Por LUIZ CÉSAR SILVA*
A economia mundial atravessa um dos períodos mais difíceis e delicados de sua história recente. Desde a eclosão da grande crise financeira internacional de 2008, não se observou uma recuperação plena e sustentada da atividade econômica global. Ao contrário do que ocorreu em crises anteriores do capitalismo, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, o sistema econômico internacional tem apresentado crescimento lento, irregular e marcado por fortes desequilíbrios. Ao longo de aproximadamente 17 anos, o mundo tem convivido com baixas taxas de expansão do produto, estagnação da produtividade, fragilização do mercado de trabalho e aprofundamento das desigualdades sociais, fenômeno que muitos analistas passaram a denominar de “grande recessão prolongada”.
Esse cenário de baixo dinamismo econômico é acompanhado por um endividamento crescente e generalizado. Empresas e famílias acumularam níveis elevados de dívida, muitas vezes como estratégia para sustentar artificialmente o consumo e evitar colapsos mais profundos da demanda agregada. Todavia, esse endividamento excessivo limita a capacidade futura de investimento, reduz a margem de atuação das políticas públicas e aumenta a vulnerabilidade das economias a choques financeiros. A situação torna-se ainda mais preocupante quando se observa que tais fragilidades se combinam com um aumento considerável da desigualdade de renda e riqueza, criando um círculo vicioso no qual crescimento fraco, concentração de renda e instabilidade financeira se reforçam mutuamente.
Grande parte desses problemas está associada à incapacidade de reformar adequadamente o capitalismo contemporâneo e de enfrentar as causas estruturais que deram origem à crise de 2008. Apesar da gravidade daquele colapso financeiro, as reformas implementadas no sistema financeiro internacional foram extremamente limitadas e insuficientes. A regulação dos mercados financeiros permanece muito frágil, permitindo a continuidade de práticas especulativas de alto risco. Basta ver o caso do Banco Master no Brasil. Os grandes bancos continuam “grandes demais para quebrar”, o que significa que operam com a expectativa implícita de resgates do ESTADO em caso de dificuldades, socializando prejuízos enquanto privatizam lucros. Passado o momento mais grave da crise, os lucros, bônus e dividendos do setor financeiro rapidamente retornaram a níveis semelhantes aos observados antes de 2008, sem que houvesse contrapartidas significativas em termos de maior estabilidade ou contribuição para o desenvolvimento econômico.
Assim, as políticas monetárias expansionistas, baseadas em injeções maciças de liquidez pelos bancos centrais, ajudaram a evitar um colapso sistêmico, mas também alimentaram a formação de novas bolhas especulativas em diversos mercados, como o imobiliário, o acionário e o de ativos financeiros complexos. Esse excesso de liquidez, ao invés de se traduzir em investimentos produtivos e geração de empregos de qualidade, foi em grande parte, canalizado para atividades financeiras, reforçando a financeirização da economia e aprofundando distorções já existentes.
Uma dificuldade central do capitalismo atual relaciona-se à forma como ele tem tratado três pilares fundamentais para o funcionamento da economia e da sociedade: o trabalho, a terra (ou a natureza) e o dinheiro. No que diz respeito ao trabalho, a mercantilização atingiu um ponto crítico. Em muitas economias, os salários cresceram muito abaixo da produtividade do trabalho, resultando em uma redução significativa da participação dos rendimentos do trabalho na renda nacional. Esse sistema implica que os ganhos do crescimento, quando existem, são apropriados de forma desproporcional pelo capital, em especial pelo capital financeiro.
O mercado de trabalho tornou-se cada vez mais precário. Taxas de desemprego elevadas convivem com a expansão de formas atípicas de ocupação, como contratos temporários, trabalho intermitente, terceirização excessiva e plataformas digitais que transferem riscos e grandes inseguranças futuras para os trabalhadores. A insegurança no emprego e a perda de direitos trabalhistas enfraquecem o poder de barganha dos trabalhadores, reduzem o consumo e comprometem a coesão social. Esse sistema colabora para a sensação generalizada de insegurança econômica e para o aumento do descontentamento social.
No que se refere à natureza, a exploração dos recursos naturais atingiu níveis alarmantes. O modelo de crescimento baseado no consumo intensivo de energia fóssil e na degradação ambiental colocou o planeta em risco. As mudanças climáticas, a perda de biodiversidade, a poluição dos oceanos e o desmatamento em larga escala são evidências de que o sistema econômico atual opera além dos limites ecológicos. Apesar da gravidade da crise ambiental, os países têm demonstrado grande dificuldade em estabelecer mecanismos eficazes de coordenação internacional para enfrentar o aquecimento global. Interesses econômicos de curto prazo, pressões de grandes corporações e disputas geopolíticas dificultam a adoção de políticas ambientais mais ambiciosas e coerentes.
