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Opinião

Lembranças da ditadura e da resistência a ela*

Lembranças da ditadura e da resistência a ela*

Artigo por RED
31/03/2023 14:40 • Atualizado em 02/04/2023 23:08
Lembranças da ditadura e da resistência a ela*

De BENEDITO TADEU CÉSAR**

Há 59 anos atrás, no dia de hoje, eu estava em casa, com hepatite. Tinha 10 anos e 10 meses. Ouvi os rumores do golpe, contados pela minha tia Rachel, irmã de minha mãe, e corri ligar o rádio para ouvir as notícias. Acompanhei o noticiário e a queda de João Goulart.

Dias depois, enquanto meus pais almoçavam na copa e eu comia no quarto, pois hepatite exige repouso, vi, pela janela, minha casa ser cercada por policiais militares fardados e portando metralhadoras. Levaram meu pai, Antonio Cesar, antiga liderança municipal do PCB em Rio Claro, SP.

Passados mais alguns dias, meu irmão, Antonio Humberto Cesar, 13 anos mais velho do que eu, mas com apenas 24 anos, suplente de vereador, foi cassado.

Meu pai, que já havia sido detido outras vezes ao longo da vida, foi levado para prestar depoimentos umas tantas outras vezes ao longo dos duros anos da ditadura. Sempre sendo preso e solto em pouco tempo. Por sorte nunca foi torturado.

Foram 21 anos de terror. Durante este período, já um jovem adulto, fui detido pelo menos três vezes, todas em Vitória, ES, onde eu comecei minha carreira de professor universitário com 24 anos. Fui detido e levado para depoimento por ter assessorado a diretoria da UPES (União dos Professores do ES) em sua primeira greve durante a ditadura. Um aluno meu, Derly alguma coisa, era um policial infiltrado e estava presente na minha prisão. Fui levado sem mandado enquanto estava entrando no salão onde ocorreria uma assembleia da greve. Quase um sequestro. Fui solto porque notaram minha falta durante a assembleia e denunciaram minha prisão.

Fui levado para depoimento novamente, meses depois, por assessorar a primeira greve pós-ditadura dos motoristas e cobradores de ônibus de Vitória, realizada contra a vontade da direção pelega do sindicato. Fui solto por pressão de Berredo de Meneses, que havia sido eleito suplente de senador em 1978, pelo MDB, e cuja candidatura eu tinha auxiliado. Como eu era diretor do Jornal Posição, o único veículo de resistência à ditadura no estado, Berredo intimidou o delegado, dizendo que o jornal estamparia a notícia da minha prisão e que isso iria repercutir muito (o que era mentira, porque a tiragem do jornal era minúscula) mas funcionou.

Na última vez, fui detido, já em 1983, três dias depois do nascimento de minha filha Naná, porque, como presidente da Associação de Docentes da UFES, participava da organização de um dia de protesto durante o governo Figueiredo. Só fui libertado porque os amigos que estavam em minha casa naquele dia, que era um sábado, para comemorar o nascimento da Naná, correram para o polícia federal, enviaram uma advogada, avisaram o bispo, a Comissão de Justiça e Paz e mobilizaram a imprensa. O bispo ligou diretamente para o delegado e fez pressão. Meus amigos ficaram na porta da delegacia da DPF gritando palavras de ordem e a imprensa cobrindo. Depois de algumas horas, após passar por um exame de corpo de delito no departamento de perícia, para que a polícia federal pudesse atestar que não havia me torturado, fui solto.

Faço este depoimento para que as novas gerações sintam o horror das ditaduras.

Lembro agora, com muito orgulho, do meu pai respondendo à minha mãe que, desanimada, reclamava de sua militância e de suas prisões: “Hoje tenho que me esconder, mas tenho certeza de que meus filhos, no futuro, se orgulharão de mim”.

Posso dizer que me orgulho muito de tudo o que ele fez e que espero que meus filhos também se orgulhem de mim.


*Este texto foi publicado originalmente na página do Facebook do autor há 9 anos. Para esta publicação foi atualizado o número de anos transcorridos desde o golpe militar.

**Cientista Político, professor aposentado da UFRGS, integrante da Coordenação da RED e do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito.

Fotos: 1: Registro do aniversário do autor, por volta dos 10 anos. Benedito é o que está no meio da foto, embaixo, e seu pai Antonio Cesar está no meio, em cima; Sua mãe está à esquerda da foto e sua avó materna, à direita – Acervo pessoal do autor.

2: Imagem do desfile de 7 de setembro em 1972, em meio à Ditadura Militar – Acervo do Arquivo Nacional.

3: Registro de Antonio Cesar, por volta dos 60 anos – Acervo pessoal do autor.

As opiniões emitidas nos artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da Rede Estação Democracia.

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