A Capital da Cafonice

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Por SOLON SALDANHA*

Balneário Camboriú, em Santa Catarina, se tornou a terra prometida de novos-ricos rastaqueras, não apenas do vizinho Estado como também de outros pontos do país. A cada ano, a outrora agradável praia do litoral catarinense tem se esforçado para superar seus próprios absurdos. Hoje abriga empreendimentos imobiliários que atraem a fina-flor do sertanejo, empresários do agronegócio e tantos mais que precisam ostentar tudo o que alcançaram na vida – de preferência sem ter que contar como foi que conseguiram isso. É assim que suas ruas têm a maior quantidade de automóveis Ferrari e Porsche por quilômetro. Que lojas de grife são abertas, vendendo produtos que os compradores não precisam, sem que estes perguntem o preço. E que a competição favorita de todos se tornou saber quem irá levantar o edifício mais alto.

O paredão que tirou o sol da praia, obrigando que houvesse a tentativa de empurrar o mar para um pouco adiante, não para de ganhar mais e mais construções, cada vez com maior número de andares. E aquela “solução” não deu certo, no início transformando a faixa de praia em um lamaçal, um território que seguido se equiparava com areia movediça. Agora, se formam degraus tornando a área, além de feia, complicada para que turistas e moradores nela se instalem. Voltando à competição insana das construtoras e de “investidores”, estão agora anunciando que lá será construído o prédio mais alto de toda a América Latina.

Quem está à frente deste projeto megalomaníaco é o proprietário da rede de lojas Havan, Luciano Hang, em parceria com Francisco Graciola e seu filho Jean Graciola, proprietárias da FG Empreendimentos, uma empresa que cresceu mais de 3.000% nos últimos sete anos. Com o nome de Senna Tower – pobre do Ayrton, não merecia este tipo de “homenagem” – a torre terá 204 apartamentos e 18 mansões suspensas, com coberturas triplex. No site que a anuncia falam em plantas dinâmicas, com design integrado e experiências como um elevador que levará automóveis direto às salas dos proprietários. Também estão previstas áreas de lazer e de contemplação – sugiro muitos espelhos, ao melhor estilo Narciso, pois não olharão só para o mar –, num total de seis mil metros quadrados distribuídos em diversas alturas do prédio. Elas terão espaços wellness e fitness com spa, piscina aquecida, academia, pilates, sala de massagem e sauna. 

Com 157 andares residenciais e 550 metros de altura, a obra está orçada em R$ 3 bilhões, devendo ficar pronta em 2033. É a “Dubai Brasileira”, que não consegue sequer enfrentar e muito menos resolver seus muitos problemas sociais, prometendo levar para mais perto do céu gente que terá dificuldades para entrar no verdadeiro. Enquanto isso, a praia se mostra quase sempre – talvez só escape quando os responsáveis pela verificação da balneabilidade estejam “distraídos” – imprópria para banho. Isso ocorre pela precariedade da infraestrutura de esgoto e por causa das chuvas, que carregam poluição da rede pluvial.

O cinturão de pobreza está crescendo e moradores mais antigos relatam aumento de furtos nas regiões centrais, indicando que a alta densidade populacional e de turistas atrai também a criminalidade. Ainda existe e cresce muito a aplicação de “arquitetura hostil”, como aquela que instala pedras pontiagudas sob estruturas como pontes e em áreas de convivência, para evitar a presença de pessoas em situação de rua. Essas mesmas estão sendo recolhidas pela “carrocinha humana”, sendo encaminhadas para outras cidades, coercitivamente, segundo denúncias feitas inclusive em reportagem no Fantástico. Enquanto isso, existem investigações do Ministério Público, ainda de administrações anteriores, relacionadas com descaso em serviços essenciais, improbidade e contratações ilegais de servidores públicos.

Voltando ao prédio, o “Véio da Havan” e seus sócios ainda ficarão bem distantes do Burj Khalifa, que existe em Riad, na Arábia Saudita. Esse tem 828 metros de altura, sendo o maior do mundo. Mas, não por muito tempo, uma vez que no norte daquela capital, nas proximidades do Aeroporto Internacional King Khalid, deve ser erguido outro, com 678 andares e impressionantes dois mil metros (2 km) de altura. Os pilotos que se cuidem.

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*Solon Saldanha é jornalista e blogueiro.

Texto publicado originalmente no Blog  Virtualidades.

Foto de capa :CAMBORIÚ NEWS

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