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Entrevista

Do desafio da ‘incomunicação’ ao impasse da ‘acomunicação’

Do desafio da ‘incomunicação’ ao impasse da ‘acomunicação’

Comunicação e Mídia por RED
15/12/2023 05:25 • Atualizado em 18/12/2023 09:21
Do desafio da ‘incomunicação’ ao impasse da ‘acomunicação’

Para o cientista social francês Dominique Wolton, a coabitação entre pessoas de visões diferentes está no cerne da democracia

Em um mundo dominado pelas tecnologias da informação e da comunicação, o desafio central que se coloca para a humanidade é a “incomunicação”. O conceito, criado e defendido pelo cientista social francês Dominique Wolton, diz respeito às situações em que o circuito da comunicação não se completa e as pessoas (ou os países) não se entendem em razão de percepções, pontos de vista ou visões de mundo diferentes.

No entanto, para o intelectual francês, a “incomunicação” não significa o fim do processo. Pelo contrário, o fenômeno se constitui justamente como a possibilidade de a comunicação acontecer porque abre espaço para a negociação. Por isso Wolton defende que, no século 21, um tempo no qual a internet e as redes sociais tornam tudo visível e em que todos parecem ter acesso a tudo, criando a ilusão de que a comunicação se resume ao acesso à informação, a “incomunicação” se coloca como desafio, levando as pessoas a saírem do campo virtual para negociarem presencialmente.

O cientista social lembra ser assim que acontece no encontro amoroso (as pessoas se conhecem nos sites de relacionamento, mas a decisão de avançar ou não se dá a partir do encontro presencial) ou nas relações entre as nações – os chefes de Estado continuam a se encontrar, olho no olho, a despeito da facilidade oferecida pelos sistemas de videoconferência, por exemplo.

A negociação presencial não garante que a comunicação se efetive, mas no nosso tempo, para Wolton, não é possível concebê-la sem essa tentativa. Por isso, prossegue o pesquisador, a comunicação pertence ao campo da política. Faz-se necessário considerar, no entanto, que a negociação permite o reconhecimento do outro, do diferente, em um mundo no qual a diversidade exibe-se nas vitrines das redes sociais. E, na medida em que o outro é reconhecido e respeitado, a convivência se torna possível. Esse é, segundo Wolton, o fundamento da democracia.

Em contrapartida, quando a negociação fracassa, o cenário é de “acomunicação” – outro conceito do pensador francês, remetendo ao silêncio entre os casais ou à guerra. O maior desafio dessas primeiras décadas do século 21, afirma o especialista, é evitar a guerra.

Wolton esteve, no dia 16 de novembro, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp para uma palestra sobre seu mais recente lançamento no Brasil, o livro Comunicar é negociar (editora Sulina). Além da Unicamp, ele passou pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e pela Universidade Metodista de São Paulo.

Considerado um dos principais estudiosos da comunicação na atualidade, Wolton é pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS, na sigla em francês) da França e desde 1988 dirige a revista Hermès, publicação interdisciplinar dedicada às questões relacionadas a essa área do saber.

Leia, a seguir, a entrevista que o estudioso concedeu ao Jornal da Unicamp.

Jornal da Unicamp – O senhor argumenta em seu trabalho que há uma confusão entre comunicação e informação no mundo contemporâneo. Qual é a origem dessa confusão e por que ela representa um problema para as pessoas?

Dominique Wolton – No passado, havia muitas semelhanças entre informação e comunicação porque não existiam muitas mensagens em circulação e nem muitas tecnologias de comunicação. No entanto, a explosão das tecnologias no transcorrer do século 20, com o surgimento do telefone, do rádio, da televisão, do computador, entre outras coisas, resulta em uma separação entre, de um lado, um grande volume de informação em circulação e, de outro, a comunicação. Chegamos à conclusão de que existe cada vez mais informação, mas não há necessariamente mais comunicação. Por essa razão, o século 20 é marcado por uma ruptura entre informação e comunicação, o que leva a duas descobertas.

Primeiramente, a informação foi encarada como uma forma de liberdade política, mas com o tempo transformou-se em dados com valor econômico. A segunda descoberta é que a informação não é comunicação. A informação é mensagem e é menos complexa do que a comunicação.

E por que a comunicação é complicada? Porque envolve um relacionamento entre as pessoas.E por que o relacionamento é complicado? Porque o outro nunca pensa como eu. Descobrimos, então, com a explosão da informação, que a comunicação é complicada e é necessário negociar. Essa é a grande ruptura técnica e política do século 20. E é por isso que podemos dizer que o século 20 foi o século da comunicação e o século 21, o século da incomunicação.

JU – O que é incomunicação?

