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Opinião

Síndrome de Rita Lee (novamente)

Síndrome de Rita Lee (novamente)

Artigo por RED
09/05/2023 15:40 • Atualizado em 17/05/2023 17:59
Síndrome de Rita Lee (novamente)

De BENEDITO TADEU CÉSAR*

Nasci em Rio Claro, SP, cidade de origem de parte da família de Rita Lee. Alguns de seus parentes mais próximos, da ala dos rio-clarenses, eram meus vizinhos e eu passava boa parte do meu dia, antes e depois das aulas, desde a tenra infância até cerca dos meus 12 anos, na casa dos parentes de Rita, onde moravam quatro garotos, netos do patriarca, todos de idades equivalentes às minhas.

Pois bem, Rita residia em São Paulo, capital, com seus pais, mas passava parte das suas férias em Rio Claro. Um de seus tios era proprietário dos três cinemas de rua da cidade (não existiam shopping centers naquela época) e, não por acaso, Rita se refere às tardes no cinema “chupando drops de anis, longe de qualquer problema, perto de um final feliz”.

Sua canção Flagra, retrata o frisson da garotada nas tardes e noites de cinema, nos idos dos anos de 1950 e 1960, quando a rígida e até hipócrita moral vigente proibia “namoros escandalosos”, ou seja, com beijos e abraços e, por isso, “refugiavam-se” nos cinemas para os seus “pegas” – não existia o “ficar” dos jovens de hoje, que beijam-se e abraçam-se em público sem falso pudor ou receito.

Nessa sua canção, como fez em dezenas de outras, Rita afrontava a moral e os costumes da época. Os versos seguintes de Flagra utilizam os nomes dos atores e atrizes com um duplo e pouco cifrado sentido para explicitar a excitação da gurizada durante as sessões de cinema e concluem, para o desespero da meninada daquele tempo, relatando uma cena corriqueira de então, quando a fita de celuloide se rompia ou queimava e a sessão era interrompida.

Flagra
Rita Lee

No escurinho do cinema
Chupando drops de anis
Longe de qualquer problema
Perto de um final feliz
Se a Deborah Kerr que o Gregory Peck
Não vou bancar o santinho
Minha garota é Mae West
Eu sou o Sheik Valentino
Mas de repente o filme pifou
E a turma toda logo vaiou
Acenderam as luzes
Cruzes
Que flagra
Que flagra
Que flagra

Na verdade, apesar de certamente ter me encontrado com Rita Lee diversas vezes, quando criança e pré-adolescente, não tenho nenhuma lembrança desses encontros. Isso talvez se deva ao fato de que Rita fosse quase seis anos mais velha do que eu, um espaço de tempo que, na infância e na pré-adolescência, faz enorme diferença.
Foi apenas quando Rita Lee e os Mutantes explodiram no cenário musical com a canção Dois mil e um, executada em tom de deboche e imitando as duplas caipiras paulistas e que escandalizou o mundo da MPB, que repudiava o uso das guitarras eletrônicas e a influência do Rock na música popular brasileira, que, em conversas com seus primos, fui alertado de nossa convivência algo sistemática durante as férias de infância.

Dois Mil e Um
Mutantes

“Astronarta” libertado
Minha vida me “urtrapassa”
Em “quarqué” rota que eu faça
Dei um grito no escuro
“Sô parcero” do futuro
Na reluzente “galáchia”
Eu quase posso palpar
A minha vida que grita
Emprenha e se reproduz
Na velocidade da luz
A cor do céu me compõe
mar azul me dissolve
A equação me propõe
Computador me resolve
“Astronarta” libertado
Minha vida me “urtrapassa”
Em “quarqué” rota que eu faça
Dei um grito no escuro
“Sô parcero” do futuro
Na reluzente “galáchia”
Amei a velocidade
Casei com sete planetas
Por filho, cor e espaço
Não me tenho nem me faço
A rota do ano-luz
Calculo dentro do passo
Minha dor é cicatriz
Minha morte não me quis
Nos braços de dois “mir” anos
Eu nasci sem ter idade
“Sô” casado “sô sortero”
“Sô” baiano e “estrangero”
Meu sangue é de gasolina
“Corrrendo” não tenho mágoa
Meu peito é “di sar” de fruta
Fervendo “nu” copo d’água
Astronauta libertado
Minha vida me ultrapassa
Em qualquer rota que eu faça
Dei um grito no escuro
Sou parceiro do futuro
Na reluzente galáxia

