A ficção na política e a política na ficção

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Yanis Varoufakis, que a exemplo de mim, tem uma filha adolescente, para começar uma discussão com a menina, escreveu o texto: Star Trek é realmente uma utopia socialista? Essa tentativa urgente de puxar papo com um adolescente sobre política me pareceu interessante. Gostaria de saber dele se funcionou com a menina… De qualquer forma, me parece uma boa ideia para criar um canal de comunicação entre as gerações dessas diversas classificação do alfabeto. O que é certo, é que Varoufakis conseguiu chamar a atenção dos que já não são tão jovens. Até mesmo, porque os mais jovens não sabem o que é Star Trek, mas perguntem o que é One Piece…

O ex-ministro da Grécia, Varoufakis, abordou o possível mundo socialista na série Jornada nas Estrelas. De fato, o ecossistema da série gira em torno de uma federação de planetas que não estabelecem entre si um sistema de dominação imperial. Diga-se de passagem, seus grandes adversários são exatamente raças com pendor de dominação. Romulanos, Klingonsentre outras. Tem os Borgs também, mas sobre esses ele não comentou. Que seja. O que me agrada em Jornada nas Estrelas, é que pelo menos não se trata de uma distopia (pessimismo), gênero que empesteia o universo da ficção cientifica e dos filmes de fantasia. Sendo que essas todas são fornadas da padaria dos EUA, que parecem dizer “nós caindo não há futuro promissor, só a destruição e a barbárie.” Mesmo Jornada nas Estrelas só apresenta uma sociedade utópica (otimismo) depois de uma catástrofe global. A Federação Unida de Planetas (FUP), surge em consequência de uma iniciativa de um gênio bêbado, que vive numa comunidade miserável pós destruição global dos estados. Zefram Cochrane é inventor e cria o motor de dobra. Esse sistema de propulsão possibilita que se ultrapasse a velocidade da luz. Tal avanço tecnológico é o bilhete de entrada para que a humanidade possa brincar no parquinho das raças avançadas da galáxia. Cochrane estudou no MIT, nos EUA, e criou se motor em Montana, nos EUA. Entretanto, no universo ficcional, o criador do motor de dobra se chama Miguel Alcubierre e é mexicano… De qualquer forma o estado imperialista precisou ser destruído!

O interessante é que, em geral nessas obras em muitos casos, não se explora devidamente o tipo de sociedade que existe. Mas, há pelo menos dois casos em que esse cenário social fica bem desenhado, em: Alien, especialmente o Alien: Earth, e Andor. A segunda é do universo Star Wars. Nos dois casos a busca pela acumulação de riqueza e de poder restaram em desgraça e opressão para a grande maioria da população.

A franquia Alien, como eles gostam de chamar, desde o seu primeiro filme, Alien – O 8º Passageiro (1979), já demonstrava um imperialismo interplanetário baseado no capital privado. Além de ser excelente trailer de ficção, terror, suspense, o 8º passageiro apresenta a emblemática personagem Ripley, vivida magistralmente por Sigourney Weaver, provavelmente no seu principal papel na telona. Já deu para ver que eu sou tiete, não é? No filme fica claro que a empresa prefere que sobreviva a espécie mortífera, e rentabilíssima, e que a tripulação de trabalhadores humanos seja sacrificada em nome do Deus capital. Mais ou menos como foi o boicote ao isolamento contra a COVID…

A ideia de que uma missão de exploração e pesquisa a serviço do capital esteja acima da preservação dos trabalhadores, na ficção científica, já havia sido explorada em 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Arthur C. Clarke. Nada se cria, tudo se copeia. Boas estórias são assim…

Então a ficção científica por muitas vezes apresenta essa veia de ficção política, mas nos dois casos, se o autor é bom, são chutes muito bem dados. O ficcionista age como uma espécie de oráculo humano que vislumbra o futuro. Essas olhadelas são meio enevoadas, mas o perfil do todo é sempre perceptível. Dizem que a única engenhoca humana que não fez nenhum estágio nas penas dos ficcionistas foi a internet. Essa aconteceu meio que por acaso…. Na ficção, como na análise política, as coisas não surgem do nada. Antes que a estrutura seja levantada, suas plantas, ou seus alicerces, já dão pistas do tamanho e do desenho da criatura. Nicolelís diz que nossa espécie é a única que constrói sua história com a abstração, em síntese: “o cérebro como criador de tudo”. Marx diria que essa “criança” só brinca dentro das suas possibilidades materiais, e que o criador de tudo teve um criador, um engenheiro: a natureza.  De qualquer forma, como faz muito tempo que estamos nesse jogo histórico, o enigma do ovo e da galinha se aplica a maiorias das coisas vigentes.

