A casa de praia

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A waterfront house on the beach with a beautiful setting sun in the horizon

Por JORGE BARCELLOS*

Existe um clichê que, com certo grau de justificação, compara momentos criativos com os topos das montanhas e o tempo cotidiano com a planície, ou com os pântanos. Aqui, a vida cotidiana é comparada a um solo fértil. Uma paisagem sem flores ou florestas magníficas pode ser deprimente para o caminhante; mas flores e árvores não devem nos fazer esquecer a terra que as sustenta. Henri Lefebvre, Critique de la vie quotidienne, 1947.

A virtude do homem não é medida por feitos extraordinários, mas por seus esforços diários.  Blaise Pascal, Aforismos, 1670.

Escrevi sobre minha piscina antes de escrever sobre minha casa de praia, o que é um péssimo começo para meu próximo livro, “Vida junto ao mar ainda é possível?” A ideia dele me veio agora, ao imaginar como reunir os ensaios que venho escrevendo para RED como quem procura um fio condutor do que vive enquanto está no momento, na praia.  Eu me inspiro na obra de Santiago Molina, Arquitetura das pequenas coisas, que recebeu o XIV Prêmio Ensaio de Málaga em 2022 e foi publicado pela Editora Páginas de Espuma no ano seguinte. Não vejo melhor nome para uma editora que publique coisas sobre o mar. Eu, que quero escrever sobre ele, nunca publicarei em Málaga, já que, se quase ninguém me conhece em Porto Alegre, imagina lá.

Molina parte do fato de que nos acostumamos a incluir o qualificativo extraordinário em qualquer coisa. De barítonos a um secador de cabelo, tudo pode ser alienado do comum porque vem acompanhado deste adjetivo. “O feitiço vaidoso e intoxicante do extraordinário nem sequer foi resistido pela arquitetura, tornando-se algo completamente vulgar e insignificante. Tal é o excesso do extraordinário que seu antônimo, o pouco extraordinário, o cotidiano, parece um cenário vazio. No entanto, a vida cotidiana e a arquitetura são valiosas e dignas, mesmo que, em aparência, sejam invisíveis.”

A casa ordinária

O que acho interessante em seu pensamento é que ele vê a coisa menos extraordinária da arquitetura, a casa, o habitat mais imediato do ser humano e “ponto de partida diário”, o lugar a que foi submetido a dimensões existenciais profundas. Adoramos o fascínio do imenso, dos shoppings passando pelos arranha-céus, mas falar sobre nossas casas também é um assunto sério, por mais simples que a casa seja. Penso nisso olhando minha singela casa de praia a seis quadras do mar. Tenho de caminhar tanto que ainda me pergunto se posso chamá-la assim. Mas eu gosto de minha modesta moradia de praia de aposentado.

A razão é que a casa de praia, como tantas outras, é este lugar pouco valorizado de onde partem nossos relacionamentos com os outros, diz Molina.  É verdade. Já falei em RED de meus problemas em meu apartamento de Porto Alegre, seja com vazamentos ou com vizinhos. É diferente de minha vida na praia. Aqui, a distância que uma casa tem da outra faz diferença em relação a um apartamento. Sai o “um sobre o outro”, que um prédio de apartamentos impõe, para o “um ao lado do outro”, que agora, casas, determinam a minha vida e dos meus vizinhos. É como se a vida em apartamentos fosse exatamente isso, apertamentos, enquanto a vida em casas fosse plena.

O que ensina a casa

Molina afirma que, embora não tenhamos conseguido ainda dar uma forma adequada às casas nesse contexto, “mesmo sabendo que elas crescem em um terreno ameaçado e inseguro, muitos arquitetos proclamam teorias indubitáveis sobre habitação“, diz o arquiteto cético com as versões tecno-eco-barrocas. Molina não quer uma nova teoria para explicar essas “casas”, quer apenas considerá-las já, de pronto, o exemplo que se basta do mundo arquitetônico em geral.   Por isso, a pergunta que fórmula é essencial: “O que a casa e seus cômodos podem nos ensinar?” Para Molina, o que é extraordinário é que numa casa você percebe “o murmúrio do tempo como um verdadeiro sismógrafo”. A casa é o grande depósito não apenas de vestígios técnicos, mas culturais. “Quando uma casa luta para ser o centro a partir do qual reconstruir a intimidade, qualquer cataclismo virulento revela que sua capacidade de refúgio, embora esquecida, permanece intacta”, diz Molina.  

