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Improvisação planejada

Improvisação planejada

Artigo por RED
07/06/2024 16:02 • Atualizado em 11/06/2024 17:45
Improvisação planejada

De DOMINGOS ALEXANDRE

Quem se dispor a examinar a História do Brasil posterior à primeira guerra mundial, terá que admitir que planejamento não é nosso forte.

Desenvolver projetos buscando sanar problemas econômicos e sociais ou atingir certos objetivos de governo exige planejamento. Entretanto, quem se dispor a examinar a História do Brasil posterior à primeira guerra mundial, a julgar pelos frequentes choques e solavancos, terá que admitir que planejamento não é nosso forte. No século passado, com Getúlio e Juscelino e até na ditadura civil/militar, tivemos alguns bons momentos. Alternamos períodos de industrialização e desenvolvimento, com outros de letargia e estagnação, quando não de retrocesso econômico. Já no presente século, nos governos Lula/Dilma o nosso País figurou, ainda que por curto período, entre as seis maiores economias do mundo. Junto com a reeleição de Dilma em 2014, veio nova turbulência econômica e política que culminou com o impeachment de 2016 e com a vitória do projeto neoliberal nas eleições de 2018.

O fato concreto é que nos dez anos anteriores a 2022, o Brasil caiu novamente para a 13ª posição entre as maiores economias. Ninguém ignora que em 2022 o Lula precisou do apoio de uma “frente ampla” para conquistar um terceiro mandato, que teve como consequência imediata criar expectativa nos brasileiros de um novo período democrático, de normalidade política, de reindustrialização e de desenvolvimento econômico e social.

Antes da posse o Lula se dedicou à formação do novo governo e com sensibilidade e tirocínio foi se cercando de quadros de escol e comprovada competência como Celso Amorim, Nísia Trindade, Wellington Dias, Fernando Haddad, Alexandre Padilha, Flávio Dino, Geraldo Alckmin, Esther Dweck, Mauro Vieira e muitos outros. Tudo indicava que o Lula, usando de toda sua testada e reconhecida argúcia política e do seu indiscutível gosto pela arte da negociação, promoveria uma grande concertação visando recolocar o Brasil no rumo do tão almejado progresso econômico e social. É inegável que o Lula e sua equipe, para além de sua louvável, necessária (mas insuficiente) proposta das três refeições diárias, tem se esmerado para colocar o País numa posição consentânea com seu potencial. Um exame imparcial admite uma ou outra vitória, êxitos esparsos, mas longe ainda de uma política bem-sucedida.

Suscintamente relacionemos os fatos que mostram que o Brasil ainda não se achou: a) temos uma justiça falha e morosa, b) temos muitos desempregados e muitos subempregos, c) elevado índice de analfabetismo, d) quantidade absurda de população carcerária, e) índices inaceitáveis de corrupção, f) grande impunidade de assassinatos e do tráfico de drogas, g) temos visto avançar as milícias e o crime organizado. Como se não bastasse, a qualidade da educação é precária, o discernimento dos eleitores é capenga e, como consequência, temos um congresso de maioria fisiológica, adeptos de fakenews, com conhecimento jurídico sofrível e cujo desiderato único é obter o maior valor possível de emendas parlamentares. Não vamos nem mencionar as recentes inundações e os desequilíbrios ambientais, bem como as dificuldades próprias das relações internacionais. Um país que se quer harmoniosamente desenvolvido, precisa ter superado ou estar em vias de superar todos estes obstáculos.

Onde estamos falhando? No planejamento. Ao Presidente Lula, reconhecida liderança global, sensível, justo, habilidoso e competente faltou arrojo, destemor e audácia. Arrojo para pensar grande. Audácia para reunir os melhores cientistas, especialistas e pensadores para formularem um Plano de Governo que, de uma vez por todas, tivesse o pendor de eliminar nossas mazelas. Incorre em crasso equívoco quem pensa que o Presidente Lula ignora o que aqui foi dito. Acontece que nosso Presidente também sabe que os adversários de um Brasil desenvolvido são numerosos, ambiciosos e perversos. Evidente que um Plano de Governo que ambicionasse eliminar nossos vícios históricos, com o Congresso saído das urnas teria remotas possibilidades de prosperar. Por isso, mesmo que com toda a inteligência moral e política do nosso Presidente, seria preciso a adesão e o respaldo da maioria dos brasileiros. Teria que ser um Plano de Governo amplamente discutido, muito divulgado que tivesse o mérito de encantar a população. Uma população encantada e solidária é apanágio para o
governante destemido, que teria poderes para enquadrar empresários, lideranças, deputados e senadores recalcitrantes.

Um Plano de Governo, para merecer o respaldo do povo, teria que mostrar “por a mais b” como o objetivo seria atingido. Caravanas percorreriam o País pregando que em dez anos estaríamos entre as cinco maiores economias. Que para tanto seria preciso a união de todos numa Revolução na Educação, devidamente cientes que uma verdadeira Educação só se faz tendo alimentação, saúde, moradia, transporte, cultura e lazer de qualidade, além de justa remuneração. Que um projeto assim tem viabilidade, haja visto que países do norte da Europa lá já chegaram. A todos seria explicado que haveria Justiça Social e que os impostos seriam calculados preferencialmente e proporcionalmente pelo patrimônio e pela renda de cada um e não pelo consumo que penaliza mais os “debaixo” como sempre foi. Não há alternativa. É isso ou mais do mesmo. Concluído o segundo governo Lula, o sociólogo italiano Domenico De Masi num arroubo de entusiasmo escreveu um livro sobre o Brasil com o título O Futuro Chegou. Ainda estamos em tempo de enfrentar tão nobre desafio.

Aos empresários, banqueiros, políticos, latifundiários e plutocratas inseguros, renitentes e empedernidos seria lhes garantido que teriam a possibilidade de, se não de ficarem ainda mais ricos, pelo menos poderiam não se sentir constrangidos em serem abastados num País onde impera a ignorância, a miséria, a insegurança e o crime.

Tomemos por inspiração a cultura Viking que ensinava aos povos nórdicos que para entrar na majestosa sala e ter a honra de ficar na presença de Odin, em Asgard, era preciso morrer lutando.

*Bel em História.

Foto: Lucas Leffa/Secom Governo federal

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