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Opinião

Crypto Crash Reloaded: a falência da FTX e a desilusão libertária

Crypto Crash Reloaded: a falência da FTX e a desilusão libertária

Artigo por RED
26/11/2022 14:30 • Atualizado em 28/11/2022 19:21
Crypto Crash Reloaded: a falência da FTX e a desilusão libertária

De ANDRÉ MOREIRA CUNHA, LUIZA PERUFFO e ANDRÉS FERRARI*

Em termos de criptomoedas em geral, posso dizer quase com certeza que elas terão um final ruim. Se eu pudesse comprar uma opção de cinco anos em cada uma das criptomoedas, ficaria feliz em fazê-lo, mas não creio que valha um centavo. (Warren Buffet, CNBC, Janeiro de 2018)

 

O longo inverno dos criptoativos

Não foi por falta de avisos. Em pouco tempo, o mercado de criptoativos deixou de ser a fronteira da especulação financeira e o reino mágico da reinvenção das relações monetárias, para se tornar mais um dos casos notórios de colapso financeiro. Em 11 de novembro, a FTX, criada pelo influente Sam Bankman-Fried, entrou com seu pedido de falência. Aquela que fora a terceira maior plataforma de negociações de criptoativos, especializada em contratos derivativos destes instrumentos, atraiu milhares de investidores e sócios famosos, os quais estabeleceram contratos de longo prazo que os fizeram afundar junto com mais este navio fantasma.

Além das perdas diretas, que devem ultrapassar os US$ 32 bilhões em sua capitalização, e da queima na riqueza pessoal do seu fundador, estimada em US$ 16 bilhões, a falência da FTX aprofundou os problemas de liquidez no mercado de criptoativos. O ritmo de vendas e, portanto, de queda no valor de mercado dos ativos ganhou força a partir de maio do corrente ano, com a falência do Luna Terra, um tema já tratado por nós. Em momentos disruptivos como este, quem está ilíquido tenta sair (vender suas posições) e não consegue, enquanto quem está líquido não quer entrar (comprar ativos e seus contratos derivados). Sem prestamistas em última instância ou investidores grandes e suficiente ousados para criar portas de saída, os preços seguem colapsando. Ainda mais em um contexto de alta de juros, recessão em vista e maior aversão ao risco. Os estragos tendem a crescer, segundo o detalhado relatório da Coinbase, outra plataforma para a negociação destes ativos: “Os eventos infelizes em torno do FTX, sem dúvida, prejudicaram a confiança do investidor na classe de ativos digitais. A correção levará tempo e, muito provavelmente, isso poderá estender o inverno cripto por vários meses, talvez até o final de 2023…”

O cenário desenhado pela Coinbase não surpreende. A doença das manias especulativas e a busca dos ricos em escapar da regulação estatal e da necessidade de comprovar a origem (e o destino) dos seus recursos são bastante conhecidos na literatura. Em artigos anteriores, mostramos como as criptomoedas nasceram a partir da inspiração libertária em se retirar do Estado o poder de monopólio da emissão monetária. A promessa de liberdade e de eficiência serviu apenas para criar opacidade e uma mania especulativa fundamentada no nada.

Um ano para esquecer, velhos exemplos para lembrar

Os últimos doze meses não foram nada fáceis para quem embarcou na ilusão libertária. Na primeira quinzena de novembro de 2021, a capitalização de todos os instrumentos transacionados neste mercado chegava a quase US$ 3 trilhões, com um giro diário de US$ 90 bilhões, em média. Hoje, tais montantes são de US$ 800 bilhões e US$ 45 bilhões, o que significa que houve contrações de -73% e -50%, respectivamente. Para se colocar em perspectiva, no mesmo período o mercado de renda fixa apresentou quedas pouco acima de 10%, em média. No mercado acionário, destacamos os seguintes indicadores nos últimos doze meses: Dow Jones (-6%), S&P 500 (-15%), Nasdaq (-29%), Shanghai Stock Exchange (-14%), Euro Stoxx 50 (-11%), Nikkei (-6%), Hang Seng/Hong Kong (-29%), para citar alguns.

Após mais de uma década de resultados excepcionalmente favoráveis, constituídos a partir dos estímulos monetários inéditos, os mercados financeiros se tornaram baixistas. Ao longo do ano de 2022 e com projeções para o futuro próximo, percebe-se que o ambiente econômico global se tornou mais adverso, com destaque para: (i) a desaceleração no ritmo de crescimento da renda nas maiores economias; (ii) a inflação em alta, que agora atinge os maiores níveis dos últimos quarenta anos; (iii) a guerra na Ucrânia e os lockdowns na China, que desorganizaram, ainda mais, alguns nódulos importantes das cadeias globais de suprimento de alimentos, energia, manufaturas e insumos diversos; e (iv) os conflitos políticos domésticos e internacionais que se exacerbam, multiplicando incertezas.

Ainda assim, o comportamento dos mercados de criptoativos tem sido particularmente negativo. Trata-se de uma queda colossal e que ainda está em curso. Tal colapso reproduz a história clássica das manias especulativas e das crises financeiras. Conforme nos ensinaram Irving Fisher, Charles Kindleberger, Hyman Minsky e seus intérpretes contemporâneos, os movimentos especulativos nascem de períodos nos quais há a convergência de vários elementos, com destaque para as condições de elevada liquidez nos mercados monetários; a disposição de investidores para correr mais riscos, especialmente em ativos inovadores e pouco transparentes; a existência de expectativas de ganhos acima dos padrões normais; a emergência de crescente alavancagem dos agentes e, com isso, a maior exposição relativa às mudanças abruptas dos mercados, para citar alguns.

