Nesta semana, decidi dedicar este espaço no Rede Estação Democracia a uma reflexão profunda sobre o livro A Grande Divergência: China, Europa e a Formação da Economia Mundial Moderna (título original: The Great Divergence), do historiador econômico Kenneth Pomeranz. Como economista e pesquisador focado na Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento, sempre encarei o pioneirismo da Inglaterra na Revolução Industrial como um dos quebra-cabeças centrais da história econômica. Além disso, as intersecções entre o crescimento econômico e as leis da termodinâmica — especialmente os constrangimentos biofísicos impostos pela terra e pela lei da entropia — são questões que permeiam fortemente minhas análises sobre o novo-desenvolvimentismo verde. A obra de Pomeranz é brilhante justamente porque ataca o eurocentrismo tradicional e recoloca a ecologia e a energia no centro do debate sobre o desenvolvimento capitalista.
Abaixo, detalho os sete eixos centrais que estruturam a argumentação do autor e que devem ser de interesse obrigatório para qualquer estudioso da economia política:
1. A Metodologia Singular de Comparações Recíprocas
Pomeranz rompe com a tradição das ciências sociais de usar a Europa como o “padrão” ou a norma implícita a partir da qual o resto do mundo é julgado. Em vez de comparar continentes inteiros ou Estados-nação arbitrários (como comparar a Inglaterra com toda a China), o autor foca em comparações entre regiões centrais (“cores”) que possuíam tamanhos, populações e características econômicas semelhantes, como o Delta do Rio Yangzi, na China, e a Inglaterra ou os Países Baixos [cite: 1]. Mais importante ainda, ele utiliza um método de “comparação recíproca”: ele olha para ambos os lados da comparação como “desvios” quando vistos através das expectativas do outro, buscando entender tanto por que a Inglaterra não se tornou um Delta do Yangzi, quanto por que o Yangzi não se tornou a Inglaterra.
2. O Significado de “A Grande Divergência”
Historicamente, o termo refere-se à ruptura dramática ocorrida no século XIX. Pomeranz demonstra que, até meados do século XVIII, as regiões centrais da Europa Ocidental e do Leste Asiático apresentavam semelhanças surpreendentes em termos de sofisticação agrícola, comércio, proto-indústria e até expectativa de vida. A “Grande Divergência” é o momento em que a Europa Ocidental consegue romper com o mundo de restrições malthusianas, entrando em uma trajetória de crescimento per capita sustentado, enquanto o Leste Asiático, mesmo com mercados avançados, esbarra em um impasse ecológico.
3. A Tese Central: Carvão e o Alívio Ecológico
Para Pomeranz, a liderança da Europa Ocidental — e do Reino Unido em particular — não derivou de uma superioridade tecnológica interna pré-existente ou de uma racionalidade única. A Revolução Industrial só foi possível porque a Europa superou uma severa restrição de terras e recursos naturais (um gargalo biofísico formidável). Isso ocorreu graças a duas descontinuidades cruciais: a exploração do carvão mineral, que substituiu a madeira e aliviou a enorme pressão sobre as florestas europeias, e o acesso privilegiado aos recursos do Novo Mundo. A invenção tecnológica (como a máquina a vapor) foi necessária, mas sem a sorte geográfica do carvão e o acesso a recursos coloniais, inovações poupadoras de trabalho teriam esbarrado na falta de terras e energia, forçando a Europa a um caminho de crescimento intensivo em trabalho, muito parecido com o da Ásia.
4. A Rejeição das Interpretações Institucionalistas
Muitos economistas de vertente institucionalista (como Douglass North) argumentam que a Europa saltou à frente por possuir instituições superiores e mercados de fatores de produção (terra, trabalho e capital) mais livres e competitivos. Pomeranz demole essa visão com evidências rigorosas. Ele argumenta que, por volta de 1750, a China possuía mercados que se aproximavam muito mais do ideal neoclássico de concorrência perfeita do que a Europa. Na China, a terra era livremente alienável, o trabalho servil era praticamente inexistente nas regiões centrais e a migração era facilitada. Em contrapartida, a Europa Ocidental estava repleta de restrições que bloqueavam a eficiência smithiana: terras vinculadas (morgadios), monopólios aristocráticos, corporações de ofício (guildas) que barravam inovações rurais e leis de assentamento que restringiam a mobilidade do trabalho. Logo, o dinamismo europeu não nasceu da perfeição de seus mercados internos.
