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Opinião

Cala Bozo, traidor-mor de Guararapes!

Cala Bozo, traidor-mor de Guararapes!

Artigo por RED
12/10/2022 06:15 • Atualizado em 13/10/2022 23:38
Cala Bozo, traidor-mor de Guararapes!

Por WALTER MORALES ARAGÃO*

Estas linhas pretendem ser um desagravo singelo aos/às nordestinos/as ante o mais recente ataque racista de Bozo. Eu, Walter Aragão, sou porto- alegrense de ascendência nordestina. Meu avô, João, era cearense e mudou-se com a esposa Francisca e seus filhos para o Maranhão. Meu pai, Joaquim, já foi criado lá e prestou serviço militar em São Luiz, no Batalhão de Caçadores. Ali recebeu promoção a cabo, o que muito lhe orgulhou. Ainda jovem, como milhões de nordestinos/as na época, foi trabalhar nas fábricas de São Paulo. Estudou eletrônica e veio para o Rio Grande do Sul devido a uma novidade: o início aqui das transmissões de TV, nos anos 50. Casou-se com a pelotense Suelly e radicaram-se em Porto Alegre. A ponte móvel sobre o Guaíba acabara de ser construída e a chaminé fumegante do Gasômetro sugeria progresso. Tal fragmento de história familiar é um dos motivos do meu desagrado pessoal com a nova fala discriminatória contra os/as eleitores/as do Nordeste do pretendente espúrio a imperador, Bozo. Ele não tem mesmo noção republicana alguma, pois esta supõe respeito à igualdade.

Há, porém, um segundo motivo de indignação. É que, naquele mesmo insulto público, Bozo ofendeu, em paralelo, o próprio Exército Brasileiro (EB): a saber, o Exército Brasileiro nasceu no Nordeste, conforme sua própria História Oficial! O Dia do Exército, 19 de abril, celebra a data da primeira batalha de Guararapes, em 1648, na então capitania de Pernambuco. O sítio histórico localiza-se hoje no município de Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana de Recife. Naquele evento, um contingente formado pelos indígenas comandados por Filipe Camarão, pelos negros de Henrique Dias e por brasileiros descendentes de portugueses como Vidal, Vieira, Cardoso e Barreto de Menezes antecipou a formação da nacionalidade brasileira, ao reunir, naquele momento do Período Colonial, as três grandes etnias constitutivas. Aquele embrião históricos infligiu uma primeira derrota pesada às tropas holandesas, superiormente armadas, e que tinham invadido Recife alguns anos antes. E, no início de 1649, através de uma segunda vitória, acabou de vez com a Nova Holanda em terras brasileiras. Nesta ocasião, mataram inclusive comandantes batavos importantes como Van den Brinck e causaram mais de dois mil mortos na tropa invasora.

A propósito, uma Lei Federal de 2012, a 12.701, no governo de Dilma Rousseff, determinou a inscrição dos nomes dos protagonistas brasileiros de Guararapes no Livro de Aço, o Livro dos Heróis da Pátria.

Bozo e os seus comparsas são, assim, parasitas de um militarismo superficial e cosmético, posto que entreguistas contumazes das riquezas nacionais a estrangeiros. Aproveitam-se do justo prestígio das Forças Armadas na sociedade, ao tempo que fazem um “trabalho de sapa” na soberania efetiva do Brasil. Assim, sua desconsideração recorrente e renovada com o Nordeste tem, no mais recente episódio preconceituoso, não um ponto fora da curva, mas uma tentativa coerente de supremacismo, de colonialismo interno e de saturação anacrônica e ilegal, inaceitáveis à luz da Carta Magna de 1988. Uma grave desconsideração à região berço do Exército Brasileiro.

As tendências eleitorais do momento parecem indicar, de forma alvissareira, que a maioria do eleitorado enviará as políticas de Bozo aos anais da História, onde talvez fiquem pior situadas do que as decisões ambíguas de Calabar, o guia que aliou-se aos holandeses e foi enforcado, posteriormente, pelos portugueses. Os poetas, músicos e dramaturgos poderão compor talvez novas peças, elogiando o avanço civilizatório nacional . Quiçá finalizando os dramas com a máxima “Cala Bozo!”.


*Professor de Filosofia, doutor em Planejamento Urbano e Regional e segundo-tenente R2 de Infantaria pelo CPOR de Porto Alegre, RS.

A “sapa” é a denominação, na gíria militar, de um conjunto de atividades da engenharia de combate, destinadas à destruição de fortificações através da escavação de túneis e outros meios.

Foto reprodução.

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