25 de janeiro – Dia Nacional da Bossa Nova

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O maestro Antonio Carlos Brasileiro Jobim e o poeta Vinicius de Moraes, na foto no apartamento do Tom, em Ipanema, no início dos anos 60.(Foto:Arquivo)

Por DUDA HAMILTON*

O som que encanta o mundo há 60 anos

O Dia Nacional da Bossa Nova é comemorado em 25 de janeiro e foi escolhido em homenagem ao nascimento de Antônio Carlos Jobim, o maestro Tom Jobim (25.01.1927/ 08.12.1994), um dos precursores do movimento. A data foi instituída pela Lei nº 11.926, sancionada em 17 de abril de 2009, com a proposta original do Projeto de Lei 6463/2005 de autoria do deputado federal Chico Alencar (na época PT-RJ).

Nosso mestre, o maestro Antonio Carlos Brasileiro Jobim que nasceu no dia de hoje, e é aqui homenageado

E para comemorar a data sugiro seis álbuns essenciais para entender a dimensão do gênero brasileiro que ganhou o mundo há mais de 60 anos. Convido para ouvir a playlist lendo o texto abaixo.

Surgida no final da década de 1950, a Bossa Nova é uma síntese de ritmos brasileiros com influência internacional. A Bossa reúne um novo jeito de tocar samba; tem cool jazz em sua harmonia; pitadas de música erudita/clássica, com forte contribuição de Tom Jobim.  O tempero da Bossa é a estrutura do samba-canção, sem dor de cotovelo nem letras trágicas, mas com leveza e modernidade em letras poéticas.

“Vai minha tristeza e diz a ela / que sem ela não pode ser / diz-lhe, numa prece, que ela regresse / porque eu não posso mais sofrer…..

Responsável pela internacionalização da música brasileira, a impactante Bossa Nova até hoje encanta, sem sinais de cansaço, muitas gerações, embora esteja longe da unanimidade. O trio – João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes – foi o responsável pelo pontapé inicial do gênero, mas os três já confessaram que beberam na bica sonora d’água de Johnny Alf, figura essencial para o desenvolvimento da bossa. A homenagem veio com a composição:

“Água de Beber / água de beber camará / Eu nunca fiz coisa tão certa / Entre para a escola do perdão / A minha casa vive aberta / Abri todas as portas do coração….”

Vinícius, o grande poeta, transformava o cotidiano em poesia musical nas frequentes parcerias com Tom, como em “Chega de Saudade”, lançada em 1959, considerada a marca da Bossa Nova, com o canto sussurrado e transparente do baiano João Gilberto e sua batida única no violão de seis cordas. A música e o disco ”Chega de Saudade” foi uma revolução musical. 

 Logo João se transformou no pai da Bossa   Nova com suas harmonias requintadas. O   trabalho recebeu críticas também pela sua   pequenez vocal. Mas sua genialidade e bom   gosto foram maiores. Nos braços de João, o   violão deixou de ser um instrumento de   acompanhamento para se tornar   protagonista junto com a voz.

“…Mas se ela voltar, se ela voltar, que coisa linda, que coisa louca pois há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que eu darei na sua boca…

Outro álbum que marca a importância do gênero foi gravado nos Estados Unidos em 1963, pela Verve Records, especializada em jazz. Era o primeiro trabalho de Tom fora do Brasil: “The Composer of Desafinado Plays”.

O trabalho  agradou os estadunidenses pela delicadeza do gênero aliada a solos intimistas do pianista, o que deu visibilidade à música brasileira.  Muito bem recebido pela crítica, inclusive com nota máxima da revista de jazz Downbeat, o álbum estava recheado de composições, como Chega de Saudade, Insensatez, Samba de Uma Nota Só, Corcovado e Água de Beber, todas em versões instrumentais.

