e futuro muito próximo. Matéria publicada pelo jornal espanhol El País (14/02) chamou a atenção ao reunir alertas de executivos e pesquisadores diretamente envolvidos no desenvolvimento das tecnologias mais avançadas de IA. O título é eloquente: “La IA causa la alarma de los expertos: ‘Es un sustituto general del trabajo cognitivo’”.
Os alertas não vêm de críticos externos, mas de protagonistas do próprio setor tecnológico. Matt Shumer (CEO da empresa Hiperwrite) e Dario Amodei (CEO da Anthropic), entre outros citados na matéria, afirmam que a IA não representa apenas mais um ciclo de automação, mas uma ruptura estrutural em todo o sistema produtivo e com impactos concretos de substituição ampla do trabalho cognitivo humano.
Para o movimento sindical, essa questão não pode ser tratada como especulação futurista e, muito menos, com pânico ou catastrofismo tecnológico. O sindicalismo é permanentemente desafiado a intervir nos processos que impactam o mundo do trabalho, a sociedade e a democracia para influenciar nos rumos da dinâmica da realidade. Por isso, as inovações tecnológicas sempre se apresentam como um desafio histórico, e hoje com a IA, urgente e estratégico,pois coloca de maneira imperativa no centro da agenda da sociedade a relação entre tecnologia, trabalho, poder, democracia e justiça social.
Da automação à substituição do trabalho cognitivo
Ao longo do século XX, o avanço tecnológico esteve associado sobretudo à automação de tarefas manuais e repetitivas. Nos anos 90 o movimento sindical brasileiro investiu em pesquisas e formação sindical para gerar conhecimento e capacidade de atuação sindical nos locais de trabalho e em processos mais amplos, especialmente por meio da negociação coletiva. Na época, o DIEESE, junto com as Centrais Sindicais e com apoio do MTE e MCT, investiu na formação de milhares de dirigentes sindicais e produziu pesquisas e estudos em cooperação com universidades e pesquisadores nacionais e internacionais.
Aquela dinâmica de inovação dos anos 90 impactou os postos de trabalho, a qualificação profissional e provocou desemprego tecnológico e, muitas vezes, reestruturações dolorosas. Ao mesmo tempo, a atuação do movimento sindical foi essencial porque permitiu reorientar processos e promover adaptações graduais. Foram quase duas décadas nas quais surgiram novos setores e atividades produtivas, novas profissões e ocupações e, com a atuação crítica e propositiva do movimento sindical, novas formas de regulação e proteção dos empregos.
Agora, a inovação tecnológica em curso tem um caráter claramente ainda mais disruptivo, não apenas incremental. Assim como em outros momentos históricos, tecnologias como os computadores pessoais, a internet, os smartphones, a conexão sem fio, as plataformas digitais e, mais recentemente, a energia solar, transformaram profundamente a produção e o mundo do trabalho, o consumo e a vida cotidiana, o atual ciclo de inovação combina e potencializa essas mudanças em uma nova escala. A inteligência artificial, integrada à redes globais de dados, à automação avançada, à robotização, à computação em nuvem e, no horizonte próximo, à computação quântica, cria capacidades produtivas inéditas, ampliando exponencialmente a velocidade, o alcance e a autonomia dos sistemas produtivos. Trata-se de um salto tecnológico que não apenas melhora processos existentes, mas redefine o próprio modo de produzir, organizar e controlar o trabalho em todas as atividades econômicas, no setor privado e setor público.
Mais do que substituir ocupações específicas, a difusão da inteligência artificial tende a provocar uma reorganização profunda das empresas e do próprio sistema produtivo. Como argumenta Diane Coyle (Valor Econômico de 19/02, “IA vai mudar as empresas, não só empregos”), a IA atua como uma tecnologia de uso geral capaz de reconfigurar processos decisórios, modelos de gestão, cadeias de valor e formas de coordenação interna, deslocando o centro da vantagem competitiva para o controle de dados, algoritmos e capacidades organizacionais. Isso implica mudanças na estrutura das empresas, com maior integração entre funções, redefinição de hierarquias, novas exigências de qualificação e crescente dependência de plataformas e infraestruturas digitais.