Dominique Wolton – A incomunicação é o resultado da descoberta de que não nos entendemos facilmente. Não é porque eu falo algo para alguém que esse interlocutor necessariamente me ouve, concorda comigo ou me responde. Ou seja, a incomunicação é a separação. Essa é a dificuldade que surge no século 21, em um cenário de intensa produção e circulação de informação, mas no qual as pessoas não se entendem.

Para sair dessa situação só existe uma coisa a fazer: ampliar o debate. É por isso que digo que comunicar é negociar, é preciso negociar entre dois pontos de vista diferentes e contraditórios. É por meio da negociação que existe a possibilidade de sair da incomunicação, possibilitando a coabitação entre pessoas que têm visões diferentes. Essa coabitação está no cerne da democracia.

JU – Mas o senhor acredita que existam espaços de comunicação e debate em um mundo dominado pela internet?

Dominique Wolton – Nos últimos 30 ou 40 anos, houve uma aceleração da produção e da distribuição de informação. Porém, a descoberta é esta: a produção e a distribuição de informação não resultaram necessariamente em comunicação. A informação está em toda parte, as redes são cada vez mais numerosas, mas as pessoas não se entendem.

Em contrapartida, tanto em uma situação de rompimento, em que dizemos, por exemplo, “nunca mais vou voltar”, como em uma situação de aproximação entre duas pessoas, sempre temos que negociar. E o mais complicado é negociar para que ocorra a comunicação, para superar a incomunicação. Mas a negociação pode falhar e aí temos a acomunicação: o silêncio entre duas pessoas que se relacionam ou a guerra entre países. No entanto, é a incomunicação que salvará o homem. Por quê? Ela é, na verdade, uma condição da luz, ela abre a possibilidade da negociação, da comunicação e da coabitação, quando bem-sucedida. A incomunicação é condição para a liberdade de comunicação porque nos leva a uma situação em que precisamos apresentar, expressar o que pensamos e sentimos. Se bem-sucedida, ela leva à comunicação.

JU – E qual é o impacto das redes sociais na comunicação?

Dominique Wolton – No início, todos acharam as redes sociais maravilhosas porque acreditavam que seriam um espaço de liberdade, mas como não existe regulamentação, deparamo-nos com um caos. Não podemos simplesmente dizer qualquer coisa que queremos! Deve haver leis, regras, proibições.

JU – O senhor defende, então, a regulamentação?

Dominique Wolton – Claro. Sou contra a primeira emenda da Constituição dos Estados Unidos, segundo a qual não há limites para a liberdade de expressão. É preciso que existam limites, leis, regras em uma sociedade democrática. Não temos o direito de matar. Não temos o direito de ser racistas. Não temos o direito de ser homofóbicos. Não há democracia sem lei. A lei não é a morte da liberdade. A lei é a condição da liberdade.

Devemos sempre nos lembrar disso. As leis podem não ser perfeitas, podem ser melhoradas, mas é sempre demagógico acreditar que pode haver democracia sem lei.

JU – Então, como humanidade, estamos em uma espécie de encruzilhada?

Dominique Wolton – Sim, porque a questão da informação e da comunicação não tem sido objeto de reflexão nos últimos 50 anos. Todos, inclusive os intelectuais, ficaram fascinados pela técnica. O século 20 foi gigantesco em termos de progresso técnico.

O avanço revelou-se tão grande que pensamos que, com a técnica, com a informação, teríamos uma comunicação melhor, mas não foi assim que aconteceu. Esta é a grande descoberta: o desempenho técnico não cria mais comunicação, nem uma comunicação mais bem- -sucedida. Na verdade, o que descobrimos sobre o desempenho da tecnologia é que a tecnologia não resolve a questão da alteridade. É isso.

A verdadeira questão política da comunicação é que temos de conviver com o outro, com o diferente. Temos de negociar para evitar a guerra. O risco é sempre a guerra ou o fracasso.

JU – Atualmente, ocorrem guerras na Ucrânia e no Oriente Médio. Esses conflitos têm a ver com a dificuldade de comunicação que marca o século 21?

Dominique Wolton – Em parte, têm a ver com o fato de que os homens sempre mataram uns aos outros. Os conflitos também estão ligados à multiplicação dos canais de notícias e de informação. Paradoxalmente, esse é um aspecto que precisa ser levado em conta. Dizemos que, quanto mais canais de notícias existirem, mais conheceremos a realidade do mundo. Não é verdade. Mesmo que acompanhemos uma guerra ao vivo, o que é possível hoje em dia, isso não significa que vamos compreendê-la melhor. Existe uma espécie de ilusão técnica que confunde a velocidade da informação com a velocidade da compreensão.

JU – Esse fenômeno, na sua opinião, aumenta essa ilusão de comunicação?

