O Supremo Tribunal Federal entrou num pega pra capar em plena reta final da eleição presidencial.
André Mendonça coloca Alexandre de Moraes sob suspeita. Moraes reage com informações que atingem Mendonça. Mendonça afasta a cúpula da Polícia Federal. Flávio Dino manda reintegrá-la. Ministros ameaçam levar ao plenário acusações contra os próprios colegas. Edson Fachin precisa intervir para impedir que decisões de ministros do STF anulem decisões de outros ministros do STF.
Não é apenas uma crise interna do Judiciário.
A guerra no Supremo já entrou na campanha presidencial.
E entrou favorecendo Flávio Bolsonaro.
Enquanto STF, PF e PGR ocupavam o centro do noticiário, perderam espaço justamente os assuntos que mais incomodavam Flávio — Banco Master, Daniel Vorcaro e os milhões destinados a Dark Horse. Ao mesmo tempo, desaparecia da agenda uma sequência de pautas populares que Lula pretendia transformar em impulso eleitoral.
Para entender como chegamos até aqui, é preciso voltar alguns dias.
Quem acendeu o pavio
Mendonça determinou que a PF produzisse, em apenas 72 horas, um relatório reunindo referências encontradas no material de Daniel Vorcaro a Alexandre de Moraes, ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral Paulo Gonet.
A PF entregou o material em 27 de agosto. No dia seguinte foi autuada a Petição 16.662. Em 31 de agosto, Mendonça deu cinco dias à PGR para se manifestar.
Não esperou.
Em 1º de setembro, antes do fim do prazo que ele próprio havia concedido à PGR, levantou o sigilo e colocou as informações no centro do debate nacional.
O prazo de 72 horas foi escolhido por Mendonça. O momento da divulgação também.
E isso aconteceu quando Dark Horse se tornava cada vez mais incômodo para Flávio e Lula começava a colher resultados de uma ofensiva política no Congresso.
Foi aí que a bomba explodiu.
Moraes era o alvo perfeito
Alexandre de Moraes não é personagem secundário nessa história.
Ele se tornou símbolo da reação institucional ao bolsonarismo e da responsabilização dos envolvidos na tentativa de golpe de Estado. Colocá-lo sob suspeita significa atingir muito mais do que um ministro.
Moraes passa a representar o STF. A Polícia Federal vira “a PF de Lula”. A PGR entra no mesmo pacote. E Lula é colocado no comando imaginário de uma engrenagem sobre a qual não exerce controle.
Há uma falsificação elementar nessa narrativa: Moraes não foi indicado ao STF por Lula. Foi indicado por Michel Temer.
Mas Flávio passou a associar Lula à crise, acusou um suposto grupo do presidente dentro da PF e transformou Mendonça no contraponto ao “sistema”.
O mecanismo político é poderoso:
se o investigador é inimigo, a investigação vira perseguição; se o juiz é adversário, a decisão judicial vira arma eleitoral.
E o investigado troca de lugar com o investigador.
O que saiu do noticiário
Flávio tinha muito a explicar.
Ele está formalmente sob investigação por suspeitas relacionadas ao financiamento de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Participou pessoalmente das negociações com Daniel Vorcaro e solicitou cerca de R$ 134 milhões. Pelo menos R$ 61 milhões a R$ 64 milhões foram repassados.
Em maio, prometeu prestação pública de contas sobre o dinheiro em 30 dias.
A prestação não veio no prazo prometido.
Em 1º de setembro, justamente quando Mendonça colocou Moraes no centro do furacão, novas informações sobre os repasses de Vorcaro para Dark Horse aumentavam a pressão sobre Flávio.
Então a pauta virou.
Levantamento da Datrix sobre 2,3 milhões de publicações, entre 25 de agosto e 9 de setembro, mostrou que a presença do Banco Master no universo monitorado despencou de 53,7% para 9,4% quando a guerra envolvendo STF e PF dominou a discussão.
Para Flávio, o efeito foi ainda mais revelador: seu saldo de sentimento era de -34,1 quando o Master aparecia e de +25,2 quando o assunto estava ausente.
A cortina de fumaça teve beneficiário.
Os números mostram quem.
E Lula também desapareceu
A fumaça cobriu o outro lado da eleição.
Em 26 de agosto, Lula acertara com Hugo Motta e Davi Alcolumbre uma ofensiva para avançar pautas de grande apelo social: fim da escala 6×1, fim da taxa das “blusinhas”, segurança pública, minerais críticos e estímulos a data centers.
A oposição conhecia o potencial eleitoral dessas medidas. Aliados de Flávio trabalharam para impedir, por exemplo, que o fim da escala 6×1 fosse definitivamente votado antes do primeiro turno.
O fim da taxa das blusinhas tornou-se uma vitória concreta do governo. Outras propostas avançaram ou foram represadas.
Mas a semana que poderia consolidar uma agenda positiva para Lula passou a ser dominada pela guerra no Supremo.
O resultado foi sob medida para Flávio: as notícias ruins para ele perderam espaço; as notícias boas para Lula também; e a eleição foi deslocada para o terreno preferencial do bolsonarismo — a guerra contra o “sistema”.
Quando Moraes devolveu o golpe
Moraes reagiu.
