A diplomacia como negócio de família

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Há momentos na política internacional em que a linha que separa o interesse público do interesse privado não apenas se torna difusa — ela simplesmente desaparece. É exatamente isso que parece estar acontecendo no governo de Donald Trump.

Uma reportagem recente do New York Times revelou que Jared Kushner — genro de Trump e enviado especial dos Estados Unidos para o Oriente Médio — está simultaneamente tentando captar bilhões de dólares para sua empresa privada de investimentos junto aos mesmos governos com os quais negocia diplomaticamente.

O episódio não é apenas embaraçoso. Ele é um retrato cristalino da transformação da política externa em negócio privado.

Segundo a investigação, Kushner está tentando levantar mais de 5 bilhões de dólares para sua firma de private equity, Affinity Partners, principalmente junto a fundos soberanos do Oriente Médio — os mesmos atores com quem ele negocia temas delicadíssimos de segurança internacional.

Entre eles está o Public Investment Fund da Arábia Saudita, controlado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. Esse fundo já investiu 2 bilhões de dólares na empresa de Kushner logo após o fim do primeiro governo Trump.

Ou seja: a porta giratória entre diplomacia e negócios não apenas continua aberta — ela está escancarada.

O conflito de interesses mais escandaloso da diplomacia contemporânea

A situação é particularmente grave porque Kushner não é um simples empresário com conexões políticas. Ele exerce funções diplomáticas centrais.

Nos últimos meses, ele participou diretamente de negociações internacionais sensíveis:

  • conversas com o ministro das Relações Exteriores do Irã em Genebra
  • negociações envolvendo reféns em Gaza
  • tentativas de mediação entre Rússia e Ucrânia
  • participação na delegação oficial americana no Fórum Econômico Mundial de Davos

Em Davos, segundo o próprio New York Times, Kushner discutia ao mesmo tempo os planos geopolíticos dos Estados Unidos para Gaza e os planos de captar bilhões para sua empresa.

Em qualquer democracia funcional, isso seria considerado um conflito de interesses gritante.

Nos Estados Unidos de Trump, parece ser apenas mais um dia de trabalho.

A privatização da política externa

O caso Kushner não é um desvio isolado. Ele revela algo mais profundo: a privatização da política externa americana.

 A diplomacia de uma potência global deveria ser guiada por interesses estratégicos nacionais, princípios institucionais e normas jurídicas.

No universo político criado por Trump, esses critérios parecem ter sido substituídos por algo muito mais simples: quem paga mais.

O Oriente Médio tornou-se um exemplo particularmente evidente dessa lógica. As mesmas monarquias petrolíferas que compram armamentos americanos e financiam projetos bilionários também aparecem agora como investidores privilegiados em empresas ligadas diretamente ao círculo familiar do presidente.

Nesse contexto, torna-se impossível separar:

  • decisões diplomáticas
  • interesses financeiros
  • relações pessoais

A política externa transforma-se, na prática, em um gigantesco mercado de influência.

A promiscuidade entre poder e capital

Para compreender a gravidade do episódio, basta imaginar a situação inversa.

Imagine que um negociador chinês responsável por tratar de segurança energética no Golfo estivesse simultaneamente levantando bilhões de dólares para sua empresa privada junto aos mesmos governos com quem negocia.

Ou que um diplomata europeu conduzisse negociações de guerra enquanto captava investimentos pessoais entre os envolvidos no conflito.

O escândalo seria imediato.

Mas quando isso acontece no coração do poder americano, a reação institucional é surpreendentemente tímida.

Um grupo de vigilância ética em Washington já solicitou que Kushner seja submetido às mesmas regras de transparência financeira aplicadas a funcionários públicos.

Até agora, a Casa Branca sequer respondeu.

O capitalismo político em sua forma mais nua

O episódio revela algo que vai muito além de um problema de ética pessoal.

Ele expõe uma transformação estrutural do capitalismo contemporâneo: a fusão entre poder político e acumulação privada de riqueza.

Não se trata mais apenas de lobby ou influência corporativa. Trata-se da captura direta do Estado por redes familiares e financeiras. Nesse modelo, o governo deixa de ser um instrumento de política pública e passa a funcionar como plataforma de negócios.

Diplomacia vira networking.

Conflitos internacionais tornam-se oportunidades de investimento.

E cargos públicos passam a funcionar como alavancas para captação de capital.

Um império que já não disfarça

Durante décadas, os Estados Unidos se apresentaram como guardiões de regras institucionais, transparência e governança global.

Mas episódios como o de Jared Kushner mostram algo diferente: um sistema político cada vez mais dominado por interesses privados, redes familiares e grandes fortunas.

O problema não é apenas moral.

É geopolítico.

Porque quando a política externa da maior potência do planeta passa a se confundir com os interesses financeiros de um pequeno círculo de bilionários, a credibilidade internacional do país sofre um abalo profundo.

E quando a diplomacia se transforma em negócio de família, a pergunta inevitável deixa de ser diplomática.

Passa a ser histórica:

quem realmente governa — o Estado ou o capital?


Foto de capa: Jared Kushner, genro do presidente dos EUA, Donald Trump, vai ser responsável pela reformulação do governo norte-americano | Foto: Paulo Emílio

Sobre o autor

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Maria Luiza Falcão
PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É membro da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia (ABED). Entre outros, é autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England/USA.

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