A Europa, Trump e o Irã

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Numa posição cautelosa, mas fiel ao alinhamento tradicional que mantem com os Estados Unidos desde a Segunda Guerra, a Europa acompanha a guerra com o Irã sofrendo as consequências e o desgaste: alta de preços, aumento dos fluxos migratórios e a insegurança provocados por um conflito como este que ameaça não só a Europa, mas todo o mundo.

Logo em seguida aos primeiros bombardeios dos EUA e de Israel contra o Irã, as principais potências europeias mostraram-se reticentes. França, Alemanha e Reino Unido questionaram a legalidade e a legitimidade dos ataques, destacando a inexistência de uma autorização do Conselho de Segurança da ONU. O presidente francês Emmanuel Macron foi um dos mais críticos, afirmando que não havia provas de uma ameaça imediata iraniana que justificasse o uso da força militar. A posição mais clara de oposição aos ataques, no entanto, foi a do governo da Espanha, liderado pelo socialista Pedro Sánchez. Condenou a violação do direito internacional e avisou que se recusa a apoiar operações militares. Portugal deu autorização aos EUA para usar as bases dos Açores enquanto a Turquia, embora membro da OTAN, manifestou o que chamou de reservas políticas.

Fiel ao seu comportamento de não respeitar sequer os aliados, Trump tem dito que seu país protege a Europa há décadas e não recebe contrapartidas. Chegou a dizer que não defenderia seus aliados da OTAN e que encorajaria a Rússia a fazer o que quisesse se não pagassem o que considera ser a contribuição devida. Diz que a Europa é um conjunto de nações “em decadência” governadas por líderes “fracos”.  Em sua opinião, França e Alemanha são caloteiros no que se refere a defesa, protecionistas em comércio e exemplos de liderança europeia fraca.

A verdade é que a Europa está dividida entre os riscos de uma escalada militar e a dependência histórica que tem da proteção americana. O que chama de intervenção defensiva — envio de navios, caças e sistemas antimísseis — é vista como forma de evitar a exposição direta ao mesmo tempo em que procura não perder o respaldo dos EUA em futuras crises. O medo da Rússia está neste contexto.

A posição da Europa é de não entrar diretamente na guerra — mas também não é neutra. Ao optar pela defesa e pela cooperação logística, assume um papel que, embora cauteloso, a insere no conflito. Procura mostrar que, em tempos de alianças militares e ameaças globais, a neutralidade tornou-se impossível.

A Espanha

A Espanha opõe-se à guerra contra o Irã e rejeitou categoricamente qualquer cooperação militar com os EUA, como o uso das bases em Rota e Morón, e defendeu uma solução diplomática baseada no direito internacional. O primeiro-ministro Pedro Sánchez classificou o ataque dos EUA e Israel como “ilegal” e “desastre”. Negou acordos de cooperação defendidos por Donald Trump e fez um apelo pelo fim do conflito antes que se prolongue.

Apesar de criticar o regime iraniano por reprimir seus cidadãos, Sánchez declarou que a recusa não implica apoio a Teerã. Trump ameaçou a Espanha com embargos comerciais que foram depois desmentidos. O Irã agradeceu publicamente a Espanha por se opor aos ataques.

A posição da Espanha, isolada entre os principais membros da UE (como Alemanha, França e Reino Unido), cria divisões internas na União Europeia, destacando um racha entre apoio à guerra dos EUA/Israel e a defesa do direito internacional.

A França e a Alemanha

Tanto a França quanto a Alemanha têm procurado se manter num equilíbrio delicado entre condenar asações iranianas e a resistência à estratégia militar adotada pelos Estados Unidos e Israel.

Embora sejam aliados históricos de Washington, Paris e Berlim têm buscado se distanciar da “Operação Fúria Épica” iniciada em 28 de fevereiro, focando na contenção da escalada e na proteção de rotas comerciais. Ambos os países procuraram deixar claro, por meio de comunicados conjuntos com o Reino Unido, que não participaram dos ataques iniciais que resultaram na morte do líder Ali Khamenei.

O presidente Emmanuel Macron classificou a ofensiva como um erro estratégico e manifestou o temor de uma desestabilização regional irreversível. Ele tem liderado apelos no Conselho de Segurança da ONU por um cessar-fogo imediato.

Sob o governo do democrata-cristão Friedrich Merz, Berlim adotou a postura que já foi definida como de subserviência crítica. Embora Merz tenha rotulado o regime iraniano como “bárbaro”, a Alemanha evita o envolvimento direto em combates terrestres ou bombardeios ofensivos e procura priorizar a diplomacia.

Com o fechamento do Estreito de Ormuz a prioridade passou para o que ambos os países passaram a chamar liberdade de navegação.  Assinaram uma declaração conjunta com o G7 e outros aliados afirmando prontidão para ações defensivas no sentido de garantir a passagem de navios.

A França movimentou o porta-aviões Charles de Gaulle para o Mediterrâneo/Oriente Médio, declarando proteger interesses europeus e evitar que a economia global entre em colapso devido à alta do petróleo.

O temor expresso tanto por Paris quanto Berlim é quanto ao risco de crises migratórias massivas para o continente europeu.

O choque

A economia europeia está sentindo o já chamado “choque de 2026”, provocado principalmente pelo fechamento parcial do Estreito de Ormuz e ataques a infraestruturas no Catar e na Arábia Saudita. O preço do barril de petróleo (Brent) ultrapassou os US$ 110, chegando a picos de US$ 119 logo após o início da operação “Fúria Épica”. Os preços do gás natural dobraram desde o início da guerra (28 de fevereiro). Em meados de março, houve um salto adicional de 30% a 35% após retaliações iranianas a campos de gás.

Governos europeus já discutem cortes de impostos e subsídios de emergência. Em países como Portugal e Alemanha, o aumento no preço dos combustíveis foi quase imediato.

Analistas do ING Research alertam que, se o conflito persistir, a zona do euro pode entrar em recessão já no próximo verão. A Europa está agora na primavera e o verão é logo ali.


Foto de capa: Reino Unido, França e Alemanha autorizaram pousos de aviões americanos em suas bases, mas não sem ressalvas | Foto: Michael Kappeler/Pool/dts Nachrichtenagentur/IMAGO

Sobre o autor

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Celso Japiassu
Autor de Poente (Editora Glaciar, Lisboa, 2022), Dezessete Poemas Noturnos (Alhambra, 1992), O Último Número (Alhambra, 1986), O Itinerário dos Emigrantes (Massao Ohno, 1980), A Região dos Mitos (Folhetim, 1975), A Legião dos Suicidas (Artenova, 1972), Processo Penal (Artenova, 1969) e Texto e a Palha (Edições MP, 1965).

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