A casa como refúgio: gosto dessa ideia. Quando chove no meu prédio de apartamentos, é como se o perigo não estivesse perto de mim. Há outros apartamentos sobre o meu e mesmo o prédio, com seu imenso telhado, me separa da chuva; na casa de praia não, estou sozinho olhando o teto que me separa da chuva que se abate sobre a casa. É o seu teto que é seu refúgio e nada mais, o que, de certa forma, aproxima mais a mim da casa. Eu passo a confiar na minha casa porque estou nela. Olho periodicamente seu telhado para ver suas condições estruturais e isso diz muito de nosso relacionamento: cada um cuida do outro. Eu cuido da casa e sei que, de alguma forma, a casa cuida de mim.

A descoberta da casa

Eu gosto desse tipo de interpretação porque auxilia eu dar sentido à minha casa de praia, que, como disse, num mundo de tremenda desigualdade social, é um privilégio. Eu sei que não deveria me culpar porque trabalhei ininterruptamente 37 anos para conquistar um patrimônio que nem será meu no futuro, mas de meus filhos. Eu quero deixar minha casa de praia como herança, mas eu já a recebi como uma herança de quem a me vendeu.

Tudo começou naquela visita ao corretor Schumacher, de Cidreira. Depois de tentativas de compra de casas em praias ditas “melhores”, como Tramandaí, vimos que o que estava ao nosso alcance era realmente a popular e singela praia de Cidreira, a “Princesinha das Praias”. Notou que até o nome está no diminutivo? Eu e a praia que habitamos sofremos de falta de autoestima: tudo o que é dos outros é melhor, pensamos, inclusive as praias, mas não deveria ser assim. O litoral é democrático: a praia de Cidreira é a mesma de Xangri-lá ou Capão. A diferença fica pela divisão social de classes entre praias. Se há uma divisão social entre ricos e pobres, há uma divisão social nas praias, que faz com que ricos estejam em Xangri-lá e pobres, de Cidreira para baixo. Isso, é claro, é o senso comum. Basta você viver em Cidreira para saber que há diferentes classes sociais aqui, inclusive, há ricos como há em outras praias, apenas, por alguma razão, preferiram ficar por aqui. Mas o que me chama atenção no exemplo de Molina é que basta uma casa qualquer, e de praia, por exemplo, para percebermos o extraordinário murmúrio do tempo.

A memória inscrita numa casa

Eu sei disso porque, quando adquiri minha casa de praia, outros tempos estavam aqui inscritos. Sempre que se compra uma casa na praia, ela, a casa de praia, já tem muitas histórias para contar. A minha conta é que suas paredes viram a vida dos pais do vizinho que morava na casa ao lado, mais moderna, e que me vendeu a casa que herdou onde moravam seus pais. A casa que chamo agora de “minha casa” é a mais antiga, mas é, no entanto, muito acolhedora. É verdade que os cômodos são um pouco pequenos, nada que seja muito fora da média. Mas o que havia de diferente quando chegamos eram os móveis de uma outra geração. Mais antigos. Eu sabia que era da mãe de meu vizinho, uma senhora idosa que agora morava com o seu filho, um senhor que morava na casa ao lado. Ele tinha problemas de pele e por isso chamava a atenção a sua com manchas. Elas eram ss marcas visíveis como a casa tinha suas marcas invisíveis que chamamos memórias. Ele era da RGE e vinha com a filha veranear mais ou menos na mesma época que nós. Depois, só a filha. Depois só a filha com seu marido. Depois só a filha, seu marido e seu filho. O tempo passa. A memória fica. Foram vinte anos.

Molina diz que uma casa resiste a tudo, até a um sistema de rotulagem. Não temos como padronizá-las. Ele afirma que o “pensamento conservador e marxismo mais beligerante tentaram, sem sucesso, apropriar-se de sua vida cotidiana …o que acontece todos os dias em suas entranhas permanece tão estranho à grandiloquência quanto a luz do sol, a saudação ou um banho quente”. Ele diz isso porque quer valorizar a arquitetura mais tradicional, de nossas casas simples familiares, onde nela a luz que brilha “no coração das coisas no cômodo cotidiano”. Olho minha casa na praia e penso como deve ter sido feliz a família que ali viveu; os pais vendo os filhos crescerem; os filhos, com seus filhos, num pátio grande onde o cão pode brincar.   Ali “a vida junto começa”, diz Molina, o que o autor ressalta, em primeiro lugar, porque a casa é organizada do jeito que é: você entra, como sempre, pela sala, mas em seguida, está na cozinha. O centro da casa é esse par sala-cozinha porque é onde as pessoas estão juntas, diferente dos quartos, que se posicionam lateralmente com suas portas e permanecem fechados; a cozinha e a sala se comunicam. “Os seres humanos precisam manter certa distância da observação íntima dos outros para se sentirem sociais”, diz, citando Richard Sennet. Os quartos têm portas geralmente sempre fechadas, mas a sala e a cozinha têm uma ampla passagem. É a mesma lógica da casa dos parentes em que vivi na infância, a casa da minha tia.

