Projeções do Fundo Monetário Internacional para 2026 indicam que a Ásia seguirá como região de avanço econômico mais rápido do mundo, com cerca de 60% do total do crescimento global, a despeito das incertezas despertadas pela política comercial dos Estados Unidos, com um crescimento médio esperado dos países da região em torno de 4,1%. Nas economias avançadas do Ocidente o crescimento médio esperado é de 1,8% (praticamente estável em relação ao 1,7% de 2025), sendo o desempenho nos EUA, 2,4%, superior ao 1,3% esperado dos países da zona do euro. É possível que os gastos públicos em armamentos e infraestrutura na Alemanha e o desempenho médio melhor de Espanha e Irlanda incrementem esse resultado. Todavia a recente guerra iniciada por EUA e Israel contra o Irã e todo o seu impacto econômico, especialmente no setor de energia, podem alterar completamente estas previsões, a depender da duração do conflito. A União Europeia tem grande participação do Oriente Médio em seus importações de petróleo, em torno de um quarto do total do petróleo importado.
O crescimento médio anual do PIB dos países asiáticos entre entre 1995 e 2025, segundo dados do FMI, foi de 5,4% ao ano enquanto que nas economias da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico a média no mesmo período foi de 1,9% ao ano. A economia da Ásia quintuplicou de tamanho enquanto a economia dos países do Ocidente aumentou 80% no mesmo período. No critério de paridade de poder de compra (PPC) as economias asiáticas já somam 48% do PIB global contra 32% do Ocidente.
Evidentemente que parte dessas diferenças tem explicação na comparação entre economias de alta renda per capita, consideradas “maduras”, com países partindo de patamares de renda per capita bem mais baixos. A construção de infraestruturas já consolidadas nos países ocidentais (habitação, rodovias, telecomunicações, etc.) e a incorporação de grandes massas populacionais ao mercado de consumo, resultado da elevação de sua renda, dão o “impulso” para que o crescimento econômico dos países asiáticos seja maior. Mas este desenvolvimento, independentemente deste fator, não teria ocorrido não fossem as políticas dos Estados Nacionais da região, que têm por objetivo superar as diferenças em relação às economias ocidentais.
A industrialização acelerada na Ásia teve como contraponto justamente um processo de desindustrialização nos países ocidentais, o que políticas industriais e protecionismo, nos anos recentes, nos EUA e na Europa, tem buscado enfrentar. O Estado desenvolvimentista asiático investiu fortemente em infraestrutura (a China é o caso mais marcante, chegou a ostentar mais de 40% do PIB de taxa de investimento), buscou conferir subsídios às empresas de setores estratégicos, atrair empresas do Ocidente que buscassem custos menores de produção (em especial, trabalhistas), em casos como o chinês aliado à elevada capacitação da mão-de-obra local, e tributários, alocou maciçamente recursos em educação (estão nas primeiras posições do ranking de educação internacional PISA) e priorizou as áreas da sigla em inglês STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) para se tornarem “criadores” e não apenas “montadores” de tecnologia. A migração de centenas de milhões de pessoas da agricultura de subsistência para a cidade e uma demografia favorável, com grande população jovem, foram e continuam sendo fatores bastante relevantes também para entender este processo.
As elites do atlântico norte se enxergam pressionadas, pela ascensão asiática, especialmente chinesa e, no caso das elites europeias, também pelo conflito russo-ucraniano (que instigaram) e pela posição descompromissada e mesmo ameaçadora dos Estados Unidos frente aos aliados da OTAN. Uma questão que tem aparecido nos debates acerca dessa crescente disputa entre economias ocidentais e economias asiáticas seria a de uma suposta vantagem dos regimes considerados autoritários frente às democracias ocidentais, por suas políticas governamentais não precisarem passar pelos trâmites da democracia representativa, com o seu tempo, suas exigências e a adaptação do conteúdo aos acordos permitidos pela correlação de forças dos parlamentos. Além disso, o judiciário é visto no Ocidente como “independente” e garantiria o cumprimento das constituições e leis ordinárias, mesmo que contrárias à vontade do governante.
Então, quando Donald Trump anunciou recentemente a maior desregulamentação ambiental já feita nos Estados Unidos, liberando fábricas e veículos automotores de obrigações anteriores relativas à restrições de poluição, não apenas interesses de setores ligados aos combustíveis fósseis estão sendo economicamente premiados e a legislação ambiental atacada, mas também estas ações estão fundadas na ideia de que na Ásia os países vem promovendo seu desenvolvimento sem “amarras regulatórias” e de que estas preocupações são prejudiciais ao crescimento econômico dos EUA. Não deixa de ser um tanto irônico que a Agência de Proteção Ambiental, a qual Trump vem atuando para enfraquecer, ter sido criada no governo do conservador Richard Nixon. Outro ponto a se destacar é que, no caso da China, embora tenha se tornado o país que mais emite CO2 no planeta (o que é compreensível pelas suas dimensões econômica e demográfica) e ultrapassado os EUA, é também o país que mais investe em energias renováveis no mundo.
O desenvolvimento asiático dos países mais dinâmicos, dos gigantes China, Índia aos países da sua parte sudeste, conforme descrito nos primeiros parágrafos deste texto, é fortemente guiado pelo Estado e, especialmente no caso chinês, conduzido por uma perspectiva de planejamento de longo prazo. O Ocidente, contudo, nas três décadas que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial, especialmente nas maiores economias, com políticas econômicas bastante diferentes das atuais, com forte participação, coordenação e regulação estatal, teve resultados muito melhores em termos de crescimento econômico e melhoria das condições materiais de vida da população, essencialmente com os mesmos mecanismos da democracia representativa que possui até hoje. Nos últimos 40 anos, os países ocidentais abandonaram parte importante de suas políticas, regulações e participações diretas (empresas estatais), buscaram liberalizar suas economias e permitir que o setor financeiro privado tivesse, em geral, preponderância sobre os demais setores. O peso da coordenação do Estado e não uma suposta vantagem de estruturas políticas autoritárias sobre suas congêneres democráticas é o ponto essencial nesta comparação e na vantagem dos asiáticos sobre os ocidentais nas últimas décadas.
Publicado originalmente em Observatório Internacional do Século XXI.
Foto de capa: IA