5. O Papel do Novo Mundo e a Crítica à Visão Marxista Tradicional
O papel da expansão ultramarina também ganha um novo contorno. A visão marxista clássica foca na “acumulação primitiva de capital” — ou seja, na riqueza financeira extraída de colônias e escravos que teria financiado as fábricas — e na busca por mercados consumidores externos. Pomeranz ressalta que o capital não era um fator de produção particularmente escasso na Europa do século XVIII e que a demanda interna poderia ter sustentado as manufaturas. O verdadeiro trunfo do Novo Mundo foi o alívio ecológico: a periferia americana forneceu montantes gigantescos de produtos intensivos em terra (como algodão, açúcar e madeira).O trabalho escravo e o sistema de plantations criaram um novo tipo de periferia que exportava “acres fantasmas” para a Europa, liberando as terras europeias e permitindo que o continente focasse capital e trabalho na industrialização.
6. Os Limites da Proto-industrialização e da Revolução Industriosa
Tanto o Delta do Yangzi quanto a Inglaterra vivenciaram expansões maciças de indústrias rurais e manufaturas não mecanizadas operadas por famílias camponesas — o que se convencionou chamar de “proto-industrialização” e “revolução industriosa”. Embora essa fase tenha sido um motor necessário para o desenvolvimento de habilidades, mercados e divisão do trabalho, ela era, por si só, insuficiente para desencadear a Revolução Industrial. A expansão demográfica e proto-industrial gerou uma feroz competição pelo uso do solo (alimentos vs. combustíveis vs. fibras têxteis). Na China, o excelente funcionamento de seus mercados internos levou a economia a um beco sem saída ecológico, onde foi preciso usar cada vez mais trabalho para economizar terra. A Europa só não colapsou no mesmo impasse de exaustão biofísica (“involução”) porque a combinação fortuita do uso de combustíveis fósseis e dos recursos do Novo Mundo quebrou as amarras malthusianas, permitindo que a especialização manufatureira avançasse de forma sem precedentes.
7. O Mito dos Cercamentos e a Reavaliação da “Revolução Agrícola” de Kaldor
Para muitos economistas do desenvolvimento, incluindo a tradição de Nicholas Kaldor, a Revolução Industrial inglesa teria sido precedida e viabilizada por uma vigorosa “Revolução Agrícola”. Nesta visão clássica, os cercamentos de terras (enclosures) teriam gerado um salto de produtividade capaz de: 1) liberar mão de obra para as fábricas; 2) gerar um excedente de alimentos para sustentar a urbanização; e 3) criar um mercado consumidor interno para as manufaturas. Pomeranz, no entanto, utiliza dados históricos robustos para desafiar o peso dessas variáveis, mostrando que a realidade foi bem mais complexa e menos autocontida na Inglaterra.
Em primeiro lugar, sobre os cercamentos de terras, Pomeranz cita estudos recentes (como os de Gregory Clark e Deirdre McCloskey) que demonstram que os ganhos de Produtividade Total dos Fatores (PTF) advindos dos enclosures não foram tão impressionantes quanto a historiografia tradicional (e a marxista, na linha de Robert Brenner) costumava afirmar. Embora os cercamentos tenham aumentado as rendas da terra em cerca de 40%, eles exigiram a absorção de enormes quantidades de capital e trabalho (para construir cercas, drenar pântanos, etc.), recursos que foram desviados de outros usos produtivos. Portanto, não houve um salto mágico de eficiência puramente institucional.
