Momento Propício para Buscar Novos Caminhos para o Mundo

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Por ARLINDO VILASCHI*

O que vem sendo feito por Trump à frente do governo dos EEUU nada mais é do que uma gota d’água a desnudar práticas antigas da política externa estadunidense. Seja no campo econômico, geopolítico ou militar.

No campo econômico, há muito pratica tarifas contra países a ele alinhados, com o objetivo de proteger segmentos de seu setor produtivo, incapazes de competirem internacionalmente. Foi assim com os automóveis e os eletroeletrônicos do Japão e da Coréia do Sul; foi assim com o aço, o granito, o suco de laranja e outros produtos brasileiros.

No campo geopolítico, impõe há décadas embargos a países que buscam caminhos alternativos para seu desenvolvimento, como foram os casos do Vietnam, da Venezuela e continua sendo o de Cuba, dentre outros. Já no campo militar, espalhou bases militares mundo afora, no pós Segunda Guerra Mundial.

As atitudes beligerantes da política externa dos EEUU também se fazem presentes na esfera dos organismos multilaterais estabelecidos ao longo da segunda metade do Século XX. Organismos multilaterais criados, por um lado, com objetivos complementares de intermediar conflitos entre países e de criar regras estáveis para o comércio internacional. Por outro, de fazer frente a catástrofes humanitárias; de atualizar a agenda mundial voltada para o enfrentamento de questões de pobreza, educação, saúde e do meio-ambiente, dentre outras.

Os organismos multilaterais foram constituídos com poderes especiais para o governo dos EEUU e, mesmo assim, tiveram suas decisões desrespeitadas por ele. Como são os casos, dentre outros, do descabido embargo a Cuba; do descaso para com as sucessivas invasões de Israel a territórios Palestinos; da arrogância estadunidense nos casos das invasões do Iraque e do Afeganistão.

Ou seja, Trump só se diferencia de seus antecessores por seu vocabulário chulo e pelo uso desrespeitoso de redes sociais para comunicar decisões que afetam a estabilidade econômica, financeira e política em escala mundial. Antecessores seus, democratas e republicanos, todos usaram e abusaram dos mecanismos de coerção contra aliados e adversários, como instrumento da política externa imperialista de Tio Sam.

Como isso está sendo, finalmente, constatado até mesmo pelos historicamente submissos países europeus, parece oportuno dar vez a uma agenda internacional que busque construir caminhos alternativos para a estabilidade econômica, financeira e de segurança mundial. Iniciativas como a da reforma radical na governança de organismos multilaterais, como a ONU, podem ser respostas, a curto prazo, ao aprofundamento da arrogância do governo dos EEUU, sob Trump.

Na busca de encaminhamentos de médio e longo prazos para questões como a emergência climática, a redução de fauna e flora, a contaminação de seres vivos, a segurança hídrica e alimentar de qualidade para todos, é preciso ter mais ousadia. Ousadia, também necessária para o enfrentamento, por um lado, da crescente e exacerbada concentração de renda nas mãos de poucos. E por outro, da ampliação de poder político ilegítimo como o hoje permitido aos oligarcas das big techs e dos gestores de fundos financeiros.

Ousadia que pode buscar inspiração, por um lado, nos caminhos políticos e econômicos alternativos, como aqueles trilhados, dentre outros, por países como China, Índia, Vietnam e Cuba. Por outro, por blocos transcontinentais como o dos BRICS+. Tal ousadia também pode buscar inspiração na resiliência e na resistência de povos originários mundo afora e em diásporas, como a de africanos escravizados, com destaque para os quilombolas no Brasil.

Ousadia que necessita impregnar acadêmicos, movimentos sociais e meios de comunicação, na elaboração de pautas críticas sobre o que já está dado. Dentre o que já se sabe, encontram-se emergência climática, risco atômico, concentração de renda, uso de tecnologias manipuladoras de processos políticos e esgarçamento do tecido social em escala mundial, dentre outros.

Buscar enfrentar essas e outras questões exige ir além de simplesmente constatar. Requer o enfrentamento ao repetido e desgastado TINA (em inglês, there is no alternative. Em tradução livre, inexiste alternativa). E exige a busca de alternativas para o sistema político e econômico dominante no Ocidente, que tem levado a quem habita este lado do mundo à crescente distopia paralisante.

A busca de alternativas exige ousadias. É preciso sair da zona de conforto de quem tem informação e conhecimento sobre os riscos que corre toda a humanidade, conforme conhecemos. Sair da zona de conforto do ‘sempre foi assim’ e reconhecer que, com guerras, destruição da natureza e esgarçamento do tecido social, somente uma pequena minoria pode ganhar financeiramente, enquanto as necessidades substanciais dos seres viventes são crescentemente massacradas.

Tal reconhecimento precisa de espaços de debate sobre alternativas, o que vai além de eleger qual modelo existente é o melhor. O que já está evidenciado é que o sistema que vigora no Ocidente há algum tempo está falido. A busca de outros caminhos se faz necessária para que distopias, que invadem o dia-a-dia de todos, através dos meios de comunicação, cedam lugar ao acreditar em outros mundos possíveis.


Arlindo Villaschi É Professor de Economia.

Foto de capa: IA

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