Levou a Fachin informações produzidas pela própria PF envolvendo Mendonça, inclusive seu encontro com Daniel Vorcaro. Parte do material era qualificada pela própria PF como análise de cenário, sem valor probatório.
Mas outra contradição apareceria na abertura dos procedimentos do Master.
Quando Mendonça retirou o sigilo de 15 processos, investigações politicamente explosivas continuaram fechadas — entre elas a que alcançava Flávio e Dark Horse.
O contraste era evidente: o que atingia Moraes apareceu rapidamente; o que atingia Flávio permaneceu sob sigilo.
Moraes pediu a Fachin abertura sem “escolha seletiva” e apontou cerca de 180 peças ainda fora da publicidade. A PGR também reagiu.
Fachin determinou então que Mendonça abrisse o conjunto dos procedimentos relacionados ao Master e à Operação Compliance Zero, preservando apenas diligências cuja divulgação pudesse comprometê-las.
Quando o sigilo começou a cair, Dark Horse voltou ao palco.
Do contra-ataque ao pega pra capar
A crise subiu outro degrau quando Mendonça, atendendo a pedido do partido Novo, afastou Andrei Rodrigues e o diretor de Inteligência da PF, Leandro Almada.
Em plena eleição presidencial, um ministro do STF afastava a cúpula da Polícia Federal.
Dino reagiu e determinou a reintegração.
Seu caminho processual foi questionado por juristas, mas a sequência dos acontecimentos não pode ser invertida: Mendonça iniciou a ruptura. Dino respondeu.
O pega pra capar que hoje domina o Supremo estava instalado.
Fachin precisou suspender as decisões conflitantes e centralizar os processos para impedir que a guerra entre ministros comprometesse ainda mais a autoridade da Corte.
A bomba lançada contra Moraes começava a atingir o próprio STF.
Desmoralizar o árbitro
É aí que a disputa eleitoral encontra sua consequência institucional mais perigosa.
Se a PF investiga Flávio, é “a PF de Lula”.
Se Moraes decide, é perseguição.
Se Dino reage, é interferência eleitoral.
Se a PGR atua, faz parte do “sistema”.
E, quando ministros do Supremo entram em guerra entre si, sobra uma conclusão simples para oferecer ao eleitor: ninguém ali merece confiança.
Desmoralizar o árbitro ajuda a desmoralizar qualquer decisão que ele venha a tomar.
E isso acontece numa eleição separada por poucos pontos.
O Datafolha realizado entre 8 e 10 de setembro encontrou Lula com 39% e Flávio com 35% no primeiro turno. No segundo, 46% a 44%. A coleta terminou antes da exposição completa das novas informações sobre Flávio e Dark Horse.
Numa eleição assim, mudar a agenda pode mudar votos.
E mudar votos pode mudar o presidente.
Primeiro a eleição, depois o STF
Flávio precisava responder sobre Vorcaro, Master, Dark Horse e dezenas de milhões de reais.
Lula queria falar de 6×1, blusinhas e resultados do governo.
A bomba mudou a conversa.
O beneficiário imediato foi Flávio Bolsonaro.
Mas a destruição da confiança nas instituições pode continuar servindo ao mesmo projeto depois das urnas.
Flávio já prometeu anistiar Jair Bolsonaro e os condenados pelos atos do 8 de Janeiro. Também afirmou que poderá recorrer ao indulto presidencial se o Congresso não resolver a questão.
Seu campo trabalha abertamente para ampliar no Senado a bancada favorável ao impeachment de ministros do Supremo, especialmente Moraes.
A sequência está sendo construída à vista de todos:
deslegitimar quem investiga; desacreditar quem julga; transformar condenados em perseguidos; conquistar a Presidência e força no Senado; anistiar; afastar ministros; alterar a correlação dentro do STF.
E se o STF disser não?
Jair Bolsonaro foi condenado pela tentativa de ruptura constitucional. O movimento que pretende voltar ao Planalto nega essa tentativa, quer beneficiar seus condenados e combate as instituições que impediram seu sucesso.
Se Flávio vencer e encontrar no STF, na PF ou em outras instituições obstáculos ao seu projeto, até onde irá o confronto?
A pergunta inclui medidas excepcionais e, no limite, uma nova tentativa de ruptura do Estado Democrático de Direito.
Porque golpes não começam quando os tanques aparecem.
Começam quando uma parcela suficiente da sociedade é convencida de que as instituições que serão atacadas merecem ser atacadas.
É por isso que o pega pra capar no STF interessa muito além dos onze ministros.
A bomba tem dois tempos.
No primeiro, a guerra dentro do Supremo interfere na eleição e favorece Flávio Bolsonaro.
No segundo, o descrédito produzido agora pode ser usado contra as instituições que amanhã tentarem impor os limites da Constituição.
A disputa imediata é pelo Palácio do Planalto.
A seguinte pode ser sobre quanto ainda valerão os freios do Estado Democrático de Direito.
Ilustração da capa: A crise aberta no STF desloca o foco do Banco Master e de Dark Horse, coloca Alexandre de Moraes no centro do confronto e projeta seus efeitos sobre a disputa presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro. Crédito: Ilustração produzida por inteligência artificial para a Rede Estação Democracia.