A fábula, assim como a religião, que é outra raça de fábula, tem o poder de erguer e destruir coisas belas e coisas malas, é a máxima de que a vida imita a arte e vice-versa. Veja só, o maluco que colocou na sua firma de arapongagem o nome de Palantir. Foi mal Tolkien, tua bola de cristal, criada por Elfos, caiu nas mãos de Orcs. Voltando ao mundo de Aliens, criado por Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke, sim, primeiro o filme depois o livro, em 1968 já indicava as grandes empresas substituindo o papel que sempre coube as instituições do Estado. Aliens deixou mais clara essa imagem, pois a estrutura já estava mais delineada. Na época do 8º passageiro, a URSS já fazia água e o capital babava com a ideia do poder absoluto. E, finalmente, há Alien: Earth, que já possui materialidade suficiente para consolidar a ideia de domínios privados substituindo o clássico Estado burguês por estados criados à imagem e semelhança do absolutismo capitalista. A mais recente caracterização, que eu saiba, dessa coisa reacionária e fascista que se apresenta, é a do economista e ex-Ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, aquele que também tem uma filha. Ele chama esse Cetus de “técnico feudalismo”, e adivinhem quem é a Andrômeda da vez?…. A nossa cabeça de Górgona provavelmente seja o multilateralismo, já que o socialismo dorme em berço esplêndido. No enredo do filme, finalmente espécimes de predadores excepcionais, sequestradas de seus mundos, chegam, pela mano invisível do mercado, no nosso planeta. São cinco as raças de pets adquiridas pelas corporações feudais, a saber: Xenomorfo (XX121): O predador clássico da franquia; Trypanohyncha Ocellus (“O Olho”): D. Plumbicare (“A Orquídea”); Blood Bugs (Insetos de Sangue); Flies (Moscas Alienígenas): essas espécies compõem o ecossistema mortal trazido pela nave USCSS Maginot. Maginot é uma escolha interessante para batizar essa nave, ela tem o mesmo nome da linha de defesa construída pelos franceses para bloquear o acesso dos exércitos nazista ao seu país. Como ferramenta de isolamento ela fracassou pateticamente…

O xenomorfo, ele cresce forte, rápido e inteligente. Se dispõe a ser um alfa, que como diretrizes básicas tem a alimentação, a procriação e a territorialidade. Talvez possamos dizer que é uma metáfora para natureza. A natureza que os poderosos pensam que podem dominar e dispor com melhor lhes concebam. Mas, o xenomorfo não está aí para ser controlado, sua natureza é dominar, o seu poder é enorme e incontrolável. Ele não faz distinção entre poderosos e oprimidos, ele quer é sobreviver e cumprir sua missão. Alien: Earth, tem uma visão retrógrada, pois é um pessimismo determinista visceral. Seus “heróis” estão em confronto com o poder, mas por razões individuais, por tramas pessoais. São funcionários em conflito com a firma. Eles, a exemplo das espécies alienígenas, querem sobreviver e se alimentar. Se unem ao acaso e não por ideias, compromissos com a sociedade, com a humanidade, se único objetivo que parece ser a sobrevivência.

Já Andor é de outra cepa. A série leva o sobrenome do personagem principal. Cassian Andor surge nesse universo no filme Rogue One: Uma História Star Wars. A série conta a história, a gênese desse personagem. Ele é um marginal, no sentido etimológico do termo, que sobrevive fazendo roubos de equipamentos do Império. Não há uma consciência de classe nele e sim um ódio ressentido contra o poder imperial. Em suas missões audaciosas para surrupiar equipamento do Império, adrede encomendados por clientes ocultos, ele busca informações sobre sua irmã. O dois foram separados, ainda no período da república. Cassian foi adotado por Maarva Andor, vivido pela maravilhosa Fiona Shaw, depois que ela teve que retirá-lo do planeta Kenari. Cassian vivia em Kenari com sua tribo composta de crianças e adolescentes, o que faz lembrar a dos meninos perdidos de Peter Pan. Para contextualizar, o Império surgiu pelas tramas secretas urdidas pelo senador Palpatine, que buscava o poder absoluto. Seria um homólogo do Agente Laranja? Mas, não só por isso a decadência da República também se deve a incapacidade da mesma em superar as distinções sociais entre super-ricos e trabalhadores precarizados.  Então, quando a República foi golpeada por dentro, pelo seu próprio parlamento, ninguém saiu em sua defesa. Aqui fica luzidia a comparação com a democracia mundo a fora, e principalmente nos EUA, sob o comando do egocêntrico mitômano.

