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Opinião

Comunismo ganha novas (velhas) definições

Comunismo ganha novas (velhas) definições

Artigo por RED
26/02/2023 05:30 • Atualizado em 28/02/2023 08:45
Comunismo ganha novas (velhas) definições

De EDELBERTO BEHS*

Quando realizavam a cobertura das cheias em São Sebastião, São Paulo, dia 21 passado, repórteres do jornal O Estado de S. Paulo sofreram agressão ao filmarem o alagamento no condomínio de luxo Villa de Anoman, em Maresias. Além da agressão foram chamados de “comunistas e esquerdistas”. Antes do condomínio, reportaram a situação que encontraram na Vila Sahy, onde morreram mais de 30 pessoas pelas cheias

Se adotado o critério que palavras ganham no uso popular, dicionários em português do Brasil terão que acrescentar novas, mas na verdade ultrapassadas definições para o verbete “comunista”. É uma herança deixada pela ditadura militar, que caçou “comunistas” Brasil afora depois do golpe de 64, quando, na análise do jornalista Flávio Tavares, em Memórias do Esquecimento (L&PM, 2012), nasceu um “enfermiço ‘anticomunismo’ fantasmagórico e onipresente”.

Tavares relata o que a ditadura militar entendia por comunismo. “Tudo aquilo com que o regime não concordava era rotulado de ‘comunista’, uma forma de prescrever e jogar ao lixo qualquer ideia nova ou mesmo a tradição antiga. Aos borbotões, como cogumelos na relva após a chuva, viam-se ‘comunistas’ por todos os lados”.

No pleito passado, esse foi um dos motes da campanha de um dos candidatos à presidência da República. Passados 58 anos, o “anticomunismo fantasmagórico” continua iludindo brasileiros e brasileiras que sequer sabem definir o que é comunismo, a não ser nominar de comunista quem não tem o mesmo pensamento, via-de-regra um lugar comum sem qualquer substância.

É por exemplo a definição de comunista ditada pelo brigadeiro João Paulo Penido Burnier, então chefe do gabinete do ministro da Aeronáutica durante o governo militar. “Para simplificar, quem tenha profissão liberal – jornalistas, advogados, sociólogos, médicos, arquitetos, economistas etc., 90% são comunas”. Se a erudição de um brigadeiro chega a tal conhecimento, o que dizer daquelas, daqueles que jamais pegaram em mãos um livro de História!

Aliás, de algumas “otoridades” seria até surpreendente chegar a uma definição mais elaborada. Quando morava em Brasília e atuava como comentarista político do jornal Última Hora, Flávio Aristides Freitas Hailliot Tavares, natural de Lajeado, no Rio Grande do Sul, teve o seu apartamento revistado pela polícia.

Para gaudio dos policiais, encontraram um livro com a foice e o martelo na capa, “e resolveram apreender todos os demais”, conta o jornalista. “Eram volumes que o USIS, o serviço de imprensa da Embaixada dos Estados Unidos, enviava a jornalistas e – por serem propaganda anticomunista – traziam invariavelmente na capa os símbolos soviéticos ou a palavra ‘comunismo’”.

O surrealismo não fica restrito ao passado. A recente exposição de Roberto Burle Marx provocou certa algaravia entre associados da FIESP, que entenderam tratar-se do autor do Manifesto Comunista, o barbudo alemão Karl Marx. Ah, tem Marx no nome, mesmo que seja um artista plástico e paisagista, só pode ser comunista.

Então, o “comunista” ainda é aplicado hoje para definir, de forma ridícula, tudo aquilo com o que “pessoas de bem” não concordam, como ocorreu com a equipe do Estadão atacada por moradores de condomínio de luxo, mesmo autorizada por funcionários e outros residentes a realizarem a cobertura dos estragos da enchente na área. O repórter fotográfico foi obrigado a apagar as fotos que estavam na câmera e a repórter, empurrada, caiu na água barrenta, pois tentaram arrancar o celular das mãos dela.

Para antecipar eventuais outros enganos, vale lembrar a esse pessoal que logo apela ao comunismo que além de Roberto Burle Marx também atuaram no teatro os irmãos Marx. Um deles, o Groucho, fazia humor com essa proximidade: “Sou marxista, da tendência Groucho”. E pasmem, até o papa Francisco se declarou comunista: “Se vejo o Evangelho apenas de maneira sociológica, sim, sou comunista, e Jesus também!”

O livro de Atos dos Apóstolos, no Novo Testamento, relata como viveram os cristãos primitivos: “Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum” (Atos 4, 32). Foram os primeiros comunistas!


*Professor, teólogo e jornalista.

Imagem em Pixabay.

As opiniões emitidas nos artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da Rede Estação Democracia.

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