No mesmo ano, no Brasil, Carlos Lyra, um dos mais importantes compositores do gênero musical, lançou “Depois do Carnaval”, com a participação de Nara Leão, que ainda não tinha gravado nenhum disco. Carlinhos, como era carinhosamente chamado, escreveu canções emblemáticas do movimento, como Influência do Jazz.

“Pobre samba meu / Foi se misturando, se modernizando, se perdeu / E o rebolado, cadê, não tem mais? / Cadê o tal gingado que mexe com a gente? / Coitado do meu samba, mudou de repente / Influência do jazz….

A responsável pela popularização mundial da Bossa Nova foi a canção “Garota de Ipanema”, no álbum “Getz & Gilberto”, de 1964, lançado pela gravadora Verve. Com vocal de João e em algumas faixas de Astrud Gilberto, sua mulher, mais o sax do cool jazz Stan Getz.  e o piano de Tom Jobim, o disco ganhou o primeiro Grammy de Melhor Disco, em 1965. Vendeu mais de 2 milhões de cópias no ano de lançamento e foi listado entre os melhores pelas revistas Rolling Stone e Vibe.  “Garota de Ipanema”, com vocal de Astrud Gilberto, se tornou a segunda música mais tocada no planeta no século 20, atrás apenas da lendária  “Yesterday”, dos Beatles.

Musa da Bossa Nova, Nara Leão lançou seu disco “Nara” em 1964, ano do golpe militar, com composições de Vinicius, Carlos Lyra e Baden Powell. A inquieta Nara foi buscar no morro novos compositores para colocar na roda da Bossa e gravou Nelson Cavaquinho, Cartola e Zé Kéti. Seu disco é uma obra-prima, com arranjos modernistas. Neste disco ela rompe com a bossa e começa a emprestar sua voz ao samba e a canções de protesto, como Marcha da 4ª feira de cinzas, de Toquinho e Vinicius de Moraes.

“Acabou nosso carnaval / Ninguém ouve cantar canções / Ninguém passa mais brincando feliz / E nos corações / Saudades e cinzas foi o que restou…

Neste disco Nara eternizou também Berimbau, Maria Moita, Nana e Consolação –

“Se não tivesse o amor / se não tivesse essa dor / se não tivesse o cantar…

O Brasil era e é até hoje uma profusão de bossanovistas. Foi também em 1964, que Roberto Menescal, compositor do hit O Barquinho,  lançou outro disco ícone:  “A nova bossa nova de Roberto Menescal & Seu Conjunto” . No disco, com 12 músicas, os instrumentistas eram jovens e não passavam de 22 anos, como o pianista Eumir Deodato, que logo foi viver da profissão nos Estados Unidos, assim como outros músicos. Entre eles João Donato, Airto Moreira, Raul de Souza e Flora Purim. Composições como Você, Só Tinha de Ser com Você, Samba de Verão, Aruanda e Negro desvendaram uma outra bossa.

E é o próprio Menescal, hoje aos 88 anos, único criador da bossa ainda na ativa, que se apresenta no Festival Rio Bossa Nossa 2026, em  25 de janeiro, na praia de Ipanema, no Jardim de Alah. No palco, três gerações de bossanovistas: “Menesca”, o mestre, mais a afinada e suingada Cris Delanno e Theo Bial.

Gratuito, o festival é a melhor dica para comemorar esses mais de 60 anos de Bossa Nova, no berço do gênero, o Rio de Janeiro.

“Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça
É ela, menina, que vem e que passa
Num doce balanço a caminho do mar

Moça do corpo dourado, do Sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar

Texto e playlist por Duda Hamilton

Publicado originalmente no PORTAL IMAGEM DA ILHA

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Duda Hamilton é jornalista e escritora, com 11 livros de história política, biografias e histórias empresariais. A música é sua grande paixão, acompanhando a cena musical de Santa Catarina há 35 anos.

Foto da capa: O maestro Antonio Carlos Brasileiro Jobim e o poeta Vinicius de Moraes, na foto no apartamento do Tom, em Ipanema, no início dos anos 60.(Foto: Arquivo).

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