Depois disso, tenho memória de um show de Rita Lee em Rio Claro, pelo Circuito Universitário, que existia nos anos de 1970, quando ela cantou para o estádio de esportes da cidade completamente lotado a canção Ovelha Negra e se “vingou” da falsa moral familiar então vigente. Atente para o último verso da canção, no qual ela reafirma ser a “ovelha negra” que não vai mais voltar, vai sumir.

Ovelha Negra
Rita Lee

Levava uma vida sossegada
Gostava de sombra e água fresca
Meu Deus quanto tempo eu passei
Sem saber
Uh uh
Foi quando meu pai me disse filha
Você é a ovelha negra da família
Agora é hora de você assumir
Uh uh e sumir
Baby baby
Não adianta chamar
Quando alguém está perdido
Procurando se encontrar
Baby baby
Não vale a pena esperar, oh não
Tire isso da cabeça
E ponha o resto no lugar
Ah ah ah tchu tchu tchu tchu
Não, ah ah ah tchu tchu tchu tchu
Não
Levava uma vida sossegada
Gostava de sombra e água fresca
Meu Deus quanto tempo eu passei
Sem saber
Uh uh
Foi quando meu pai me disse filha
Você é a ovelha negra da família
Agora é hora de você assumir
Uh uh e sumir
Baby baby
Não adianta chamar
Quando alguém está perdido
Procurando se encontrar
Baby baby
Não vale a pena esperar, oh não
Tire isso da cabeça
E ponha o resto no lugar
Ah ah ah tchu tchu tchu tchu
Não, ovelha negra da família
Tchu tchu tchu tchu tchu (não vai mais voltar)
Não, vai sumir

Rita Lee tornou-se nos anos 2000 a “Tia do Rock”. Na verdade, Rita foi a mãe do rock brasileiro e, muito mais do que isso, uma expoente da rebeldia não apenas do rock, mas das gerações do pós-guerra, os Baby Boomers, que adotaram a pílula anticoncepcional e a revolução nos costumes, que pregaram a “paz e o amor” contra a guerra do Vietnã, que afrontaram a ditadura militar e instauraram a democracia no país, ainda hoje tão instável.

No final dos anos de 1980, depois de ter me ausentado de Rio Claro durante 12 anos, para exercer minha atividade profissional na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, retornei para Rio Claro, de onde me deslocava para os cursos de doutorado na Unicamp e na USP.

Nesse momento, recém-chegado, li no principal jornal local daquele momento um artigo com uma entrevista com Rita Lee, com mesmo título desta crônica (Síndrome de Rita Lee), no qual ela relatava seus sentimentos de apego à cidade, às pessoas com as quais ela conviveu na infância e no início da adolescência e sua vontade de retornar às raízes. Como esse era também meu sentimento naquele momento, usei o mesmo título para o artigo de estreia da coluna que passei a publicar no mesmo jornal durante os anos que duraram o doutorado e minha estada em Rio Claro, antes de me transferir para a UFRGS e me fixar em Porto Alegre.

Não tive a intenção de fazer aqui um panegírico, ou seja, um discurso de exaltação de Rita Lee. Deixo isso para os críticos musicais e aqueles e aquelas que conviveram com ela. O que me importa é registrar meu sentimento de perda de alguém que deu uma enorme contribuição à cultura e à revolução dos costumes no Brasil. A vida passa…


*Cientista Político, professor aposentado da UFRGS, coordenador do Comitê em Defesa da Democracia e da RED e rio-clarense, como Rita Lee.

Foto: Marco Senche/Wikimedia Communs.

As opiniões emitidas nos artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da Rede Estação Democracia.

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