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Opinião

Militares, poder e ditaduras: longe da tentação

Militares, poder e ditaduras: longe da tentação

Artigo por RED
18/01/2023 12:50 • Atualizado em 20/01/2023 10:45
Militares, poder e ditaduras: longe da tentação

De ROSA FREIRE D’AGUIAR*

Nos anos em que cobri a redemocratização da Espanha, desde a morte de Franco, em 1975, até a eleição do socialista Felipe González, em 82, a questão militar era um tema onipresente. A ditadura de Franco durou 40 anos, as Forças Armadas – especialmente o Exército – estavam coalhadas de oficiais de alta patente medularmente franquistas e de ultradireita. Os dois primeiros governos pós-Franco fizeram grandes reformas, votaram a nova Constituição, mas não conseguiram avançar no front militar. Resultado: em fevereiro de 1981, um alucinado tenente-coronel da Guardia Civil invadiu o Parlamento, de arma em punho, tendo a seu lado 150 soldados, e pôs todos os parlamentares no chão, literalmente, exigindo, para soltar os reféns, que o Exército tomasse o poder.

Cheguei a Madri na manhã seguinte ao golpe e tremi ao conversar com um grupo de velhos exilados que, já de passaporte no bolso, e diante do Parlamento, temiam que os militares voltassem ao poder, obrigando-os a mais um exílio. O receio não era infundado: desde a morte de Franco tinha havido uma dúzia de estados de alerta e sedições potenciais nos quartéis, finalmente abafados.

Tudo isso mudou a partir de 1982, quando Felipe González foi eleito. Seu ministro da Defesa, o economista Narcis Serra, promoveu uma profunda reforma militar que, em poucos anos, afastou de vez a tentação golpista dos militares.

A ideia de González era formar um Exército mais moderno, mais reduzido e mais operacional. A reciclagem deu certo.

A reforma teve três eixos principais:

(1) enterrar de vez a noção de “inimigo interno”, que identificava as correntes de esquerda em todos os seus matizes. Dentro da pátria não há inimigos; inimigos são os que estão más allá de la frontera, e podem ameaçar a pátria; sai o conceito de “inimigo interno”, entra o de “defesa nacional”. Eram essas as diretrizes.

(2) rever de alto abaixo o ensino militar. Multiplicaram-se os contatos entre alunos e professores militares e civis. Lançaram-se programas para levar professores universitários às academias e, inversamente, jovens cadetes às aulas de história e ciências sociais nas universidades. O currículo das academias, que era elaborado apenas por chefes do Estado-maior, passou a ser definido em acordo com o Ministério da Defesa. Simbolicamente, aboliu-se a disciplina “Guerra civil: cruzada contra o comunismo”.

(3) remover das chefias os militares franquistas. Este foi sem dúvida o eixo mais difícil e o mais caro da reforma, pois o governo teve de bancar, com polpudas indenizações, o afastamento de centenas de oficiais superiores. Sob Franco, não havia reforma compulsória, e a Espanha tinha 1300 generais, número maior do que o de todos os exércitos da Europa ocidental. A reforma reduziu pela metade o total de generais e diminuiu de 250 mil para 90 mil os efetivos do Exército. As promoções passaram a obedecer a critérios profissionais e não apenas de antiguidade.

A reforma ainda incluiu mudanças profundas na Justiça Militar, na disciplina dos quarteis etc.

A reciclagem deu certo. Muito hábil e prudente, Felipe González neutralizou o antagonismo de um Exército que ainda era dado a espasmos golpistas.

Gonzalez era desses que afirmavam, com razão, que com militares ou se manda ou se obedece. (Subtexto: nada de contemporização).

E lembro de um grande intelectual espanhol que repetia à exaustão: Civilização vem de civil.


*Jornalista,  nos anos 1970 e 1980 foi correspondente em Paris das revistas Manchete e IstoÉ. Atualmente dedica-se ao mercado editorial.

Imagem em Pixabay.

As opiniões emitidas nos artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da Rede Estação Democracia.

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