A casa da minha tia

A casa da tia era muito maior que a minha na praia. Ela é perto do Hospital Banco de Olhos. Uma casa grande com uma ampla garagem, com um canto do pátio onde havia uma caixa d’água e um canto onde ficava o tanque de lavar roupa. Com tanta coisa, o pátio era pequeno, ao contrário do pátio de minha casa de praia, que é grande. Já as peças, todas, eram maiores. Você sabe se está numa casa de rico ou de pobre pelo banheiro. A de rico tem banheiro grande, e até banheira, como a de minha tia; a de pobre, não passa de um banheiro 1mx 3m. Como o da minha casa de praia. Sempre achei a casa da tia de rico, afinal, meu tio era piloto da Varig e construiu seu patrimônio. A casa da tia tinha um corredor de caminho diferente: ia-se da sala, passando pela cozinha até a sala de estar, ampla de uma passagem só. Da sala, acessava-se dois quartos; da varanda, um. Os quartos da tia eram fechados, como os de minha casa de praia. É como se as casas tivessem sua linguagem, uma semântica própria. Não, a casa não é o espaço privado, ela reproduz o público e o privado.

Ao contrário do que propõe outro autor célebre, o antropólogo Roberto DaMatta, entendo que não é a rua que nos faz sociais, mas a casa.   Para DaMatta, a casa simboliza o âmbito privado, hierárquico e relacional, com a prevalência da harmonia familiar, um mundo à parte protegido da desordem externa, enquanto a rua, por ser domínio público, é impessoal e igualitário, espaço onde é associado ao estado. Molina vê de forma diferente, já que na casa, nos tornamos indivíduos sociais: não é que um mundo seja um e o outro, outro, mas o primeiro interpenetra e dá sentido ao segundo.  Os professores foram os primeiros a apontar isso quando salientaram que a forma como os pais educam seus filhos é essencial à educação escolar. Por isso, ele finaliza sua introdução afirmando que “Além disso, se não for fácil encontrar palavras para se referir à grandiosidade insuportável da arquitetura incomum, anormal ou espetacular, ao menos em relação ao ‘nada extraordinário’, pode ser tentado.”

A casa e o capitalismo

Isso significa que, frente a uma arquitetura que produz mansões como casas de praia, como as de Xangri-lá, talvez uma casa simples em Cidreira possa falar muito mais do mundo como deveria ser do que o mundo como o capitalismo quer que seja.  Olho o bairro centro onde minha casa está: somente vejo casas, e as de no máximo dois andares, é muito raro. Penso em fazer um segundo andar em meu anexo, como forma de ampliar espaço, e lembro que, no máximo, são prédios de 4 andares em Cidreira. Se o fizer, estarei quase fazendo um arranha-céu para a região; já em Balneário Camboriú o que se vê é a verticalização extrema provocada por seus arranha-céus; Cidreira ainda é uma praia tradicional, “coisa do passado”, mas o futuro, que chegou a algumas praias, esse eu não desejo para ninguém: os arranha-céus de luxo transformam a cidade num polo turístico a custa de quê? À custa da redução da sociabilidade urbana, algo em abundância em Cidreira. Conheço os vizinhos da minha casa ao lado, conversamos muito, algo praticamente ausente de minha vida de apartamento na cidade. Eles me conhecem, falamos e conversamos. Isso é possível nos arranha-céus de Balneário Camboriú?  