O dinheiro, por sua vez, tornou-se cada vez mais um fim em si mesmo, em vez de um meio para facilitar a produção e a troca. A financeirização da economia estimulou a criação de instrumentos financeiros complexos e de estratégias sofisticadas de valorização do capital no circuito financeiro, frequentemente desvinculadas da economia real. Ao mesmo tempo, aprofundaram-se os canais de interação entre o Estado e grandes grupos financeiros, resultando em práticas de captura regulatória, corrupção e uso intensivo de paraísos fiscais para evasão e elisão tributária. Esse sistema, orientado pelo ganho imediato e pela maximização do lucro, corrói as bases morais sobre as quais o capitalismo foi historicamente construído.
A consequência social desse modelo são bárbaras. A sociedade encontra-se cada vez mais dividida e fragmentada. A desigualdade de renda e riqueza cresce de forma considerável, com os estratos mais ricos (das elites) ampliando continuamente sua participação na renda nacional. Grandes volumes de incentivos fiscais, isenções tributárias e benefícios específicos são concedidos a setores empresariais influentes, enquanto políticas sociais e serviços públicos sofrem restrições orçamentárias. O lobby empresarial exerce forte pressão sobre os governos, moldando políticas públicas em favor de interesses privados.
Em países como os EUA, as grandes corporações desenvolvem uma função central no financiamento de campanhas eleitorais, exercendo influência significativa sobre o processo político. Esse fenômeno enfraquece, de forma considerável, a democracia representativa, pois reduz a capacidade do sistema político refletir as preferências da maioria da população. Os mais ricos mostram-se cada vez menos dispostos a contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, concentrando esforços em maximizar seus rendimentos, mesmo que isso ocorra às custas da maioria. Esse comportamento afeta negativamente a confiança nas instituições democráticas e reforça a percepção de que o sistema está “viciado”.
Como resultado, observa-se uma crise de legitimidade da democracia liberal. A participação política diminui, especialmente entre os grupos mais pobres e vulneráveis, que se sentem excluídos do processo decisório. O eleitor médio frequentemente percebe que não há alternativas reais e que a escolha entre diferentes candidatos pouco altera os rumos da política econômica e social. Nesse ambiente de frustração e descrença, proliferam candidatos e movimentos populistas de caráter antissistêmico, que oferecem soluções simplistas para problemas complexos. Esses discursos frequentemente alimentam a xenofobia, o racismo e práticas autoritárias, colocando em risco direitos civis e conquistas democráticas.
A crise da democracia se articula com a crise do Estado de bem-estar social. Em muitos países, sistemas de proteção social e serviços públicos foram enfraquecidos por políticas de austeridade fiscal, privatizações e cortes de gastos. Isso reduz o apoio às parcelas mais vulneráveis da população justamente em um momento de maior insegurança econômica. O paradoxo é que as condições que justificaram a criação do Estado de bem-estar social — como desigualdade, desemprego e riscos sociais — não apenas persistem, como se intensificaram. Embora a nova etapa do capitalismo dificulte o financiamento desses sistemas, a sua ausência aprofunda a exclusão social e agrava a crise de legitimidade do próprio sistema econômico.
Historicamente, o capitalismo mostrou capacidade de adaptação e reforma. No século XIX, foram aprovadas legislações antitruste e estabelecidas restrições às doações empresariais em campanhas políticas, com o objetivo de limitar o poder excessivo dos monopólios. Nos anos 1930, em resposta à Grande Depressão, houve uma ampla reformulação institucional: o sistema financeiro foi regulado, a agricultura recebeu apoio estatal e o Estado de bem-estar social foi consolidado. Essas transformações criaram as bases para o longo ciclo de prosperidade do pós-Segunda Guerra Mundial, entre 1948 e 1972.
O problema central do presente é a ausência de uma economia política capaz de viabilizar novas reformas estruturais. O capitalismo neoliberal, ao enfraquecer sindicatos, movimentos sociais e segmentos estratégicos da administração pública, minou as forças que historicamente impulsionaram reformas e equilibraram o sistema. Sem contrapesos institucionais robustos, o poder econômico concentra-se de forma excessiva, dificultando a construção de consensos políticos em torno de mudanças necessárias.