Depois que a República cai de madura, assume o Império como nova direção. E diversos povos, da ex-república de planetas, se dão conta que não: o fascismo e a democracia formal não são males equivalentes. Em vários pontos da galáxia, pequenas luzes de resistência piscam debilmente. Não há unidade, não há um plano conjunto, só há a convicção que não podem viver sobre o tacão do domínio sem lutar. Cassian representa aquele que tem talento para a luta, mas que ainda não fez sua transição de punguista para revolucionário. Por sua vez, Luthen Rael é o cérebro da insurgência que se oculta a vista de todos, como um afetado negociante de artefatos raros. Ele é um antiquário que se mantêm da necessidade de exibicionismo da elite. Por trás do comerciante vaidoso, há um frio estrategista. Andor é assim é sobre política, não qualquer política e sim a política revolucionária. Nos filmes clássicos da franquia, a Forçaaparece como um campo de energia metafísico, onipresente e mágico, criado por todos os seres vivos que une a galáxia. Ela é algo um tanto místico, que só é dominado por aqueles que nascem com o talento. Já em Andor, a Força é a esperança, a esperança regada a luta, luta desesperada a luta com ínfima possibilidade de vitória. A revolução está acima de tudo e acima de todos. Os rebeldes se colocam num caminho sem volta, são “destruidores de pontes” e os diálogos demonstram isso.

Quando Lonni Jung, que é um agente revolucionário infiltrado nas forças imperiais, quer abandonar a luta ele é instado, por Luten, para que fique e faça o seu sacrifício, ele questiona “e você sacrificou o que?” Ao que Luten lhe responde “Calma. Bondade. Companheirismo. Amor. Abandonei toda chance de paz interior. Transformei minha mente num espaço sem sol. Compartilho meus sonhos com fantasmas. Acordo todos os dias com uma equação que escrevi há 15 anos, da qual só há uma conclusão: estou condenado pelo que faço. Minha raiva, meu ego, minha relutância em ceder, minha ânsia de lutar, tudo isso me colocou num caminho sem escapatória. Anseie ser um salvador contra a injustiça sem contemplar o preço, e quando olhei para baixo, já não havia chão sob meus pés. Qual é o meu sacrifício? Estou condenado a usar as ferramentas do meu inimigo para derrotá-lo. Queimo minha decência pelo futuro de outra pessoa. Queimo minha vida para criar um nascer do sol que sei que jamais verei. E o ego que iniciou essa luta nunca terá um espelho, uma plateia ou a luz da gratidão. Então, o que eu sacrifico? Tudo! ” Ele queimou seus navios… Uau! No senado imperial tem uma senadora que faz jogo duplo contra o Império, em algum lugar desolado há revolucionários que se entregam à pirataria e à uma guerrilha suicida. Já Cassian é aquele personagem fatídico que é arrastado para o meio de algo que nunca quis. Em um acampamento se preparando para uma missão, Cassian encontra Karis Nimik, intelectual e filósofo, que sonha com a vitória da revolução, por mais improvável que ela seja. Cassian acha tudo aquilo loucura e ouve de Nemik[1]: “Lembre-se disto: a liberdade é uma ideia pura. Ela surge espontaneamente e sem instruções. Atos aleatórios de insurreição ocorrem constantemente por toda a galáxia. Existem exércitos inteiros — batalhões — que não fazem ideia de que já se alistaram na causa. Lembre-se de que a fronteira da Rebelião está em toda parte. E até o menor ato de insurreição impulsiona nossas linhas. E então, lembre-se disto: a necessidade imperial de controle é tão desesperada porque é tão antinatural. A tirania exige esforço constante. Ela se quebra, ela vaza. A autoridade é frágil. A opressão é a máscara do medo. Lembre-se disso. E saiba disto: chegará o dia em que todas essas escaramuças e batalhas — esses momentos de desafio — terão inundado as margens da autoridade do Império. E então haverá um a mais. Uma única coisa romperá ocerco.” Isso lembra nós nos anos 80, quando tínhamos a absoluta certeza que estávamos às portas da revolução…

O planeta que Andor vive é Ferrix, uma terra de mineradores. Sua comunidade trabalha duro,e vive o dia-a-dia suportando tudo. O som de uma enorme bigorna faz às vezes de campanário, transmitindo a todos o momento de trabalhar, o momento de parar e o momento de lutar. Quando os operários decidem que não podem mais ficar passivos, o Império treme. E no último momento é revelado quem é de fato Andor, o ente revolucionário não é Cassian (sem spoiler). Andor é a esperança vinda do único lugar que ela pode vir: do povo. Por isso Andor é otimista e mesmo existindo numa distopia, luta determinadamente pela sua utopia, pelo porvir. A desesperança, o ceticismo, o fatalismo não faz parte do horizonte daqueles que querem construir um mundo melhor. E aí está a Força, não em Star Wars, não numa galáxia distante, mas aqui nesse momento histórico.


[1] Alex lawther, que é britânico, faz o papel de Nimik, trabalha também em Alien: Earth como o personagem Joe D. Hermit.


Foto de capa: IA

Sobre o autor

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Giovanni Mesquita
Historiador, museólogo e escritor autor de Bento Gonçalves do nascimento a revolução: uma biografia histórica. Bento1835@gmail.com

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