A disposição dos investidores em se tornarem cada vez mais ilíquidos se traduz no aumento da alavancagem (uso de recursos de terceiros, usualmente dívidas, frente ao capital próprio). Este movimento é sancionado pelos bancos, particularmente quando a liquidez é abundante e as taxas de juros são muito baixas. Movidos pelo crédito barato, os investidores vão às compras e se esquecem que elefantes não voam e girafas não cabem nas tocas dos ratos. Por decorrência, os preços dos ativos disparam de forma descolada frente à capacidade de geração de resultados operacionais positivos (lucros, rendas etc.) por parte dos seus emissores (empresas, governos etc.). O teatro da racionalidade dos agentes e da eficiência dos mercados está lotado nos momentos de alta dos ciclos financeiros. Porém, quando da inversão destes, o admirável público corre para a porta de saída, sempre muito estreita.

No caso dos criptoativos, agrega-se uma especificidade marcante: não há quaisquer fundamentos reais ou resultados operacionais a serem avaliados, permitindo separar o joio do trigo. A ilusão de que as stablecoins, por estarem formalmente atreladas a um ativo subjacente, usualmente dólar estadunidense, já desapareceu com a crise da Luna (Terra). Tal lastro, per se, de nada adianta se os instrumentos e seus emissores não estiverem sujeitos a padrões mínimos de regulação, capazes de dar transparência e credibilidade às informações contábeis. O mundo dos criptoativos lida com a especulação em estado puro e, pelo menos até aqui, seu único lastro é a promessa de ideólogos libertários e o comportamento de gestores de investimentos que vendem “vento rosa” nos mercados à vista e sua derivada segunda, as “tempestades lilases”, nos mercados futuros.

As moedas digitais e as tecnologias que lhes dão vida vieram para ficar. São meios que permitem realizar transferências de bens, serviços e direitos de propriedade nos marcos da Revolução Digital. Já o destino dos criptoativos privados segue incerto, como bem resume a The Economist: “Se os criptoativos sobreviverão ou se tornar-se-ão uma curiosidade financeira como o bulbo da tulipa, isso não dependerá apenas da regulamentação.

Quanto mais escândalos ocorrem, esta inciativa e suas aspirações ficarão contaminadas. A atratividade desta inovação não significará nada se os investidores e usuários temerem que seu dinheiro desapareça no ar. Para que os criptoativos subam novamente, eles devem encontrar usos válidos, que deixem a esperteza para trás”.

Da mesma forma, os ativos emitidos com base em determinados instrumentos monetários seguirão tendo por fundamento a qualidade dos seus emissores, quer sejam Estados Nacionais, quer sejam empresas financeiras ou não financeiras. No complexo ecossistema das finanças modernas, não há, até aqui, concorrência à vista para as moedas estatais e, dentre estas, para o dólar estadunidense, capazes de cumprir o papel de referência para os contratos.

Não à toa, investidores calejados não se iludiram com o brilho artificial dos criptoativos. Sabem da importância da moeda estatal, especialmente em momentos de crise. O guru fundamentalista Warren Buffet dizia, já em 2018, que tais instrumentos eram “veneno de rato ao quadrado”. Em 2014, o oráculo de Omaha alertava que: “Não é uma moeda. Não atende ao teste de uma moeda. Eu não ficaria surpreso se não existisse em 10 ou 20 anos. Não é um meio de troca durável, não é uma reserva de valor. Tem sido um tipo muito especulativo de coisa do tipo Buck Rogers e as pessoas compram e vendem porque esperam que subam ou desçam como fizeram com os bulbos de tulipa há muito tempo.”.

Da mesma forma, com a crise da FTX, Janet Yellen, secretária do Tesouro dos Estados Unidos, reafirmou que os criptoativos são “… extremamente arriscados e até mesmo perigosos”, de tal sorte que os investidores deveriam ser “… extremamente cautelosos em suas atividades neste domínio.”. Outros influentes investidores e bilionários das finanças globais sempre foram ou se tornaram “cripto céticos” após perderem dinheiro. John Paulson sempre as considerou “sem valor”. Ray Dalio teve de se dobrar aos fatos e passou de entusiasta a crítico. Neste movimento, apelou à famosa justificativa de Keynes: “quando os fatos mudam, eu mudo de opinião”. Carl Icahn, por sua vez, alterou sua perspectiva ao sabor da volatilidade extrema deste mercado. De crítico mordaz passou a sugerir, em outubro de 2021, que o Bitcoin seria um porto seguro para uma iminente crise financeira. Após a falência da FTX, além de apostar contra tais instrumentos, aventou a hipótese de contaminação sobre outros segmentos dos mercados financeiros. Dan Loeb demorou a entrar na onda altista digital, mas teve o seu momento de mergulho profundo em 2021. Recentemente, negou com veemência estar disposto a socorrer a FTX. Além dos grandes tubarões, também perderam os pequenos investidores que esperavam a riqueza fácil e rápida.

A cada novo “cripto choque”, a lista dos “cripto arrependidos” se multiplica e já deve ser tão extensa que poderia lotar o Quarto Círculo do Inferno de Dante, local reservado aos que pecam pela ganância desmedida.


*Docentes do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFRGS.

Imagem em Pixabay.

As opiniões emitidas nos artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da Rede Estação Democracia.

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