Em segundo lugar, a tese de que a agricultura europeia liberou mão de obra de forma limpa para a indústria precisa ser qualificada. Pomeranz destaca que a Europa do início da era moderna já sofria de níveis crônicos e sem precedentes de subemprego e desemprego rural. Havia uma vasta reserva de “pseudo-excedente de trabalho” alocada na proto-indústria. Logo, o trabalho que fluiu para a indústria muitas vezes já estava subutilizado e não foi simplesmente “liberado” por uma agricultura que subitamente passou a precisar de menos braços por causa dos cercamentos. Pelo contrário, as inovações agrícolas da época, voltadas para aumentar o rendimento por acre, frequentemente exigiam mais trabalho e capital.
O ponto mais contundente de Pomeranz contra o modelo de Kaldor, contudo, reside na questão do excedente de alimentos. O autor demonstra que os rendimentos por acre na agricultura britânica não aumentaram muito entre 1750 e 1850. A agricultura doméstica britânica esbarrou em seus próprios limites ecológicos e tornou-se absolutamente incapaz de alimentar a explosão demográfica do período sem que houvesse um declínio drástico no padrão de vida.
De onde veio, então, o excedente que sustentou os trabalhadores urbanos e as fábricas? Veio de fora. A Inglaterra teve que recorrer massivamente à Irlanda e, principalmente, ao Novo Mundo (América do Norte e Caribe) para importar calorias (açúcar, grãos, batatas) e matérias-primas intensivas em terra, como o algodão e a madeira. O açúcar, por exemplo, tornou-se fundamental para fornecer calorias baratas à classe trabalhadora inglesa no momento exato em que a agricultura doméstica não dava conta da demanda.
Por fim, quanto ao mercado consumidor, a agricultura inglesa de fato consumiu bens industriais, mas a escala de expansão fabril exigiu muito mais do que o mercado interno podia absorver. Para contornar seu gargalo ecológico (como a falta de fibras têxteis em solo europeu), a Inglaterra usou suas manufaturas industriais para trocar por escravos na África e por produtos intensivos em terra no Novo Mundo.
Em suma, Pomeranz não nega que ocorreram melhorias agrícolas, mas destrói a ilusão de que a Revolução Industrial foi o resultado endógeno de uma Revolução Agrícola puramente britânica. Sem os “acres fantasmas” e o alívio ecológico fornecidos pelas colônias, o excedente de alimentos doméstico teria sido engolido pelo crescimento populacional, os salários reais teriam colapsado devido ao preço da comida, e a nascente revolução industrial teria sufocado por falta de insumos biofísicos e mercados externos. É uma lição profunda sobre como a macroeconomia não pode ignorar as fronteiras ecológicas e geopolíticas.
A obra de Pomeranz demonstra cabalmente que ignorar o papel da restrição de recursos naturais e do imperialismo nos leva a falsas conclusões sobre os “milagres” institucionais ou culturais europeus. Trata-se de uma leitura incontornável para pensarmos não apenas na história do século XIX, mas nos desafios ecológicos que enfrentamos no nosso próprio século.
Saudações desde Diamantina, MG.
Foto de capa: Oreiro / IA



Respostas de 2
Muito interessante! É uma contribuição relevante para o meu tema de pesquisa de doutoramento. Com certeza, vou aprofundar atenção sobre Pomeranz.
As críticas ao trabalho de Pomeranz são relativas às fragilidades das bases empíricas e metodológicas. Ver as críticas de:
VILLELA, André. As origens da grande divergência: uma sistematização do debate acerca da ascensão do Ocidente. História Econômica & História das Empresas, v.
XII, n. 2, p. 129-168, 2009.
VRIES, Peer. State, Economy, and the Great Divergence: Great Britain and China, 1680’s-1850’s. London: Bloomsbury, 2015.
VRIES, Peer. Are Coal and Colonies Really Crucial? Kenneth Pomeranz and the Great Divergence. Journal of World History, Hawaii, v. 12, n. 2, p. 407-446, 2001.
At.