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Opinião

Filme de especial interesse

Filme de especial interesse

Artigo por RED
24/04/2024 05:25 • Atualizado em 26/04/2024 22:38
Filme de especial interesse

De LÉA MARIA AARÃO REIS*

No pacote de filmes agraciados com os prêmios mais significativos da temporada de 2023 nos principais festivais internacionais do norte global, o britânico Zona de Interesse, de Jonathan Glazer é um deles. Faz companhia a Anatomia de uma quedaOppenheimer, e a outros indicados para estatuetas como Os Rejeitados, Vidas Passadas, Assassinos da Rua das Flores, Dias Tranquilos, MaestroFicção AmericanaMonstro, 20 Dias em Mariuol Pobres Criaturas.

Todos eles, aos poucos, estendem ou encerram suas carreiras nas telonas e começam a constar dos catálogos de plataformas de streaming*, as temidas concorrentes do comércio de exibidores de filmes nos cinemas.

The Zone of Interest é uma adaptação do romance homônimo do escritor Martin Amis lançado há dez anos, e trata, com crueza, vigor e inteligência, da trajetória do oficial da SS nazista Rudolf Franz Ferdinand Höss, comandante durante dois anos do campo de concentração de Auschwitz, a prisão e o local do morticínio de judeus e minorias (ciganos, poloneses, soviéticos).

Na verdade, Auschwitz foi um agrupamento de 50 campos com câmeras de gás e fornos crematórios concebidos para matar em grande escala e um dos mais fortes símbolos do terror praticado pelos nazistas da Alemanha de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial.

O filme chega aos cinemas às vésperas da comemoração do Dia da Vitória, no próximo nove de maio, data da arrancada final das forças soviéticas, liderando os aliados contra os alemães. Este ano, o lançamento do longa-metragem de Glazer repercute especialmente forte diante do avanço de forças neofascistas da extrema-direita em diversos países, da ameaça de pré-guerra total que volta a pairar sobre o planeta e da carnificina praticada na Palestina, na Faixa de Gaza.

A passividade de governos em agir com sincera vontade diante do sofrimento de populações, como a palestina, mergulhadas em tal violência arrasta à indiferença e a um notável egocentrismo os povos que não estão diretamente envolvidos nos conflitos que pipocam em vários cantos.

É sobre essa indiferença assombrosa embutida em uma desumanidade antinatural que Zona de Interesse obriga à reflexão, relatando a trajetória monstruosa de uma família alemã vivendo feliz e despreocupada, com todos os requintes de um cotidiano burguês, na sua casa vizinha às edificações do maior campo de concentração e de extermínio em massa já instalado pelo homem.

Premiado no Festival de Cannes deste ano, eleito Oscar de Melhor Filme Internacional em Los Angeles, e indicado para a estatueta dourada em cinco categorias, com sua hora e 45 minutos de duração, o longa-metragem mistura drama, guerra e história. Acompanha o inimaginável dia a dia bucólico de Rudolf (Christian Friedel), o referido comandante de Auschwitz, da sua mulher Hedwig (a premiada atriz Sandra Hüller), e dos filhos do casal.

Um grupo familiar congelado na indiferença, obsessivamente bem organizado e sem sobressaltos, concentrado em manter seus interesses – materiais sobretudo.

Na residência cercada de jardins, flores, piscina, gazebos e um haras mantidos com o trabalho escravo de algumas prisioneiras e prisioneiros, para qualquer lado que a vista alcança, como se vê nas imagens do filme de Glazer, o topo das chaminés e das construções vizinhas, de tijolos, dentro das quais um milhão e meio de seres humanos, adultos, idosos, jovens e crianças, eram incinerados em altos fornos projetados pela equipe de arquitetos que trabalharam com Höss.

Na voz unânime da crítica cinematográfica The Zone of Interest é “um filme devastador” na sua escolha admirável de narrar e denunciar a possibilidade permanente de convivermos com a maldade visceral mantendo a tranquilidade da nossa vida intocada desde que o sofrimento atinja os ‘outros’, até mesmo os mais próximos.

“Quis fazer esse filme porque nunca vi nada tão explícito nem parecido antes”, disse Glazer em uma das incontáveis entrevistas concedidas por ele quando o filme começou a ser um sucesso. “A história contada por Martin Amis vai ao encontro de algo que me interessa muito: por que as pessoas fazem o mal? Como as pessoas podem encarar a matança como alguma coisa corriqueira assim como consertar uma roupa ou varrer o chão?”.

Assim como Höss é assaltado por ânsias de vômito, de repente, em certa sequência, ao descer uma escadaria depois de participar de uma grande festa, a mesma náusea tende a assaltar o espectador de Zona de Interesse.

Apesar do filme não mostrar um tiro, nenhuma imagem do horror no interior de Auschwitz I, Auschwitz II ou de Birkenau, ou de prisioneiros transformados em esqueletos, ou os eventuais fuzilamentos, o desembarque brutal de milhares de indivíduos descendo dos trens vindos da Polônia ou da França, Zona de Interesse é um filme obrigatório que escancara a essência humana.

Nele, não há um close dos protagonistas. Apenas uma sucessão de long shots sublinhando e insistindo no ambiente de indiferença de uma família feliz, vizinha de um matadouro de seres semelhantes. Um filme pedagógico.


*Jornalista carioca. Foi editora e redatora em programas da TV Globo e assessora de Comunicação da mesma emissora e da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro. Foi também colaboradora de Carta Maior e atualmente escreve para o Fórum 21 sobre Cinema, Livros, faz eventuais entrevistas. É autora de vários livros, entre eles Novos velhos: Viver e envelhecer bem (2011), Manual Prático de Assessoria de Imprensa (Coautora Claudia Carvalho, 2008), Maturidade – Manual De Sobrevivência Da Mulher De Meia-Idade (2001), entre outros.

Imagem: divulgação.

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