No plano internacional, as perspectivas também são pouco animadoras. A governança econômica global enfrenta sérias limitações. A arquitetura financeira internacional, marcada por assimetrias e fragilidades desde a crise dos anos 1970, não foi adequadamente reformada. O dólar continua a desempenhar o papel de principal moeda internacional, apesar das fragilidades associadas ao elevado déficit em conta corrente e à grande dívida externa dos Estados Unidos. A ausência de regras estáveis e mecanismos eficazes para o financiamento de países em dificuldades contribui para a volatilidade dos fluxos de capitais e limita o crescimento do comércio internacional.
A partir de meados da década de 2020, o mundo passou a vivenciar uma nova onda de protecionismo. Barreiras comerciais, disputas tarifárias e tensões geopolíticas se intensificaram, enfraquecendo a cooperação internacional. Em vez de iniciativas coordenadas para resolver conflitos e promover o crescimento global, observa-se uma tendência à fragmentação da economia mundial. Esse movimento ocorre justamente em um contexto de crescente interdependência entre os países e de expansão de problemas supranacionais, como migração, crime organizado, epidemias e degradação ambiental.
Paralelamente, o aumento dos conflitos bélicos em diferentes regiões do planeta aumenta um elevado grau de incerteza à economia internacional. Guerras e tensões geopolíticas afetam cadeias globais de valor, pressionam preços de commodities estratégicas e desviam recursos públicos para gastos militares. Em vez de fortalecer instituições multilaterais capazes de lidar com esses desafios, o mundo assiste à ascensão e à reeleição de lideranças em países centrais que desprezam, de forma brutal, a cooperação internacional, a diplomacia e os valores democráticos.
Em síntese, o cenário global é estabelecido por profundo pessimismo. A combinação de baixo crescimento, desigualdade, crise ambiental, fragilidade democrática e tensões geopolíticas cria condições propícias para novas crises econômicas e sociais. Em um cenário extremo, não se pode descartar a possibilidade de uma derrocada mais ampla do sistema econômico e social, com consequências severas para grandes parcelas da população mundial.
No Brasil, a situação não é substancialmente mais favorável. O país enfrenta, há décadas, um processo de estagnação econômica, caracterizado por baixas taxas de crescimento do produto e da produtividade. Comparado a outros países emergentes, o Brasil apresenta desempenho inferior e dificuldades persistentes para enfrentar problemas estruturais, como a baixa qualidade da educação, a insuficiente capacitação da mão de obra e a limitada capacidade de inovação. Esses fatores restringem a competitividade da economia e dificultam a inserção do país em segmentos mais dinâmicos do mercado internacional.
As dificuldades brasileiras não são apenas econômicas, mas políticas e institucionais. O sistema político desempenha papel central tanto na resiliência quanto na ineficiência do modelo econômico. Empresas utilizam redes de influência para se proteger da concorrência, garantir acesso privilegiado a contratos públicos e obter financiamento em condições favoráveis. Esse ambiente reduz a produtividade, distorce a alocação de recursos e inibe o empreendedorismo inovador.
Além disso, há grande lentidão na implementação de reformas estruturais essenciais. Grupos organizados se apropriam de maneira desproporcional dos recursos do Estado, enquanto políticas públicas voltadas para o interesse coletivo avançam lentamente. A desigualdade de renda permanece elevada, e os governos enfrentam dificuldades recorrentes para equacionar a questão fiscal, reduzir a taxa de juros e criar condições para um crescimento sustentado e inclusivo.
Por assim, tanto no plano internacional quanto no nacional, o desafio central compreende em reconstruir as instituições, fortalecer a democracia e reorientar o sistema econômico para objetivos que vão além da maximização do lucro de curto prazo. Sem um esforço coordenado de reforma do capitalismo, que incorpore preocupações sociais, ambientais e democráticas, o risco é a perpetuação de um modelo incapaz de oferecer prosperidade, estabilidade e justiça social para a maioria da população.
*Luiz César Silva é pós-doutorando em Economia pela Universidade do Porto; Doutor em Administração Pública pela Universidade do Minho (Portugal), Mestre em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro – Escola de Governo – FJP, Especialista em Controladoria e Finanças pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e Economista pela Universidade Católica de Petrópolis – UCP. É Professor de Administração e Gestão Pública no Instituto Politécnico de Bragança, Escola de Administração Pública, Comunicação e Turismo de Mirandela (EsACT-IPB). Lecionou no Departamento de Relações Internacionais e Administração Pública da Universidade do Minho. Atualmente, é membro do Comitê Científico da revista “Public Administration Research: Canadian Centre for Science and Education”.
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