Agora a inteligência artificial rompe o padrão de inovação tecnológica que substitui força física humana pelo braço mecânica ou pelo robô. Sistemas de IA já são capazes de redigir textos complexos, programar, analisar grandes volumes de dados, produzir diagnósticos, tomar decisões e aprender de forma autônoma. Não se trata apenas de aumentar a produtividade física do trabalho humano, mas de substituí-lo em funções cognitivas no setor de serviços em geral e ocupações denominadas de “colarinho branco”.
Matt Shumer afirma que estamos diante de um choque potencialmente maior do que o da pandemia da covid-19, com a diferença crucial de que, desta vez, o impacto não é temporário. Já Dario Amodei sustenta que a IA caminha para se tornar um “substituto geral do trabalho cognitivo”, com efeitos rápidos e profundos sobre ocupações qualificadas, especialmente para jovens na entrada no mercado de trabalho.
Todos destacam, e isso é fundamental, que o futuro não está determinado e que cabe um urgente e estratégico processo de regulação. Como afirmou Amodei: “Você não pode simplesmente entrar na frente do trem e pará-lo. O único movimento que vai funcionar é dirigir o trem—direcioná-lo 10 graus em uma direção diferente de onde ele estava indo. Isso pode ser feito. Isso é possível, mas temos que fazer isso agora.”
Fica claro o alerta diante do ritmo e da escala da transformação, que são inéditos, bem como o destaque de que as instituições do Estado e organizações sociais não estão devidamente preparadas para lidar com ela. Cabe atuar, com urgência e estratégia, em termos de políticas públicas, educação e sistemas de proteção social para que se tornem preparados para esse ritmo de mudança. O impacto não se limita ao mercado de trabalho, mas alcança o padrão de concorrência, a dinâmica da produtividade e a própria governança econômica, recolocando na agenda pública e sindical a necessidade de regulação, de políticas de difusão tecnológica e de negociação coletiva que assegurem que esses ganhos organizacionais e produtivos sejam socialmente compartilhados.
Produtividade, PIB e o risco do crescimento sem trabalho
Do ponto de vista econômico, a promessa da IA é clara: ganhos expressivos de produtividade, redução de custos e aceleração do crescimento do PIB. Em tese, isso poderia abrir espaço para jornadas de trabalho menores, melhores salários, melhor qualidade dos postos de trabalho e ampliação do bem-estar social.
As escalas dos investimentos são assustadoras. A título de exemplo: US$ 650 bilhões é o valor que as quatro grandes empresas tecnológicas globais (Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft) estimam investir em IA neste ano de 2026! Segundo o CEO da Nvdia, Jensen Huang, espera-se que os gastos globais com a construção de data centers atinjam US$ 1 trilhão até 2028 – por outro lado, a COP luta para conseguir 1,3 trilhão de dólares para salvar o planeta e não tem conseguido!
A história recente, no entanto, recomenda muita cautela. Nas últimas décadas, mesmo com avanços tecnológicos relevantes, observamos crescimento econômico frequentemente dissociado da geração de empregos de qualidade, estagnação salarial, precarização, vulnerabilidades múltiplas, desproteções sociais e previdenciárias, adoecimentos crescentes, aumento das desigualdades e forte concentração de renda. Inovação acelerada e vida dura espraiada!
O que está no horizonte é que a IA pode aprofundar esse padrão, inaugurando uma fase de crescimento sem trabalho, na qual a riqueza é produzida por sistemas automatizados, mas apropriada por um número cada vez menor de empresas e acionistas. Nesse cenário, a pergunta central não é se a economia crescerá, mas quem se beneficiará desse crescimento.
Trabalho decente: um marco que precisa ser atualizado
Essa convergência tecnológica tende a produzir impactos profundos sobre o modo de trabalhar, o tempo e o espaço de trabalho. A distinção entre trabalho presencial e remoto, entre tempo de trabalho e tempo de vida, entre local fixo e trabalho distribuído tende a se tornar ainda mais difusa. A IA, articulada a essas tecnologias, pode permitir níveis elevados de flexibilidade, personalização e produtividade, mas também pode intensificar a fragmentação do trabalho, a vigilância digital, a pressão por disponibilidade permanente e a desestruturação de referências históricas de proteção trabalhista. É nesse contexto que a ação sindical se torna ainda mais decisiva: não para negar a inovação, mas para disputar seus rumos, seus ritmos e, sobretudo, a forma como seus ganhos e custos serão socialmente distribuídos.