É claro que casas tradicionais já fizeram parte da paisagem desses imensos prédios desde os anos 50, mas a altura deles quer priorizar a vista panorâmica e áreas comuns como valor, um modelo de luxo especulativo. As casas de Cidreira ainda são casas tradicionais, elas não têm vista alguma, além da rua, exceto se estiverem na beira da praia. É verdade que, se a beira do mar encanta, ela também traz o medo da ressaca. Por outro lado, não há área comum alguma, exceto a que cada um puder fazer, o que é feito com a piscina, e por isso, muitos a têm. A diferença é que nas casas ninguém é autossuficiente, de alguma forma, dependemos uns dos outros nas casas, diferente dos prédios de apartamento de Camboriú, onde cada um é feito para ser autossuficiente. Mas a questão é que, em Cidreira, é justamente isso que nos faz privilegiar a integração com os vizinhos que inexiste na privacidade e no individualismo que passa das mansões à beira-mar para os prédios de apartamentos luxuosos de Camboriú. Aqui não, ontem um vizinho me pediu uma chave Philips e isso já foi motivo para uma longa conversa. Quem pede chave ao vizinho num prédio daqueles?

    

A praia tradicional

Esse modelo de praia tradicional me atrai. Enquanto Camboriú, mas também outras praias, sofrem com problemas de saneamento e trânsito, aqui em Cidreira eles são raros e esparsos Na minha rua, a única agitação e barulho é provocada pelos quero-quero que de manhã costumam gritar; eventualmente, algum papagaio passa também pela rua, mas o melhor está aqui: carros, só de hora em hora, às vezes nem isso, principalmente no verão; no inverno, às vezes são dias sem passar um carro, a não ser que eu mesmo vá fazer as compras da casa no centro. A cidade não é vítima da especulação imobiliária, ao contrário, há centenas de casas para vender sem comprador. Essas pessoas querem sair de Cidreira porque acreditam que o bom é em Xangri-lá e Camboriú, seu sonho de consumo. Bobagem! Quanta energia perdida que poderia ser aproveitada na santa paz de Cidreira, na convivência calma e lenta de um vizinho com o outro.

Por que gosto de minha casa na praia? Porque ela me evoca o sentimento que Jaime Bartolomé descreveu em seu Alegria Arquitectônica (ou como emocionar desenhando edifícios para a sociedade contemporânea) publicado por Ediciones Asimétricas. Ele parte da teoria dos afetos de Spinoza para propor uma relação da casa com a pessoa e que produz o sentimento ou afeição de alegria; eu sinto que também, por sua geografia, minha casa de praia tem o mesmo poder de produzir alegria, ao menos em mim. Tudo o que está fora da casa também produz em mim a sensação de alegria, como quando meu filho colocou iluminação externa própria para confraternizarmos em família. Olho nos arranha-céus de Camboriú e só sinto tristeza: como aqueles moradores deixaram o capital chegar lá assim?

A casa táctil nos salva do capitalismo digital

O autor construiu uma tipologia arquitetônica onde os elementos dos prédios estimulam nossos afetos e, de uma certa forma, é o que minha casa de Cidreira faz. Dos diversos aspectos que o autor enumera, o táctil é o que mais faz sentido em minha casa, já que ela é algo que você toca: em todo o momento é preciso fazer algo pela casa, o que se chama também de manutenção. Mas também só de ficar na rede, você embala suas emoções. Você fica na piscina ou faz o churrasco com amigos no seu espaço. Tudo isso é a dimensão tátil de que fala Bartolomé.

É que descobrimos que o que se opõe ao mundo digital que nos absorve e domina é, justamente, o mundo tátil. O mesmo de que fala Richard Sennett em seu livro O artesão. No mundo das telas, voltar a usar as mãos em outros instrumentos que não o digital, isso sim é revolução. É isso que minha casa de praia oferece. Nela, resisto ao capitalismo de vigilância de Shoshana Zuboff, recupero minha experiência humana que as práticas neoliberais querem extrair. Quem diria que, como diz Han, bastaria um jardim numa casa de praia para enfrentar os gigantes da tecnologia, pois permite que recupere minha autonomia individual. É possível lutar contra o capital mesmo de… Cidreira!


*Jorge Barcellos é graduado em História (IFCH/UFRGS) com Mestrado e Doutorado em Educação (PPGEDU/UFRGS). Entre 1997 e 2022 desenvolveu o projeto Educação para Cidadania da Câmara Municipal. É autor de 21  livros disponibilizados gratuitamente em seu site jorgebarcellos.pro.br. Servidor público aposentado, presta serviços de consultoria editorial e ação educativa para escolas e instituições. É casado com a socióloga Denise Barcellos e tem um filho, o advogado Eduardo Machado. http://lattes.cnpq.br/5729306431041524

Foto de capa: Freepik

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