Dominique Wolton – Sim, mas eu acredito que haverá um retorno à reflexão crítica para, justamente, reduzir o risco do jogo da guerra.

JU – O senhor tem uma visão otimista ou pessimista quanto às possibilidades de comunicação neste mundo dominado pela tecnologia? Existe esperança?

Dominique Wolton – Eu sou um pouco pessimista porque o mundo acadêmico não trabalhou essas questões da informação e da comunicação nos últimos 50, 70 anos, e existe um posicionamento excessivamente tecnicista. As pesquisas tendem a se concentrar sobre o meio, não sobre o receptor. Quanto ao futuro, entretanto, estou otimista. Acredito que haverá um aumento da consciência e que implementaremos leis, regulamentações que irão reduzir o poder dos Gafam [acrônimo das gigantes da internet Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft].

Ao mesmo tempo, é necessário levar o pensamento crítico às escolas e, à medida que as pessoas começarem a se dar conta da fragilidade da internet por causa de falhas e acidentes [por causa de problemas de conexão, vírus, roubo de dados etc.], elas irão perceber que renunciaram demasiadamente à sua liberdade. Na verdade, os seres humanos precisam recuperar um pouco sua autonomia crítica.

JU – O senhor acredita que as pessoas abdicaram da sua liberdade ou foram levadas a essa condição, em consequência do avanço da tecnologia da comunicação?

Dominique Wolton – Elas renunciaram, desistiram de sua liberdade porque a atração pelo progresso técnico é muito grande. Eu aposto, contudo, que dentro de 10 a 15 anos isso mudará. A geração que nasceu com o computador, com a internet, será a primeira a colocar limites à tecnologia e a querer encontrar as relações humanas, o debate, a presença. Sair de tudo que é feito por meio de redes, no virtual. Porém, no momento, ainda estamos fascinados pela tecnologia.

JU – Qual a sua opinião sobre o papel e o potencial da inteligência artificial nesse contexto de avanços técnicos?

Dominique Wolton – A cada cinco anos, desde os anos 1970, surge um mito de que tudo vai mudar – informática, autoestradas da informação, ciberespaço etc. É uma loucura. Existe um mito de que tudo vai mudar por causa de uma nova tecnologia. Com a inteligência artificial não é diferente. E existe uma ideologia técnica envolvida nessa questão, porque existem interesses econômicos no desenvolvimento da inteligência artificial. Sim, há possibilidades, claro, mas a questão do controle, da necessidade da educação para lidar com a tecnologia e de se colocar limites à inteligência artificial surgirá da mesma forma como foi colocada no passado para outras tecnologias. Ademais, existe um equívoco no termo inteligência artificial: sim, é possível existir uma inteligência artificial, mas a artificialidade nunca pode criar inteligência. É aqui que há uma confusão. É por isso que temos de trabalhar para determinar até que ponto a inteligência artificial é útil e quando devemos abandoná-la totalmente.

JU – E como podemos desenvolver a negociação em um mundo no qual as pessoas passam o dia todo nas suas próprias bolhas virtuais?

Dominique Wolton – Elas vivem em bolhas, mas, depois de um tempo, vão se cansar de estar na bolha por conta da necessidade de tocar, de falar com pessoas, de amar e tudo mais. Porém, por enquanto, como existe a crença de que a comunicação humana é difícil e de que a comunicação técnica é ótima, acreditamos que esta última vai resolver tudo. Será em uma terceira etapa que voltaremos ao equilíbrio.

JU – Então, na sua opinião, talvez estejamos em uma transição?

Dominique Wolton – Sim, e tudo isso parece lento no tempo de uma vida, mas, para a história, é curto.

JU – Para concluir, que caminho ou trajetória possível o senhor vislumbra para a paz e a democracia nos nossos dias, nesse contexto de transição?

Dominique Wolton – O problema é que existem mil oportunidades para fazer a guerra, mas acredito que a questão central é que hoje o mundo é transparente por causa da comunicação técnica que gera uma intensa produção e circulação de informação. Por isso, vemos muito mais as diferenças e, além disso, nós não compreendemos por que não nos entendemos. Por isso, o risco de hostilidade em relação ao outro se intensifica. Portanto, a questão da comunicação é política, não é técnica. E leva à necessidade de se educar contra o racismo, contra o ódio, contra o massacre dos imigrantes e tudo o que permita ao homem conseguir reconhecer o outro e perceber que não tem o direito de massacrar a pessoa que está na frente dele, mesmo que não a entenda. E dessa forma encontramos a questão da centralidade do outro, o que nos leva à necessidade de refletir sobre e lidar com ele.


Publicação do Jornal da Unicamp

Foto: Felipe Bezerra

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