Para uma atuação a partir da perspectiva sindical e da classe trabalhadora, a agenda de trabalho decente, formulada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), será cada vez mais uma referência fundamental. Inclusão e emprego produtivo, direitos trabalhistas, proteção social e previdenciária, saúde e segurança, negociação coletiva e organizações sindicais representativas e de ampla base de representação, são pilares essenciais da formatação do novo mundo do trabalho.
Porém, a difusão da IA tensiona os marcos que norteiam a regulação do trabalho e dos direitos trabalhistas. A base material do emprego humano é colocada em questão; os direitos trabalhistas enfrentam novas formas de subordinação algorítmica; os sistemas de proteção social, ancorados no emprego formal, perdem sustentação para a informalidade, para as micro tarefas e para legislações estruturantes da desproteção, como por exemplo, a pejotização; a criminalização dos sindicatos e a fragilização da negociação coletiva; a individualização das relações de trabalho; a opacidade dos algoritmos; empresas capturadas pelos fundos de investimento que mobilizam a maior e mais rápida entrega de resultados aos acionistas. Novos paradigmas se estruturam e passam a exigir respostas inovadoras sob a perspectiva do mundo do trabalho e da justiça social.
Essa realidade exige da agenda do trabalho decente uma abordagem estratégica muito mais complexa, que capacita quadros sindicais para uma intervenção permanente nos processos de trabalho, nos projetos produtivos, nas estratégicas empresariais e para nas regulações nacionais e internacionais. Exige, portanto, sua atualização estratégica, incorporando a governança da tecnologia, em sentido amplo, como elemento central da regulação do trabalho no século XXI.
Transição justa: do clima à revolução digital
Acabamos de sair da Conferência da COP 30, realizada em Belém, na qual os fundamentos de transição justa foram tratados para se incorporarem de forma permanente no debate climático e nos processos políticos de atuação frente a emergência ambiental.
O desafio é estender os fundamentos e princípios da transição justa para os processos da transição digital e tecnológica. Assim como não há transição ecológica justa sem proteger os trabalhadores e as comunidades afetados, não haverá transição tecnológica e digital justa sem amplo controle democrático da inteligência artificial e das inovações tecnológicas.
Uma transição justa no campo da IA pressupõe antecipação dos impactos sobre o emprego, políticas públicas de requalificação contínua, redistribuição dos ganhos de produtividade, fortalecimento da proteção social e previdenciária, participação efetiva dos trabalhadores nas decisões sobre a introdução de novas tecnologias, processo contínuo de regulação ampliada da IA, com aprimoramento permanente e processos robustos de controle social e do Estado. Sem esses elementos, entre outros, a transição digital/tecnológica tende a aprofundar desigualdades, gerar exclusões e instabilidade social.
E o Brasil nesse contexto?
Como mostram outros dois artigos publicados no Valor Econômico de 18/02 pp., a inteligência artificial tornou-se um eixo estruturante da nova ordem econômica e geopolítica, exigindo do Brasil muito mais do que adesão passiva à inovação. No artigo “Onde entra o Brasil na nova ordem da IA?”, Francisco Gaetani e Virgílio Almeida argumentam que a liderança em IA passou a ser tratada globalmente como vantagem econômica, poder político e influência sistêmica, comparável a ativos estratégicos clássicos. Mostram que Estados Unidos, China e União Europeia combinam investimento tecnológico com governança, regulação, política industrial e coordenação estatal, enquanto o Brasil, apesar de inúmeras iniciativas no setor privado e no setor publico, ainda enfrenta fragmentação institucional e ausência de uma estratégia clara de longo prazo, o que exige atuação urgente e estratégica.
Já no artigo “A soberania de IA”, Daniel Lázaro, Robson Sano e Sérgio Mantovani sustentam que o país dispõe de escala, dados, mercado interno e talento para construir uma trajetória própria, destacam casos e projetos já em curso no pais e que evidenciam essa possibilidade, mas é preciso escala, investimento, regulação assertiva e inovadora, para que o país não corra o risco de se tornar apenas consumidor de modelos estrangeiros, caso não trate a IA como questão de soberania econômica, tecnológica e política.
Negociação coletiva: o lugar onde a tecnologia se materializa
A inteligência artificial não se implanta no abstrato. Ela entra nas empresas, nos setores e nos locais de trabalho concretos. Por isso, atuação sindical e a negociação coletiva são instrumentos decisivo para enfrentar seus impactos.
Esses diagnósticos têm consequências diretas para o mundo do trabalho e reforçam a centralidade da ação sindical no debate sobre inteligência artificial. Se a IA redefine a competitividade, a organização da produção e a capacidade de decisão dos Estados, o trabalho não pode permanecer ausente da governança dessa transformação. Cabe ao movimento sindical disputar o conteúdo das estratégias nacionais de IA, exigir transparência algorítmica, participar da definição de marcos regulatórios, defender a proteção do emprego, a requalificação permanente e a partilha dos ganhos de produtividade. Como indicam os autores dos artigos citados, soberania tecnológica não se constrói apenas com infraestrutura, dados e investimento, mas também com instituições democráticas fortes, negociação coletiva ativa e participação organizada dos trabalhadores. Inserir a inteligência artificial no centro da agenda sindical é condição para que a nova ordem tecnológica fortaleça o desenvolvimento nacional, o trabalho decente, a transição justa e a democracia — e não aprofunde dependências, desigualdades e exclusões.
Regulação democrática, um desafio sindical
Os próprios desenvolvedores da IA reconhecem, assim destaca a matéria de El País, que o mercado não é capaz de regular sozinho essa transformação. Isso abre espaço para uma regulação inovadora, que inclusive vá além do direito do trabalho clássico.
Essa regulação deve enfrentar três dimensões centrais. A primeira é a segurança, entendida não apenas como risco técnico, mas como proteção contra impactos sistêmicos sobre o emprego, a democracia e a coesão social. A segunda é a soberania, pois o controle da IA está concentrado em poucas empresas globais, o que fragiliza Estados nacionais e sociedades. A terceira é a supremacia humana: decisões fundamentais sobre trabalho, renda e organização social não podem ser delegadas a sistemas automáticos sem controle democrático.
Estamos diante de uma encruzilhada histórica. A inteligência artificial pode ampliar a produtividade, reduzir esforços penosos e liberar tempo humano. Mas também pode destruir empregos, concentrar poder e esvaziar o papel social do trabalho. O desfecho não está escrito. Ele dependerá da ação coletiva, das políticas públicas e da capacidade das instituições de subordinar a tecnologia ao interesse público.
Por isso, o chamamento à ação sindical. É necessário colocar a inovação e a inteligência artificial no centro da estratégia sindical; disputar políticas públicas que articulem desenvolvimento, proteção social e redistribuição; e construir uma regulação democrática que enfrente os desafios da segurança, da soberania e da supremacia humana frente às máquinas.
Assim como o sindicalismo foi decisivo para produzir direitos e colocar a classe trabalhadora no centro da disputa regulatória e distributiva, na formatação do papel do Estado e das políticas públicas no desenvolvimento do capitalismo industrial, a tarefa agora é democratizar e regular o capitalismo industrial-digital. A tecnologia deve servir ao trabalho, à sociedade e à democracia — e não o contrário.
Foto de capa: IA






Uma resposta
Espraiem, descentralizem, semeiem palestras, seminários, aulas, conferências sobre o tema, pelo País à fora, nao precisa ser só em salões e auditórios, mas de baixo de árvores, fundos de pátios, praças, clubes de bairros, rodas de mate, espaços comunitários, envolvendo sindicatos, suas direções, lideranças de base, a escola do DIEESE formando monitores(as), futuros palestrantes: APROPRIAÇÃO SOCIAL CULTURAL E POLÍTICA DAS NOVAS TECNOLOGIAS.